Num jantar de Setembro, o meu pai atirou para cima da mesa um recorte do Expresso, com um texto de Mário Dionísio. Sabia o meu pai que aquilo despertaria em mim uma visão ainda mais clara do que somos como país.

O texto é este:

“País de azulejos partidos
de erva trepando entre paredes em ruína
País entregue à sua sina
Sem olhos e sem ouvidos

País voraz ruminando o almoço
Rindo ou chorando incapaz de sorrir
País de corpo aberto a quem está a seguir
País do rastejar entre a pele e o osso

Pulinhos para trás e para a frente
de polegar na cava do colete
foguetes procissões uns copos de palhete
país da pequenez de si mesma contente

País indiferente aos que dão por ele a vida
País herói se não há perigo em sê-lo
País de velhos do Restelo
dando à mão-baixa perto e consentida

País que tudo quer e nada quer tudo suporta
País do faz como vires fazer
País do quero lá saber
do quem vier depois que feche a porta”

(Mário Dionísio in “ Terceira Idade”, 1982)

Sou daqueles que acham que temos o país que queremos e somos o que construímos. Mais do que qualquer pressão internacional, troika, ministro das finanças daqui ou dali, ninguém tem mais poder do que nós próprios para decidir o que fazer e como fazer, sempre que nos levantamos e saímos de casa todos os dias.

Temos a fraca tentação de apontar sempre para os outros e não apontar para nós próprios. O egoísmo de fugir à exigência e escolher o facilitismo sobrepõe-se quase sempre a um compromisso de seriedade, honestidade e transparência.

Os exemplos dos pobres que nos lideram, alimentam ainda mais essa escolha.

No Mundo atual, alguns países optam por virar a agulha e voltar ao que era simples e que temporariamente foi abandonado. Na Dinamarca, a agricultura volta a ser toda biológica, em França os plásticos vão ser proibidos. Parece que o que os antigos faziam, faziam bem. Descobrimos que é lá que temos que voltar. Ao que é simples e direto. Que nos equilibra.

Talvez um dia, esta mesma revolução chegue ao domínio dos valores e dos comportamentos. Para isso, vamos ter que abandonar o populismo do facilitismo, valorizar o mérito, incentivar a exigência e a disponibilidade para ajudar o outro. Assim. Simples. Sermos capazes de pensar no outro antes de pensar em nós.

Talvez nesse dia e nesses tempos, as ruinas deixem de ter ervas e os nossos heróis sejam aqueles que correram perigos por todos nós.

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Sobre o autor

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Luís Ahrens Teixeira é Sócio-Gerente Herdade da Cortesia Hotel e Presidente da Federação Portuguesa de Remo. Licenciado em economia pela UNL, foi atleta de Alta Competição de Remo entre 1993 e 2004, onde venceu a medalha de bronze nos Mundiais de... Ler Mais