Entrevista/ “Somos humanos e querer ser perfeito não é humano”

Fabrice Midal, filósofo e autor

“Deixe de querer ser perfeito. Deixe de se comparar – seja você mesmo. Deixe de ter vergonha de si – seja vulnerável. Deixe de se torturar – seja o seu melhor amigo”. Estas são algumas das mensagens que Fabrice Midal partilhou com o Link To Leaders. O filósofo francês alerta para o facto da luta pela perfeição ser meio caminho para o burnout.

Fabrice Midal é filósofo, editor, autor de vários best-sellers e professor de meditação há mais de 20 anos. Fundador da Escola Ocidental de Meditação, introduziu em França o conceito de mindfulness. Defensor de uma abordagem desculpabilizante e libertadora da meditação, dá conferências por todo o mundo e esteve recentemente em Portugal para lançar o seu mais recente livro “Deixe-se de m**das e comece a viver”.

O Link to Leaders falou com Fabrice Midal sobre como podem a pessoas sentir-se mais realizadas, pessoal e profissionalmente, e como podem, por exemplo, usar a meditação ou o mindfulness a seu favor.  O filósofo deixa uma chamada de atenção: “Todos os que sofrem de burnout é porque querem fazer o seu melhor, querem ser bons, não querem deixar os seus colegas, o seu público, querem ser eficientes em todas as situações. E por estarem dispostos a fazer o melhor, estão a destruir a sua vida. Por isso, não se respeitam ao ponto de terem um burnout”.

Qual é a mensagem principal do seu novo livro “Deixe-se de m**das e comece a viver”?
O meu livro é uma forma de ajudar as pessoas a sentirem-se realizadas e a descobrirem que se tiverem algum tipo de desafio e se quiserem ultrapassá-lo não o irão fazer com pressão sobre si mesmos, mas sim, ao estarem em contacto com os seus pontos fortes.

Se for empresário ou tenista, se quiser ganhar e incutir pressão em si mesmo para fazer mais, vai cortar a força em si. Por exemplo, um tenista precisa de jogar por prazer, mas se a sua única preocupação é ganhar a partida, está a exercer pressão em si e isso não vai permitir manifestar o que tem no seu instinto.

Por exemplo, é a final do Roland Garros… o que diria ao seu tenista, se fosse treinador? Se lhe disser para relaxar, meditar, não vai funcionar. Mas se lhe disser “Esta é a oportunidade da tua vida, ou ganhas ou perdes”, isso também não vai funcionar. De certo modo, não funciona porque é o desafio da sua vida e ao dizer-lhe, está apenas a exercer mais pressão e a fazer com que este perca a sua autoconfiança.

O que deve fazer então?
Então, o que é que lhe diz? “Dá o teu melhor”. Não, dir-lhe-ás “Deixe-se de m**das”, dir-lhe-ás para se libertar da pressão. Basta ter prazer. Não pedir que faça o seu melhor porque ele já tem demasiada pressão. Tenha alegria no que está a fazer, porque ao ter alegria vai divertir-se. O objetivo é tentar encontrar uma forma de seguir outra direção e é por isso que o meu livro é muito provocante, tentando mudar o que as pessoas veem sobre si próprias.

Portanto, não tente ser gentil. Tente estar em paz. Não tente saber tudo. Deixe de querer ser perfeito. Deixe de se comparar – seja você mesmo. Deixe de ter vergonha de si – seja vulnerável. Deixe de se torturar – seja o seu melhor amigo. Pare, respire fundo e deixe-se estar em paz. A mensagem principal é ajudar as pessoas a encontrar a sua força.

“Muitos empresários (…) percebem que a pressão os está a destruir, e não aceitam relacionar a sua situação/dificuldades com o fracasso”.

Três dicas práticas para “Desistir de M**das e começar a viver”?
É difícil porque não gosto de dicas. Acho que não funciona assim. É preciso ver como a pressão entra em nós sem darmos por isso. Um dos pontos principais do meu livro é falar de burnout. Todos os que sofrem de burnout é porque querem fazer o seu melhor, querem ser bons, não querem deixar os seus colegas, o seu público, querem ser eficientes em todas as situações. E por estarem dispostos a fazer o melhor, estão a destruir a sua vida. Por isso, não se respeitam ao ponto de terem um burnout.

