Opinião

Saber fazer – Saber ensinar – Gostar de ensinar

Belén de Vicente, CEO da Medical Port

Estou ligada ao Ensino Superior como gestora há mais de 15 anos, nas áreas de ensino da gestão e da saúde. É um privilégio trabalhar neste setor, porque a Educação é um dos pilares da economia e do desenvolvimento de qualquer país.

E, só por isso, merece estar no topo da lista das nossas prioridades, mas também porque no contexto da formação pós-graduada, que é onde tenho mais experiência, consegue-se ver o impacto do que fazemos e isso, no meu caso particular, alimenta a motivação.

Há vários fatores que contribuem para o sucesso da formação pós-graduada – a escolha dos conteúdos, a possibilidade de aplicá-los, o grupo de alunos, a flexibilidade do método de ensino – mas o principal é o corpo docente. Acontece o mesmo que no ensino básico e secundário. O professor é quem faz a diferença. Todos nós temos aquele(a) professor(a) que nos marcou e que nos fez gostar de determinada disciplina, que determinou as nossas escolhas posteriores ou até que conseguiu que não faltássemos às aulas.

É verdade que felizmente os métodos de ensino estão a mudar e que aprendemos de forma diferente. Temos muitos bons exemplos disso em Portugal (Lisboa 42, Brave Academy, TUMO, etc…) que mostram que em determinados contextos é possível aprender sem horários fixos, sem professores, sem aulas. Que o contexto do ensino à antiga, unidirecional, centrado no professor, sem flexibilidade, está obsoleto. Acredito firmemente que o ensino híbrido veio para ficar e que em certos ambientes e disciplinas, nos em que a interação humana não é absolutamente necessária, o ensino digital dá cartas. Se não vejamos como muitos de nós quando quer aprender rapidamente alguma coisa procura no YouTube um vídeo explicativo.

Quando falamos em formação pós-graduada, estamos num contexto muito específico. Os participantes destes programas já têm as bases teóricas, fizeram uma licenciatura e tiveram uma ou mais experiências profissionais onde conseguiram aplicar com maior ou menor extensão, os conhecimentos adquiridos na Universidade. Procuram, numa lógica de diferenciação e de valorização profissional, ganhar novas competências práticas (na maior parte dos casos) e/ou refinar as que já possuem. Procuram discutir com os seus pares as situações complicadas que tiveram e encontrar outras soluções. Querem interagir com quem sabe, querem colocar perguntas complexas, querem fazer, errar e que alguém lhes diga, no momento, o que fizeram mal e como podem fazer da forma correta. Neste contexto, o corpo docente é essencial e o principal fator determinante do sucesso da formação pós-graduada.

A minha experiência na formação pós-graduada permite-me afirmar que quando se selecionam docentes e se que fazer a diferença, é necessário garantir a tripla de competências: SABER FAZER – SABER ENSINAR – GOSTAR de ENSINAR.

Pode-se pensar que se uma das duas primeiras competências tiver um nível de excelência elevado, as coisas vão funcionar bem. Ao longo destes anos só conheci um professor de formação pós-graduada que sabia ensinar sem nunca ter feito. Um caso excecional na área de gestão, no setor da saúde não conheço. É mais difícil encontrar quem saiba ensinar do que quem saiba fazer. É fácil saber quem são os três ou quatro melhores em cada área de especialidade em Portugal. É também fácil saber quem são as referências internacionais.

O saber ensinar é uma arte. Implica ter as competências técnicas e comportamentais certas. Tecnicamente é relevante perceber as necessidades dos participantes, saber endereçá-las da forma certa, escolher os exemplos adequados, dar o tempo certo para que os participantes pratiquem, preparar e testar as tecnologias de suporte, convidar para lecionar outros que podem saber mais, saber avaliar o impacto da aprendizagem.

Comportamentalmente implica colocar-se nos pés de quem está a aprender, saber gerir vontades e interesses, não cair na tentação de fazer por quem está a aprender, saber gerir níveis de conhecimento diferente dos participantes, saber explicar que errar é humano e que faz parte do processo de aprendizagem, ser exigente e motivador ao mesmo tempo. Tudo isto dá muito trabalho. É preciso gostar.

É fácil saber quando alguém gosta de ensinar. Preocupa-se com saber o perfil dos alunos antes das aulas, incorpora o feedback destes de edição para edição do curso, porque quer fazer cada vez melhor. Está atento aos pormenores para ajustar conteúdos ao nível dos participantes, fica entusiasmado com a primeira aula, os olhos brilham. Tenho verificado que em geral quem gosta de ensinar, também gosta de aprender.

Em termos de gestão esta estratégia da tripla SABER FAZER – SABER ENSINAR – GOSTAR de ENSINAR produz resultados ao nível da satisfação dos participantes (Net Promoter Scores elevados), com impacto na aprendizagem estatisticamente significativos, e com participantes fidelizados que voltam.

Comentários
Belén de Vicente

Belén de Vicente

Belén de Vicente é fundadora e diretora geral da Medical Port, a porta de entrada para cuidados médicos em Portugal, para quem vem de outros países. É também fundadora da Stuward Health. Foi diretora do MBA Lisbon, contando com mais de 20 anos de experiência em consultoria de gestão na Península Ibérica e na gestão de parcerias internacionais nos setores do Ensino Superior e da Saúde. É apaixonada por projetos desafiantes que envolvam transformações com pessoas e para pessoas.

Artigos Relacionados