Opinião

The great resignation: a certeza da incerteza

Carlos Rocha, economista e gestor*

Há dois meses escrevia que a grande demissão tinha sido produto da pandemia mas tinha sido potenciada por três fatores, entre os quais o fator económico, na medida em que, em fases de crescimento económico, a tendência dos trabalhadores, em mercados flexíveis como nos EUA, é demitirem-se para poderem procurar novos empregos com salários mais elevados.

Era o que tinha ocorrido desde o ano passado nos EUA onde até abril, e pelo décimo mês consecutivo, acima de 4 milhões de americanos por mês, tinham deixado seus empregos. Também mostramos o paradoxo de, só em fevereiro, terem sido contratados mais de 6.7 milhões de trabalhadores, o que mostrava a dinâmica de um mercado laboral flexível, onde as demissões e contratações são normais e rápidas, mas em contexto de crescimento económico.

Inclusive mostramos que os salários por hora em fevereiro tinham aumentado em 5.1% em relação ao ano anterior. Já em abril este ganho médio tinha sido de 0.3%.

E agora? O que mudou? Bem….. agora….., sabe…, é que…….

O fator económico que estava a favor dos trabalhadores alterou-se, radicalmente, um mês para outro. Algumas causas foram:

Primeiro, foi a disrupção na cadeia de abastecimentos internacionais; fruto indireto da grande demissão (ligada aos confinamentos) as cadeias de produção e abastecimentos internacionais viram-se privados de mão de obra e de matérias primas, provocando escassez de vários produtos e consequente aumento de preços;

As empresas viram-se em situação de penúria de recursos humanos, pois como já referimos nos artigos anteriores, os trabalhadores se deram ao luxo de se autodemitirem porque havia garantia de novos empregos e melhor renumerados. Os dados estatísticos de Departamento do Trabalho nos EUA e no Reino Unido mostram aumentos salariais nominais no primeiro semestre. Por exemplo, os ganhos médios salarias em junho foram de 5.1% nos EUA. Manter talentos e recrutar novos tornou-se muito caro para as empresas.

Segundo, a guerra na Ucrânia foi outro fator que reforçou a disrupção na cadeia de abastecimentos internacionais provocando novo aumento de preços nas matérias primas e na energia. Esses aumentos foram repassados à economia, tendo a inflação, nos EUA atingido os valores mais altos em quatro décadas. Este aumento de preços é mundial.

Terceiro, este aumento de preços a níveis sem precedente na história recente, despoletou uma ação mundial no sentido de os bancos centrais aumentarem as taxas de juros para, supostamente, combaterem a inflação, provocada pela escassez da oferta (a tal disrupção na cadeia de produção e distribuição internacionais), e não pelo aumento da procura. O banco central dos EUA aumentou a sua taxa de referência duas vezes consecutivas, enquanto que o banco central Europeu já fez o primeiro aumento em mais de uma década, seguido por muitos outros bancos centrais.

E o resultado: com este cenário, muitos economistas e organizações internacionais já preveem uma recessão em 2023. Ou antes, pois os EUA já tiveram dois trimestres com crescimento negativo, o que, tecnicamente, define uma recessão, não obstante ainda o mercado laboral (o último a reagir) dar sinais de algum vigor.

Perante cenários de recessão, significa que as empresas produzirão menos, pelo que terão de redimensionar as atividades e reduzir custos. A mão de obra é sempre sacrificada, pelo que acabam por demitir os trabalhadores mais recentes ou pelo menos, não contratar novos colaboradores.

Foi o que fizeram as grandes empresas tais como Tesla, Gopuff, Re/Max, Coinbase e Microsoft. Outros como Apple Goldman Sachs congelaram novas contratações. Nem o sector tecnológico escapou, pois de acordo com o Insider, mais de 30.000 trabalhadores do sector perderam seus empregos em julho.

Com empresas a não contratarem, os demissionários que queriam mais flexibilidade, mais salários e teletrabalho, ficaram, repentinamente, desempregados e arrependidos.

E foram essas alterações que ocorreram, repentinamente, e que alteraram a situação do mercado laboral a ponto da Grande Demissão se transformar em Grande Arrependimento. Sim, muitos empresas já se arrependeram de ter contratado tanto, ao mesmo tempo que muitos trabalhadores se arrependeram de terem entregue a sua carta de demissão. Mas isso será para o próximo artigo, se Deus quiser, pois por agora a única certeza é a incerteza.

* As opiniões são apenas do autor e não vinculam nenhuma instituição.

 

 

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Carlos Rocha

Carlos Rocha

Carlos Rocha é economista e atualmente é vogal do Conselho de Finanças Públicas de Cabo Verde e ex-presidente do Fundo de Garantia de Depósitos de Cabo Verde. Foi administrador do Banco de Cabo Verde, onde desempenhou anteriormente diversos cargos de liderança. Entre outras funções, foi administrador executivo da CI - Agência de Promoção de Investimento. Doutorado em Economia Monetária e Estabilização macroeconómica e política monetária em Cabo Verde, pelo Instituto Superior de Economia e Gestão – Lisboa, é mestre em... Ler Mais..

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