E a lógica do meu trabalho, e do meu livro, é dizer que todas as dicas não ajudam. Se as dicas ajudassem, não precisaria de escrever os meus livros, tudo isto não existiria e conheceríamos as dicas que funcionavam e não teríamos mais stress, mais esgotamento, mais sofrimento no trabalho e a grande demissão todos os anos.

Sabe o que é a grande demissão? Começou nos Estados Unidos, e o mesmo acontece em França. É quando os jovens deixam os seus empregos ou não os aceitam por causa do sofrimento, da pressão e do stress. E o burnout mostra que este é um problema na forma como nos relacionamos, na forma como trabalhamos na nossa sociedade. E é isso que tento abordar, como é realmente desmantelado o círculo vicioso em que estamos presos sem darmos por isso. E isso é uma armadilha porque quando as pessoas têm um burnout, dizemos-lhes que “a culpa é tua porque não relaxaste o suficiente, não fizeste meditação suficiente” e é terrível porque não é verdade! As pessoas têm um burnout porque tentam fazer o seu melhor. Se alguém não se preocupa com as pessoas e não se preocupa com o seu trabalho, não tem um burnout. Portanto, cometemos uma pena dupla, porque o primeiro sofrimento é o esgotamento e o segundo sofrimento é sentir-se culpado por ter acontecido.

“Por que não nos mantemos fiéis aos nossos próprios desejos? Essa é a reviravolta que proponho”.

Como ultrapassar essa situação?
Temos de acabar com isso! O ponto-chave é “sem culpabilidade”. Todo o meu livro é “Se queres mudar, tens de mudar do ponto de vista da não culpabilidade”. A culpabilidade não funciona. Continuamos a pensar que por sermos duros para nós próprios funciona. E pode ser verdade por um determinado tempo, mas a longo prazo esta abordagem não funciona. Falamos connosco próprios e castigamo-nos e é sobre isso que tento falar no meu livro: porque somos tão duros para nós próprios e não o vemos?

Para um empresário é um problema porque a partir do momento em que vê alguém como um modelo a seguir, o mesmo tenta seguir esse estilo de vida, mas esquece que não é uma vida. Eles não confiam no seu próprio caminho e isso é mau. Por isso, quando falo com um empresário, tento mostrar-lhes que esta imagem/modelo que criam de alguém que sacrificou toda a sua vida e trabalho, não é uma vida. E muitos empresários não querem sacrificar tudo isso, eles querem ter uma vida, tempo para a família e para si próprios.

Por isso, precisam de “Deixe-se de m**das” e de deixar esta imagem de empresário perfeito que não é real. Mas sim questionarem-se o porquê de não se manterem fiéis a quem realmente são? Por que não nos mantemos fiéis aos nossos próprios desejos? Essa é a reviravolta que proponho.

Muitos empresários utilizam esta abordagem e ela torna-se muito útil porque percebem que a pressão os está a destruir, e não aceitam relacionar a sua situação/dificuldades com o fracasso. E quanto mais rapidamente considerarem que o fracasso não é na realidade um fracasso, mas sim, avançar para reinventar, melhor será ou se sentirá consigo mesmo. Portanto, o meu livro é sobre o fracasso que não é um fracasso. É uma forma de aprender, de ter mais criatividade para descobrir coisas novas.

Queremos encontrar-nos, fazendo o que é melhor para nós próprios, sendo a melhor versão de nós mesmos. Poderão os outros ver-nos como um exemplo a seguir ou a começar um novo estilo de vida e a fazer o melhor para eles também?
Se cortar a pressão de mim, não me relacionarei convosco da mesma forma. Se for duro para mim, serei duro para ti, para todos à minha volta e para tudo. Para quem for ler o meu livro, eu digo-lhes como fazer uma mudança na sua vida e fazer uma mudança para todos. Porque se eu não fizer pressão sobre as pessoas, elas farão um trabalho melhor.

“Querer ser perfeito em todas as situações não faz sentido porque somos seres humanos(…)”.

A sociedade quer que sejamos perfeitos, e talvez seja daí que vem toda a pressão, e é disso que está a falar no seu livro, livrarmo-nos desta ideia de perfeição. Mas como e o que podemos fazer para mudar a mentalidade perfeccionista da sociedade?
Querer ser perfeito em todas as situações não faz sentido porque somos seres humanos, e temos guerras constantes contra nós mesmos, e é-nos permitido estar perdidos porque somos humanos e querer ser perfeito não é humano.

