Entrevista/ “Queremos dar o mote para os jovens terem uma visão mais clara do futuro”

Adriana Coutinho e a Sofia Tavares, fundadoras da Motto

“Um jovem motivado a vencer, se não tiver as ferramentas técnicas e emocionais necessárias, dificilmente chega ao pódio. Eu sei que é assim por experiência própria, eu fui um desses jovens”, explica Sofia Tavares, que, juntamente com Adriana Coutinho, criou a Motto, um novo projeto de mentoring.

Uma amizade de vários anos e a constatação de que o mercado de mentoring é fortemente direcionado a classes económicas mais favorecidas e executivas tiveram na base da criação da Motto, um novo projeto focado em jovens e idealizado por Sofia Tavares, CEO da Be Present, que convidou Adriana Coutinho, diretora de marketing da ManWinWin Software, para também se juntar.

Com a premissa “For a better view of your life”, a Motto pretende que qualquer jovem, independentemente do seu estrato social ou da limitação emocional ou económica, tenha a oportunidade de ser encaminhado e motivado para uma melhor qualidade de vida inteletual e/ou mercado de trabalho, explicam as fundadoras em entrevista ao Link To Leaders.

Como surgiu a ideia de lançarem a Motto?
Sofia Tavares (S.T.): Queremos retribuir, ajudar, partilhar o que aprendemos e o que somos, esse foi o ponto de partida. Era uma ideia antiga à espera de oportunidade para ganhar forma e que o Covid-19 proporcionou, a partir do momento em que a Be Present, a minha empresa, viu reduzido o volume de faturação em cerca de 80%. Para além disso, sobrava-me tempo. Tornou-se o cenário perfeito para definir a missão e estruturar o conceito deste projeto social.

Adriana Coutinho (A.C.): No meu caso pessoal, a mentoria aconteceu a vida toda de um modo muito informal onde as próprias pessoas e amigos foram identificando uma certa necessidade de partilharem os seus dilemas comigo ou colocarem os seus filhos a falar comigo. A Sofia com a ideia da Motto, um convite que muito me honrou, veio dar um formato profissional e organizado a algo que sempre gostei muito de fazer, orientar jovens e adultos.

“Os jovens são o futuro, quanto melhor preparados forem, menos problemas terá toda uma sociedade, um país”.

Porquê os jovens?
S.T
.: Um jovem motivado a vencer, se não tiver as ferramentas técnicas e emocionais necessárias, dificilmente chega ao pódio. Eu sei que é assim por experiência própria, eu fui um desses jovens. O facto de ter sido apoiada, de ter tido mentores desde os 12 anos, embora, na altura, não tivesse consciência do que se tratava e do papel deles, permitiu que eu me tornasse na pessoa e na profissional que sou hoje. Eu sou o resultado dessas pessoas que me motivaram, me ajudaram e me inspiraram a não desistir.

A.C.: Que dizer mais? Os jovens são o futuro, quanto melhor preparados forem, menos problemas terá toda uma sociedade, um país.

Sentiu que tinha todas as ferramentas necessárias para avançar com a mentoria?
S.T.: Não todas, mas, no meu tempo livre, resolvi aprofundar conhecimentos técnicos em mentoring e fiz formação em Happiness Manager.  Estes cursos complementaram um Master em Coaching e o curso de Programação Neurolinguística, que tinha frequentado, a par da vida empresarial. Tudo o que seja para nos conhecermos melhor e a forma como estruturamos o pensamento e encaramos a vida só nos pode auxiliar. Trabalhei 14 anos em áreas relacionadas com desenvolvimento humano — formação presencial, on job, coaching e mentoring — e há cerca de três anos que acompanho jovens de risco, a Motto é a continuidade do trabalho desenvolvido até aqui.

Porquê Motto?
A.C.: Em português significa “mote”, porque é isso que pretendemos, queremos dar o mote para os jovens terem uma visão mais clara do futuro, proporcionando-lhes uma maior consciencialização e responsabilização das suas escolhas. Damos o mote para eles concluírem que cada escolha tem uma causa (imediata), consequências (curto, médio prazo) e podem, ou não, gerar um benefício (longo prazo).

