Opinião

Só se não tivesse outra hipótese

Belén de Vicente, CEO da Medical Port

Foi muita a investigação e os artigos publicados em 2023, decorrentes da mesma, acerca da temática “Segurança psicológica”.

Destaco o artigo de investigação da Amy Edmonson, professora da Harvard Business School, que define a “Segurança psicológica” como a crença partilhada por todos os membros de uma equipa, no sentido de que não há qualquer problema em correr riscos pelo facto de os mesmos exprimirem as suas ideias e as suas preocupações; colocarem questões e admitirem os erros porque não têm medo de que qualquer um destes atos possa ter consequências negativas.

Um dos aspetos mais relevantes deste estudo de Amy Edmonson foi o facto de que esta temática começou a suscitar interesse aquando da elaboração de um estudo levado a cabo em ambiente hospitalar com o intuito de perceber a relação entre os “erros cometidos” vs. o “trabalho em equipa”. Amy Edmonson esperava encontrar resultados que corroborassem a associação de um”melhor trabalho em equipa” a um”menor número de erros”, mas os resultados sugeriram o contrário. As melhores equipas são aquelas que não têm receio de reportar os seus erros, pela segurança (psicológica) que sentem ao fazê-lo. Sou da opinião de que a “segurança psicológica” é mais uma caraterística do grupo do que um “reflexo” do traço da personalidade de cada membro, sendo o principal responsável pela “segurança psicológica” de uma equipa o seu líder.

Ø Trabalharias numa organização onde não pudesses exprimir a tua opinião sem medo de represálias?

Ø Trabalharias numa organização onde o simples facto de cometeres um erro poderia ter consequências ao nível do relacionamento com os outros e do teu futuro na empresa?

Ø Trabalharias numa organização onde não poderias perguntar o que fosse aos teus colegas ou ao teu chefe porque vão pensar que não sabes fazer o teu trabalho?

Ø Trabalharias numa organização onde não poderias dizer ao teu chefe que necessitas de um descanso porque esta semana trabalhaste ‘para lá do tempo normal’ para entregar um projeto importante?

A nossa resposta geral a esta perguntar seria “Só se não tivesse outra hipótese”!

Infelizmente ainda existem organizações assim!

#Existem porque as pessoas que as gerem desenvolveram, com o passar do tempo, culturas de medo, de castigo e de controlo extremo;

#Existem porque há um entendimento e um pressuposto de que em determinados setores de atividade tem de ser assim;

#Existem porque, no limite, não se faz o que seja para evitá-lo.

A McKinsey lançou recentemente um Quiz de opinião que convida à ordenação, por ordem decrescente de importância, dos 6 principais motivos que levam as pessoas a permanecer no seu trabalho, mostrando, a posteriori, a resposta do próprio vs. a de outras pessoas de 7 países diferentes que já responderam à mesma pergunta.

Os resultados surpreenderam-me!

Em primeiro lugar, os resultados remetem-nos para “‘ter uma remuneração adequada”, algo que eu já esperava. A minha surpresa veio com o que foi identificado em sexto lugar: o ambiente de “Segurança psicológica”.

Não consegui saber quais são os 7 países onde o Quiz de opinião foi realizado, algo importante para compreendermos melhor a base de comparação das nossas respostas, porque efetivamente a segurança psicológica é cultural – os líderes são influenciados pelo contexto do país onde as suas empresas se situam.
Outra possível justificação pode ser o perfil do respondente nestes 7 países. Por exemplo, da minha experiência, as pessoas da geração Z não teriam respondido assim pois não procuram e não permanecem em ambientes de trabalho sem segurança psicológica.

A relação entre a segurança psicológica e o desempenho é mais direta em ambientes mais criativos e colaborativos, onde há menos regras. Contudo, defendo e pratico que deve haver processos bem estabelecidos e uma definição de expetativas clara, pois o que realmente importa é criar um espaço onde a comunicação possa ser aberta, onde se escute o que cada um quer dizer e onde esta liberdade de expressão seja bem-vinda, numa atitude de humildade e franqueza.

Acredito que o trabalho junto dos líderes de equipas seja essencial para a mudança. Uma mudança onde a “segurança psicológica” não seja um tema.

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Belén de Vicente

Belén de Vicente

Belén de Vicente é fundadora e diretora geral da Medical Port, a porta de entrada para cuidados médicos em Portugal, para quem vem de outros países. É também fundadora da Stuward Health. Foi diretora do MBA Lisbon, contando com mais de 20 anos de experiência em consultoria de gestão na Península Ibérica e na gestão de parcerias internacionais nos setores do Ensino Superior e da Saúde. É apaixonada por projetos desafiantes que envolvam transformações com pessoas e para pessoas.

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