Atualmente, enquanto um paciente é atendido numa consulta, uma grande parte do tempo o médico está a tirar notas no computador ou a ver o seu histórico, pelo que a interação mais direta fica reduzida a poucos minutos. Por isso, como poderão as start-ups que desenvolvem tecnologia de voz tornar a relação médico-paciente mais humana?

Para além da redução da interação humana, as longas horas de trabalho destinadas à documentação leva muitos profissionais da saúde a sofrer de esgotamento e depressão. Nos EUA por exemplo, um clínico passa pelo menos três horas por dia só a realizar tarefas relacionadas com a atualização de documentos e dados. Este cenário tornou os médicos nos operadores de introdução de dados mais bem pagos do mundo

Para enfrentar este problema, duas start-ups de Seatle, a Saykara e a Tuzag, estão a desenvolver assistentes de voz que têm como objetivo tornar a prestação de serviços de saúde mais humana, reduzindo o trabalho dos médicos ao computador para que estes possam interagir mais com os pacientes.

Segundo Harjinder Sandhu, CEO da Saykara, os médicos passam muito do tempo de serviço a introduzir informação nos computadores. Para que o tempo de trabalho dos médicos seja otimizado, o empreendedor desenvolveu um assistente de voz que ouve silenciosamente as conversas naturais entre o profissional e o doente, e que transforma essas conversas em notas que refletem o que o médico normalmente escreveria na ficha clínica.

O empreendedor interessa-se por este problema há quase 20 anos. Nessa época, Sandhu esteve ligado a uma start-up que desenvolveu um sistema de transcrição para a documentação escrita pelo médico, um trabalho anteriormente feito por transcritores humanos. No caso do assistente de voz, estes sistemas apresentam uma forma de recolher e processar todos os dados de uma consulta médica em menos tempo. Num futuro próximo, este empreendedor acredita que os pacientes poderão interagir com os assistentes de voz antes que o médico entre no gabinete.

Aplicações de voz para a saúde com um toque humano

As aplicações de voz também podem modificar a experiência de assistência médica dos pacientes. A start-up de tecnologia de saúde Tuzag está a desenvolver assistentes de conversação em Inteligência Artificial (IA) para conversar com pacientes ,usando interfaces de voz e chat.

Na opinião do CEO da Tuzag, Neal Sofian, é importante recolher outro tipo de dados que na maioria dos casos não é compilado na ficha clínica, como pormenores sobre o contexto ambiental do paciente e que são conhecidos como determinantes sociais da saúde. Esses fatores afetam o tipo de cuidado que um doente deve receber, mas muitas vezes não são captados nas consultas de rotina.

Ao serem colocadas mais questões pessoais, através de um assistente de voz durante uma consulta, os médicos podem melhorar o relacionamento com os pacientes. Embora nem todos se sintam à vontade para divulgar detalhes pessoais a um assistente de IA, o CEO da start-up é da opinião que a maioria das pessoas adotará a ideia desde que receba algo em troca.

“Se as pessoas perceberem antecipadamente que há algo de valor, não irão pensar na questão da privacidade”, disse Sofian. Mas adianta: “há uma parte da população que, pelo contrário, vai importar-se com isso, o que deve ser absolutamente respeitado. O sistema deve por isso permitir que o paciente possa desativar ou ativar o fluxo de dados que considere apropriado”.

O sistema de assistente de voz experimental da Tuzag, o Life365, coloca questões médicas importantes como saber se a visita ao médico é uma emergência ou que tipo de mediação o paciente toma, mas também coloca questões mais descontraídas como saber se o paciente tem animais de estimação ou qual o seu tipo de filme favorito.

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