Quais foram os maiores desafios com que se depararam?
S.T.: A Motto arrancou há quatro meses, ainda é muito recente. Nesta fase, estamos a identificar parceiros e padrinhos para apoiarem os jovens que dispõem de menos ferramentas. Não é fácil! Falta-nos um portefólio alargado de casos de sucesso que ateste a credibilidade do projeto. A nossa experiência enquanto Motto não é suficiente para apontar os holofotes para nós, é preciso uma boa dose de altruísmo, empatia e querer contribuir para esta mudança de paradigma da sociedade, de que tanto se fala, e que pode acontecer se soubermos orientar os jovens.

Lançaram a empresa com capitais próprios? Quanto investiram até agora?
S.T.: A Motto não é uma empresa, é um projeto, um serviço, que nasce dentro de uma empresa, a Be Present, que detém a marca. Tudo o que existe na Motto foi alcançado com o apoio da Be Present e das suas mentoras, do business plan ao registo da marca, do site à gestão de redes sociais. Mas gostamos de olhar para o projeto, não numa perspetiva de investimento financeiro, mas em horas dedicadas ao projeto, assim como a mentoria que prestamos gratuitamente.

“Podemos dizer que a Motto, ao nível de segmento de negócio, aposta em duas vertentes: Motto for All e Motto for You! No primeiro caso o projeto é direcionado a instituições de apoio a jovens ou empresas na sua vertente de Responsabilidade Social (…)”.

Qual será o vosso o modelo de negócio?
A.C.:
Podemos dizer que a Motto, ao nível de segmento de negócio, aposta em duas vertentes: Motto for All e Motto for You! No primeiro caso o projeto é direcionado a instituições de apoio a jovens ou empresas na sua vertente de Responsabilidade Social, e aqui o Motto for All depende do contributo ou patrocínio de empresas, instituições ou beneméritos. Já Motto for You é um serviço pago a título particular como qualquer outro, direcionado para qualquer jovem (13-29) que procure desenvolver as suas soft skills, preparar-se para o mercado de trabalho e aumentar as suas opções profissionais.

Assim, e no que à Motto for All diz respeito, identificámos dois modelos possíveis de patrocínio: Modelo 1 a empresa disponibiliza um valor e o mesmo fica na Pool de mentees. Posteriormente alocamos o valor (consoante o mesmo) a um ou vários Mentees e damos início à ação de mentoria por parte da Motto. No segundo Modelo a empresa identifica instituição ou localiza grupo de jovens a apadrinhar (ex: filhos de colaboradores), alocando o valor Pool de Mentees em concordância com o escolhido e só após esse momento damos início à ação de mentoria.

Dedicam-se ao mentoring e consultoria de carreira direcionados a jovens, dos 13 aos 29 anos? Porquê esta faixa etária?
S.T.
: Acredito que é entre os 13 e os 17 anos que grande parte do nosso público-alvo não dispõe de ferramentas necessárias e não tem apoio suficiente para tomar decisões conscientes. Por outro lado, são estes jovens os que menos consciência têm da importância das suas escolhas e das repercussões que terão nas suas vidas, a médio e longo prazo. Dos 18 aos 29 anos são jovens que procuram algumas respostas ao nível da vocação profissional e que necessitam de desenvolver as suas soft skills, aliás, conceito este muitíssimo presente nas tendências requeridas nas profissões do futuro e que grande parte das pessoas não sabe ou tem as ferramentas certas para as desenvolver, é aí que entram os nossos serviços.

Como pensam chegar a todos os jovens, independente do estrato social?
S.T.
: Através de parcerias com instituições e escolas e de publicidade boca-a-boca, sem que fatores como o estrato social ou o poder económico tenham peso na decisão.

” É crucial, um bom mentor pode fazer toda a diferença no percurso pessoal e profissional de um jovem, ao inspirá-lo, orientá-lo e guiá-lo. Vai ajudá-los a fazer escolhas conscientes”.

Qual a importância de um mentor no desenvolvimento dos jovens?
S.T.: É crucial, um bom mentor pode fazer toda a diferença no percurso pessoal e profissional de um jovem, ao inspirá-lo, orientá-lo e guiá-lo. Vai ajudá-los a fazer escolhas conscientes.