Os seres humanos têm de tentar fazer o melhor que podem, e a perfeição não faz sentido. Num mundo onde reina a perfeição não há amor, nem arte, nem música, nem reuniões, nem relação… são coisas que fazem parte da perfeição, da insensatez. O que estou a tentar propor às pessoas é, se elas perderem este tipo de idiotice, um sentimento de paz sem a sensação de querer ser perfeito.

Nos últimos anos tem havido uma maior pesquisa sobre mindfulness. Como se define mindfulness?
Mindfulness é uma forma de aprender a estar presente em tudo o que se experimenta. É uma forma de aceitar/abrir-se à realidade como ela é antes de saber o que fazer. Se está a chover, a meditação é apenas perceber o facto de que está a chover e a decidir se quero ou não levar o um guarda-chuva. Mindfulness é aprender a saber mais sobre o que está a acontecer e apenas sair da indecisão de não decidir estar presente.

Atualmente, não temos cinco minutos para fazer o que queremos, estamos sempre ocupados. Perdemos a possibilidade de estar presentes e a meditação está agora a tornar-se popular porque ajuda as pessoas a restabelecer a ligação consigo mesmas. Por vezes, quando temos esses cinco minutos de nada para fazer, temos medo, entramos em pânico, temos medo do espaço.

Mas se falamos de meditação, para ser mais claro, por vezes penso que a forma como é apresentada não é muito útil porque a meditação não é uma ferramenta para me tornar mais eficiente e fazer mais pressão sobre mim próprio. Por isso é que sou muito crítico quanto à forma como em muitos aspetos a mindfulness é utilizada de uma forma não ética. Porque não se pode dizer a alguém que tem um burnout que a razão pela qual o tem, é porque não meditou. Isso é terrível, é como uma forma de agressão. A meditação é uma forma de não sentir o que sentimos, nenhuma bondade, querer ser mais como um robô e eu sou muito contra. É por isso que para mim é muito difícil definir o que é meditação, simplesmente porque é diferente para todos e para cada situação. Tem sido usada erradamente e tento sugerir que a meditação não é focar no objetivo, mas sim adaptar ao que se experimenta em cada momento.

Diz que a meditação permite-lhe abrir os olhos e não ficar na sua bolha. Estar aberto ao que o mundo tem para dar. Pode explicar-nos?
Abra os olhos e seja curioso. Por vezes, digo que a meditação é sobre ouvir. Apenas aprender a ouvir. E é difícil na nossa sociedade porque vivemos com a ideia de que ou somos passivos ou ativos. E que passivo é mau e ativo é bom. Pelo contrário, ouvir é muito ativo, é preciso fazer muito esforço para ouvir e nós não sabemos como o fazer. Quando trabalho com CEO’s/gerentes, muitas vezes ensino-os a ouvir porque não veem que o principal problema que têm nas empresas é não ouvir. E ouvir, por vezes, consegue libertar a tensão do problema.

Como fazer da meditação uma ferramenta diária?
Meditação é a minha maneira para “Deixe-se de m**das” e cada um precisa de encontrar o seu próprio caminho, porque meditação pode ser caminhar no parque, limpar, correr uma maratona. O que eu pergunto aos leitores é, o que fazem? Como é que meditam? Porque a meditação é apenas uma forma de voltar a encontrar-se. É isso que eu quero fazer, ajudar as pessoas a encontrar o seu caminho para a alegria e “Começar a viver”.

“Estou muito preocupado com o facto de o sofrimento das pessoas estar a aumentar tanto no trabalho (…)”.

Qual é a sua perspetiva do mundo atualmente, e que caminho está a seguir?
Estou muito preocupado com o facto de o sofrimento das pessoas estar a aumentar tanto no trabalho, como falámos antes. O número de burnout estar a crescer de ano para ano e não compreendemos que vivemos num mundo em constante mudança. Aprendemos que se fizermos tudo, estaremos bem, mas não é verdade, já não é possível.

Por exemplo, há 10 anos, eu conseguia responder a todos os meus emails. Hoje, não consigo, por isso tenho de fazer uma escolha, não posso ser engolido pela pressão, tenho de parar com isso. Para mim, esse é o ponto chave. E fico muito surpreendido quando as pessoas vão de férias ou estão no trabalho e sentem tanta pressão por terem medo de perder ou de mostrar que as férias estão a correr na perfeição e tudo isto porque veem uma imagem no Instagram e automaticamente sentem a pressão de mostrar o sucesso que estão a ter.

