Entrevista/ “Sem os artistas, tudo o que fazemos deixa de fazer sentido”

Mariana Duarte Silva, cofundadora do Village Underground Lisboa

Seis anos e muitas histórias para contar, o Village Underground Lisboa, projeto de coworking para as indústrias criativas criado por Mariana Duarte Silva, vai dar lugar agora a um espaço de criação, produção e transmissão de conteúdos artísticos, revelou a cofundadora em entrevista ao Link To Leaders.

A 10 de maio de 2014 o Village Underground Lisboa abria as suas portas. Dois autocarros da Carris em desuso e dez contentores marítimos restaurados e empilhados albergavam, debaixo da Ponte 25 de Abril, um conjunto de indústrias criativas das mais diversas áreas.

Mariana Duarte Silva, cofundadora e impulsionadora deste projeto, começou a sua carreira profissional como gestora de marketing na área editorial. Mais tarde, criou o Madame Management, um projeto na área da música e da gestão de carreira de DJs, que lhe permitia explorar a sua paixão pela música eletrónica. Em determinado momento, saiu de Portugal para investir a sério neste projeto pessoal.

Foi para Londres, onde organizou eventos e continuou a agenciar artistas. Ao procurar um lugar para trabalhar encontrou o Village Underground London. Tornou-se sócia do seu promotor, Tom Foxcroft, e voltou para Portugal com um objetivo: criar um espaço de trabalho para criadores artísticos, que funcionasse igualmente como espaço multicultural, com uma programação tão variada quantos os artistas convidados. Mas também com espaço para jantar ou para um brunch com amigos, ou ainda para organizar conferências.

O Village Underground tem sido uma das marcas da cidade de Lisboa como capital criativa e global, mas a pandemia levou a que aquilo que mais gostam de fazer – “juntar pessoas” – tivesse de ser repensado. O espaço dá agora lugar à criação, produção e transmissão de conteúdos artísticos. “Isto porque temos in house todo o equipamento técnico, know-how e a forma de o difundir”, disse ao Link To Leaders Mariana Duarte Silva.

Como está encarar esta realidade e como pretende dar a volta?
Confesso que me custou brutalmente encarar o fecho do Village Underground (VU) porque o timing não podia ter sido pior. Estamos abertos há 6 anos e há 6 anos que investimos de volta na estrutura, depois do primeiro investimento de arranque em 2014, houve outro em 2016 para as obras da sala indoor e no ano passado um terceiro para fazer a vedação e abrir o portão da Avenida da Índia e ainda comprar um sistema de som. Precisamente no mês (março) em que estávamos a respirar porque sabíamos (achávamos) que a partir de agora seria sempre a capitalizar, eis que surge esta situação.

Por isso, pela altura que aconteceu, fui-me mesmo abaixo e demorei algum tempo a levantar-me. Mas como a imaginação e a minha cabeça não param e porque tenho a sorte de ter uma pessoa ao lado que pensa constantemente em soluções (o meu marido com quem partilho o projeto), conseguimos pensar numa estratégia, a única possível perante a situação, que é a de tornar o VU um espaço de criação, produção e transmissão de conteúdos artísticos. Isto porque temos in house todo o equipamento técnico, know-how e a forma de o difundir.

“Consiste em dar palco e espaço à criação e aos artistas, e difundi-los. Isso implica trazê-los fisicamente ao VU, seguindo todas as condições de higiene e segurança, para filmar as atuações e depois transmitir em forma de broadcast e esperar que o público assista e contribua com doações”.

Numa carta de intenções para o Village Underground Lisboa partilhada recentemente, falam de um novo conceito, o Village Underground 6.0. Em que é que consiste e qual o objetivo?
Consiste em dar palco e espaço à criação e aos artistas, e difundi-los. Isso implica trazê-los fisicamente ao VU, seguindo todas as condições de higiene e segurança, para filmar as atuações e depois transmitir em forma de broadcast e esperar que o público assista e contribua com doações.

As doações serão repartidas entre os artistas e o VU. Ao VU cabe toda a parte técnica e chegar ao maior número de pessoas possível, através da sua rede de contactos nacional e internacional, e aos artistas cabe mostrarem a sua Arte. Falamos de música, dança, teatro, street art, por enquanto, que são as áreas onde sempre trabalhámos, mas estamos abertos a outro tipo de performances, desde que se enquadrem no espírito VU. O VU tem também um restaurante e uma comunidade artística que aluga espaços de trabalho nos contentores, estas vertentes do negócio voltarão a acontecer, logo que possível.

Esta foi uma necessidade imposta pelo momento que vivemos ou já fazia parte dos planos?
Sempre nos quisemos assumir como plataforma de conteúdo cultural, mas por razões de prioridades de negócio, isso ia acabando por ficar para trás. Sabíamos que era necessário investir um pouco em mais material técnico e recursos humanos. Agora surge-nos como a melhor e única opção, e não é temporária. Ou seja mesmo quando pudermos voltar a uma certa “normalidade”, onde seja possível juntar milhares de pessoas, queremos e vamos manter a aposta na criação de conteúdos online.

Porquê uma plataforma de apoio à criação, produção e transmissão de conteúdos?
Porque temos os meios necessários para o fazer e porque CRIAR está no nosso ADN (pessoal e profissional) e finalmente porque há uma comunidade artística underground que precisa de produzir, criar e nós somos a plataforma ideal para fazer chegar essa criação às pessoas. Sem os artistas, tudo o que fazemos deixa de fazer sentido. Por isso, temos de mantê-los ativos através daquilo que podemos e sabemos fazer.

