Já por várias vezes tive a oportunidade de dizer que uma das principais consequências da pandemia que vivemos passa pela forçosa adaptação dos métodos tradicionais de trabalho, com a paulatina – ou repentina, em alguns casos – substituição da utilização massificada de escritórios pela opção do teletrabalho.

Esta realidade tem evidentemente vantagens e desvantagens, quer na perspetiva das empresas quer dos próprios trabalhadores. Se por um lado a opção – ou imposição – pelo teletrabalho permite uma redução evidente de custos fixos nas empresas, uma maior satisfação generalizada dos trabalhadores, uma redução de custos de deslocação e, em vários casos, uma maior autonomia e gestão do próprio tempo, não são poucas as críticas que também podemos fazer. Com efeito, e para além de um acréscimo de custos pessoais dos trabalhadores resultantes da transformação dos seus lares em escritórios, a nível empresarial temos como evidente a crescente perda de identidade corporativa, a menor interação entre colegas e, eventualmente, uma possível perda de eficiência no desenvolvimento das tarefas profissionais.

Sem prejuízo do interesse que desperta a temática do teletrabalho, das alterações práticas, legais e regulamentares que tal determina, e do impacto que claramente tem na nossa sociedade, assumindo-se como um pilar efetivo e, digo eu, perene para o nosso futuro, o que releva agora para este texto será aquilo a que esta modalidade de prestação de serviços obriga a nível dos trabalhadores.

Num contexto individual, a opção pelo teletrabalho parece recheada de vantagens, entre as quais podemos destacar a capacidade – maior ou menor – de gestão do próprio tempo, a possibilidade de adaptação maior do local de trabalho (em casa, claro) às necessidades e conforto de cada um, a redução de deslocações intermináveis, o evitar o trânsito das cidades, o corte substancial dos custos de alimentação no exterior, etc.. Por outro lado, podemos sempre argumentar que perdemos o contato humano, a capacidade de dialética e troca de ideias e impressões com os nossos colegas, a possibilidade de mudar de ambiente, entre outras mais-valias que normalmente se associam em contraponto a este confinamento.

Mas assumindo que a opção pelo teletrabalho é globalmente benéfica – na sua generalidade, para empresas e trabalhadores -, ainda assim é algo que muito exige dos profissionais que estão sujeitos à mesma. Senão vejamos. Tomemos como exemplo um agregado familiar “comum”, composto por quatro a cinco pessoas (dois adultos e duas a três crianças), em que devido a um caso positivo de Covid-19 é, segundo as regras atuais, tendencialmente (porque há exceções, claro) forçado a isolamento durante o período de uma semana.

Mantendo um horário normal de despertar, e tirando aqueles cuja capacidade de gestão familiar claramente ultrapassa a do “comum dos mortais”, o descalabro começa logo no momento de meter os pés fora da cama… Falta pouco mais de uma hora para o início do horário de trabalho e das aulas online e é preciso urgentemente tirar os miúdos da cama (tarefa hercúlea durante o período da semana, apenas facilitada exponencialmente durante os fins-de-semana e férias onde o despertador interno funciona tipo relógio suíço), providenciar pelos pequenos-almoços (que devem ser devidamente ponderados em função da redução do exercício físico desenvolvido durante os períodos de confinamento), fazer a gestão do vestuário (sempre permitindo um relaxamento nas áreas que não são captadas pelas webcam), organizar a higiene matinal de todos, dar comida ao cão, ao gato e ao periquito, limpar a mesa do leite que entretanto foi entornado, trocar a roupa da filha que afinal não gosta de se ver com aquele conjunto de cores, arrumar a cozinha, fazer as camas e, finalmente, e chegar ao horário inicial de atividades.

Neste momento começa o drama das conectividades. Quatro a cinco pessoas espalhadas pela casa iniciam o seu processo de ligação em sintonia a diferentes entidades (escritório, escola, emails, plataformas diversas, etc.). A internet falha, ninguém sabe as passwords de cor, as aulas começam, mas os alunos não entram nas salas virtuais, os pais começam a furiosamente trocar mensagens de WhatsApp a pedir ajuda uns aos outros. O ruído de fundo aumenta enquanto dezenas de crianças iniciam as hostilidades virtuais e os professores berram a exigir silêncio, a rede cai repetidamente, tudo isto enquanto tentamos iniciar uma qualquer reunião de trabalho com mais cinco ou seis pessoas que atravessam o mesmo calvário. Ah, e tudo isto sem falar da divisão especial, assim tipo cela de Alcatraz, onde está em isolamento a pessoa infetada que nos trouxe a todos para casa, a quem damos assistência remota e passamos os pratos de comida entre as frechas da porta, claro está.

Mas assumindo que a coordenação é exemplar, ao estilo dos verdadeiros Navy Seals ou Força Delta, lá conseguimos dar a volta por cima, ter várias reuniões, escrever relatórios, enviar emails, assegurar as refeições, gerir as aulas por zoom, fazer e receber compras online durante o dia, cozinhar, limpar e tudo mais que acontece durante estes dias de isolamento. Mas lá que é difícil, não há dúvidas, e exige muito trabalho, mais do que quanto não estamos… em teletrabalho.

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Nuno Madeira Rodrigues é Country Manager PT Arnold Investments e Chairman da BDJ S.A. Anteriormente foi Chairman da Lusitano SAD, Administrador do Grupo HBD e Presidente do Conselho de Administração da Lusitano, SAD, e do Conselho Fiscal da Associação Lusófona... Ler Mais