Assistimos, no início deste ano, às imagens inacreditáveis do assalto ao Capitólio. Imagens indignas de um país com tradições democráticas fortemente enraizadas.

Foi mais um sinal do estranho mundo em que vivemos e uma lição sobre a necessidade de lideranças assentes em valores, em responsabilidade e no respeito pelos princípios básicos do Estado de Direito.

Terá sido o episódio final de um mandato que deixou a maior potência mundial desacreditada e um povo profundamente dividido. Para além deste triste legado, ficam questões que dizem respeito a todas as nossas sociedades, também na Europa:

Como limitar os riscos de ascensão, mesmo que por mecanismos legítimos, de líderes que possam pôr em causa os valores fundamentais por que nos regemos?

Como desconstruir o paradoxo que nos põe diante do risco de a tolerância ilimitada conduzir ao seu próprio desaparecimento e nos alerta para estarmos preparados para defender a sociedade tolerante do assalto da intolerância?

Como lidar com as redes sociais, em situações em que não é clara a fronteira entre censura e proteção dos cidadãos contra informações falsas e incitação ao ódio ou à violência. Como articular responsabilidade corporativa, autoregulação e lei na abordagem a estas questões?

Como restaurar a confiança e melhorar a qualidade das instituições em que se organiza a nossa sociedade?

Não tenho receitas fáceis para todas estas questões, mas não posso esquecer que os perigos para a democracia de lideranças fracas ou perversas são reais.

Lembro, a este respeito, uma parábola hebraica que, na sua sabedoria milenar, nos faz refletir: as árvores, querendo encontrar para si um rei, pedem sucessivamente à oliveira, à figueira e à videira que reinem sobre elas. Todas as três recusam, invocando as suas diferentes e nobres funções. Só o espinheiro se mostra disponível para ser rei.

Não nos podemos demitir da nossa participação na vida pública e queixarmo-nos, depois, por ela ficar capturada por quem dela se pretende aproveitar para atingir objetivos individuais, mais do que para servir o superior interesse público.

A nossa responsabilidade passa, em primeiro lugar, por uma atitude de cidadania ativa, individual e coletivamente, não receando assumir, se necessário, papeis de liderança, nem sempre cómodos, mas indispensáveis à preservação das instituições que defendemos.

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Sobre o autor

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António Saraiva nasceu em novembro de 1953 em Ervidel. Diretor da Metalúrgica Luso-Italiana desde 1989 e administrador a partir de 1992, adquiriu a empresa ao Grupo Mello em 1996, sendo atualmente presidente do conselho de administração. Começou a sua carreira... Ler Mais