Numa vertente mais holística, porque a cultura cria uma estética, uma atmosfera, uma imagem da cidade e país e determina a imagem de um país mesmo que em Portugal às vezes não pareça. A cultura inspira, junta pessoas, ensina-nos coisas sobre nós próprios e sobre o mundo à nossa volta. Porque a cultura está em todo o lado, ela infiltra-se no nosso dia a dia. Pode ser encontrada num festival, num evento físico com milhares de pessoas, mas também online. E todas estas formas têm em comum o poder de desencadear interações sociais. É isso que nos move. Como disse e tão bem o ator Nuno Lopes um dia: “Um país sem cultura é uma área mal ocupada”. Nós estamos aqui para fazer a nossa parte.

Serão conteúdos ligados aos setores a que sempre estiveram ligados: a cultura e o turismo?
Sim, essencialmente às artes performativas: música, teatro, dança, mas também street art.

Qual será o modelo de negócio?
Partilha de receitas angariadas nas transmissões através de doações, em igual parte, entre artistas e VU. Em alguns casos haverá possibilidade de cobrar um valor adequado a uma transmissão em HD, para um público mais exigente em termos de imagem e som.

Como pensam divulgar este novo posicionamento?
Como tudo o que fazemos no VU, através das nossas plataformas: website, newsletter, redes sociais e contactos institucionais, nacional e internacionalmente. Também através da nossa comunidade artística e parceiros e marcas com que sempre trabalhamos a um nível internacional.

Depois do Covid-19, o Village Underground Lisboa vai voltar a ser aquilo que sempre foi?
Assim o desejamos!

” É uma indústria à qual infelizmente não lhe é dada valor na economia do país, muitas vezes é desvalorizada e quanto mais novo e underground é, maior é desconfiança e a falta de atenção a que está sujeito, e menos são as oportunidades”.

É fácil liderar um espaço que vive de cultura e de novos talentos? O que mais destaca de positivo e de negativo nos dois últimos anos?
Fácil nunca foi nem nunca vai ser. É uma indústria à qual infelizmente não é dada valor na economia do país, muitas vezes é desvalorizada e quanto mais novo e underground é, maior é desconfiança e a falta de atenção a que está sujeito, e menos são as oportunidades. O positivo é sem dúvida a felicidade com que trabalhamos todos os dias porque lidamos com pessoas incríveis, artistas de todas as áreas que nos inspiram todos os dias, o sentimento de descoberta do novo talento e ter a oportunidade de lhe dar palco e mostrar-lhe que é possível fazer uma vida artística, é sem duvida das coisas mais gratificantes do nosso trabalho.

O VU criou em 2018 um ensemble performativo de base musical que explora outras vertentes artísticas em que junta 30 jovens de diferentes backgrounds sociais, no mesmo espaço, com direção artística de 3 orientadores que são eles próprios artistas. O projeto chama-se Acorde Maior e a felicidade que é assistir ao poder transformador da música na vida destas pessoas, por si só, faz com que tudo valha a pena. Nos primeiros dias deste isolamento recebi um email de uma participante do Acorde Maior, a Mayra Leonilde de 20 anos, moradora do Bairro da Serafina, que tinha decidido produzir e partilhar uma música da sua autoria no soundcloud. Quando me enviou a música e explicou a forma como o Acorde Maior a tinha ajudado a fazê-lo, eu fiquei eufórica. Uma música que mostrei aos meus filhos e que eles ouvem agora todos os dias, e ainda quiseram saber a história por trás dela, à qual se renderam e imaginaram logo um futuro para a Mayra. São estas “pequenas” grandes coisas que nos fazem trabalhar.

O negativo é lidar com a falta de visão de algumas instituições que ainda não perceberam que a cultura precisa de investimento para gerar negócio, que esse negócio traz mais trabalho aos artistas e que só assim os artistas podem viver da sua arte, pagar impostos e contribuir para a economia do país. Quando o ciclo for quebrado e artistas e instituições se entenderem, damos todo um salto qualitativo.

Que conselho daria a alguém que quer iniciar um projeto neste momento de pandemia?
Que siga em frente com a visão de que tudo pode mudar de um dia para o outro. Que considere vários cenários.

” O Acorde Maior que falei em cima vai transformar-se numa Academia de Música Urbana aberta todo o ano, no Vilage Underground”.

Que outros projetos gostaria de lançar?
Já estou a trabalhar nisso. O Acorde Maior que falei em cima vai transformar-se numa Academia de Música Urbana aberta todo o ano, no Vilage Underground, uma academia que ensina a música que os jovens ouvem hoje em dia, que é aberta a todos os jovens dos 10 aos 18 anos, independentemente do seu background financeiro e social. Uma academia onde os orientadores são os artistas que os jovens admiram e para a qual inclusivamente já está a ser criado um método de ensino inovador que rompe com o método tradicional de ensino da música, feito pelo Politécnico de Lisboa através das Escolas Superiores de Música e de Educação. A academia vai chamar-se Skoola. Fiquem atentos.

Respostas rápidas:
O maior risco: Ter imaginado o VU em Lisboa em plena crise económica (2008) e ter seguido em frente.
O maior erro: Considerar que sabemos gerir todas as áreas de um projeto.
A maior lição: Focar a nossa energia e pensamento naquilo que melhor sabemos fazer.
A maior conquista: Ter feito o VU em Lisboa em plena crise económica.

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