A.C.: O mentor ocupa um espaço único na vida de um jovem porque é ao mesmo tempo a pessoa que não o julga e que sabe (quase) tudo sobre ele, logo, a capacidade para fazer uma orientação e um caminho que vá ao encontro do seu talento e expetativas é sobejamente maior. Os jovens de atualmente são muito estimulados.  Contudo isso não é o mesmo que acompanhados, sendo que esses estímulos muitas vezes podem estar a servir os sonhos ou objetivos que os pais ou tutores têm acerca deles. Dou este exemplo como posso dar o oposto, jovens que não têm qualquer suporte e com isso são levados a acreditar que não devem almejar ser mais do que empregados de alguém – sem qualquer desprimor para quem o é.

Que tipo de parcerias têm estabelecido?
S.T.: Nesta fase embrionária, a EPIS [Associação Empresários pela Inclusão], uma instituição onde a Motto presta serviços na área do mentoring a jovens do 9º ano, juntou-se a nós para continuar a ajudar um maior número de jovens e dar o seu contributo na formação de uma nova geração.

E de que forma o projeto pode crescer?
S.T.: Aumentando a comunidade e os seus serviços a jovens com recursos que necessitem deste apoio, porque são estas receitas que vão permitir alargar o apoio a quem precisa e não tem recursos para dispor destes serviços.

Como veem este projeto dentro de um ano?
A.C.
: Como um projeto credível e consolidado, com um número generoso de “padrinhos”, que nos permita ajudar muitos jovens e que estes já possam dizer que foram inspirados por nós, esse é o objetivo principal e a motivação para continuarmos a fazer este trabalho, a par das nossas atividades profissionais.

” Apesar dos apoios e das aceleradoras, a carga fiscal quase inviabiliza a concretização de certos negócios nos primeiros anos, porque não são transversais a todos os negócios”.

É a primeira vez que se lançam num negócio próprio?
S.T.
: Não, no meu caso, a Be Present, com dois anos de existência, já é um cartão de visita do meu empreendedorismo e da minha capacidade de liderança, de organização e de concretização. O caminho não é fácil, é desafiador e exige tempo e perseverança, até encontramos o nosso espaço no mercado. Para além disso, apesar dos apoios e das aceleradoras, a carga fiscal quase inviabiliza a concretização de certos negócios nos primeiros anos, porque não são transversais a todos os negócios.

A.C.: No meu caso também não é a primeira vez, tive um SPA durante 2 anos em Lisboa e mesmo após ter duplicado a sua faturação base, percebi que para continuar a fazer evoluir o negócio tinha de adquirir mais SPA e não encontrei espaços com rendas que me permitissem sequer atingir o Break Even. Bendita a hora que o vendi porque ainda consegui executar a venda 17% acima do valor de aquisição e tudo isto ainda longe de imaginar que iriamos viver uma pandemia. Foi uma experiência enriquecedora, mas já teve o seu tempo. A Motto é uma área de negócio pela qual nutro uma paixão natural, acho que nunca a vou ver como um trabalho, mas sim como um modo de estar na vida.

Projetos que gostavam de lançar no futuro?
S.T.: Tenho outras ideias na manga, gostaria de lançar uma marca de roupa reciclada e ecológica, talvez seja o próximo…

Sofia Tavares:
O maior risco: Sair de casa aos 18 anos, sem planos…
O maior erro: Foi um erro não vale a pena lembrar, só guardei a lição para não repetir.
A maior lição: “Ser um exemplo não é a melhor forma de influenciar os outros, é a única”.
A maior conquista:  A minha independência, a Be Present.

Adriana Coutinho: 
O maior risco: Sair de casa aos 24 anos para ir viver e trabalhar em São Paulo (Brasil) sozinha.
O maior erro: Foram tantos que seria injusto enumerar só um, e acredito que existem alguns que ainda vou conseguir cometer mais vezes. É inevitável.
A maior lição: O que é mais valioso depende sempre da circunstância em que vivemos.
A maior conquista: A minha filha e poder fazer a minha família mais feliz.

 

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