Em 2006, fundou a Escola Ocidental de Meditação. Como descreveria a sua abordagem?
Decidi falar sobre meditação fora de qualquer perspetiva religiosa há mais de 15 anos e fui um dos primeiros na Europa a fazê-lo, para mostrar que a meditação serve para todos. E a minha ideia de falar sobre meditação está ligada à filosofia, arte, neurociência e psicologia e tento sempre fazer uma ligação com diferentes campos.

O que é a Escola de Meditação?
Na escola, fazemos muitas coisas diferentes na Internet, desde aulas a seminários, e criamos uma ligação entre meditação, filosofia, arte e ciência.

Vamos olhar para o futuro: Quais são os seus planos para os próximos anos? O que ainda gostaria de fazer?
Daqui a 10 anos quero continuar a aprender a “Deixar m**das” porque mesmo que continue a escrever um livro, ainda terei muito trabalho para fazer. Penso que ainda terei muita pesquisa pela frente e, especialmente, aceitar que sou um ser humano e isso é um trabalho de uma vida. Temos sempre de aprender a retirar toda a pressão sobre nós e haverá sempre uma nova forma de exercer pressão sobre nós próprios e novas formas de lutar contra ela.

Pode dizer-nos qual o risco de as pessoas abraçarem este estilo de vida de mindfulness?
Não vejo qualquer risco em fazê-lo, o único risco que vejo é em não o fazer. Porque o objetivo do livro é apenas tentar obter um espaço fora da tensão, da pressão, da imposição que colocamos em nós próprios, que nos destrói. Não vejo onde é que isso seria um problema. A única dificuldade é que não é fácil ver como o podemos fazer. Porque nos perdemos na tentativa de sermos perfeitos.

Qual é a sua parte preferida do livro?
A minha parte preferida, e a mais difícil do livro, foi o título. Sou um filósofo e costumava escrever livros sérios e escrevi 20 antes deste. E o meu novo livro é tão provocativo ao ponto de eu ter vergonha de o escrever e acabar por hesitar muito. Como filósofo não posso escrever um livro como este, mas ajudei-me a gerir toda a pressão e a dizer a mim mesmo que se é isto que sinto no fundo da minha arte, então devo fazê-lo.

O título surgiu quando alguém me perguntou “Não entendo o que é meditação, do que estás a falar” e eu disse em francês “Deixe-se de m**das”. Eu tinha medo do que as pessoas iriam dizer ou pensar. Fiquei muito surpreendido com o resultado do livro. Nunca pensei que se fosse ser um best-seller porque pensava que ninguém iria ler um livro como este.

Quando ensino meditação pergunto: “Quantas pessoas não conseguem fazer meditação?”, a resposta é “Não sei como o fazer”. E pergunto-lhes “Porquê?” e apercebo-me que querem usar a meditação como uma forma de serem mais perfeitos. Por isso, digo-lhes “Deixem-se de m**das! E isso é meditação”, e eles perguntam-me “O quê?” e eu respondo, “Meditação é tudo o que faz sentido na sua vida, desde a jardinagem à limpeza e aos passeios”.

Então este livro foi também um desafio para si?
Eu diria que o título não foi fácil de escrever porque foi muito desafiante para mim, mas agora estou muito orgulhoso com o resultado porque acho que foi uma das melhores coisas que já fiz. Mudou realmente a minha vida e acredito que tenha mudado a vida das pessoas. Por isso estou muito feliz porque posso fazer o que descrevo no livro.

Há algum assunto sobre o qual gostaria de escrever no futuro?
Bem, eu já escrevi 10 neste livro e todos eles abordam questões diferentes, por isso falo sobre muitas coisas diferentes. Se tivesse de escrever um livro, escreveria sobre o excesso de sensibilidade, sobre sentimentos, emoções, pensamento e muito mais porque sou assim.
A neurociência ajuda-nos a compreender o que é isso. Por isso, o foco do meu próximo livro seria sobre o que significa ser demasiado sensível, e porque é que as pessoas se sentem tão estranhas. E o meu próximo livro é sobre todas as coisas que nos impedem de ser felizes e aprender a ser felizes. O que quero fazer é tentar desmantelar esta ideia de “quanto mais quero ser feliz menos serei feliz, como ser feliz…”, principalmente como mudar essa lógica de pensamento.

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aula Lopes, coordenadora científica do Mestrado em Marketing do ISG*
Sandra Alvarez, diretora-geral da PHD