A preparar o lançamento público do seu produto, a Vawlt Technologies encara a atual alteração das condições de mercado como um desafio e uma oportunidade de aprendizagem. Bruno Santos Amaro, CEO e um dos cofundadores da start-up, explicou ao Link To Leaders as mais-valias da proposta Vawlt nas operações cloud.

Simplicidade, segurança e otimização são as pedras basilares da atuação da Vawlt  Technologies, fazendo, assim, jus ao nome Vawlt, que deriva do inglês “vault”, ou seja, cofre, palavra que remete para uma imagética relacionada com segurança e robustez.

A start-up que nasceu de uma spin-off da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, onde ainda hoje estão instalados, quer ser a resposta às necessidades das empresas no campo do armazenamento de dados tirando partido do uso de múltiplas clouds. Foi investida pela Armilar Venture Partners, em maio do ano passado, e está a preparar lançamento da primeira versão pública do produto ainda para a primeira metade deste ano, como objetivo de chegar ao mercado nacional e internacional, como frisou Bruno Santos Amaro.

O cofundador e CEO da Vawlt Technologies reconhece que a atual situação de pandemia e a alteração das condições do mercado levaram à necessidade de adaptação rápida dos planos que a Vawlt tinha para este ano, mas afirma que assume a nova realidade como um desafio e uma oportunidade de aprendizagem, ainda que forçada.

A Vawlt Technologies assume-se como uma start-up que investiga e desenvolve o universo das clouds múltiplas. Em que consiste exatamente esse trabalho?
A missão da Vawlt é aproximar o mundo da complexidade (tradicionalmente associado à segurança) dos utilizadores – sejam eles empresas ou pessoas. No fundo, procuramos uma experiência de nível de consumidor com a segurança de nível empresarial.

Tiramos partido do uso de múltiplas clouds para garantir uma maior privacidade e disponibilidade dos dados armazenados, pois são distribuídos de forma parcial por diferentes provedores de cloud, assegurando ainda que, quando uma parte dos mesmos está indisponível por falha técnica ou por motivos de corrupção/manipulação, o cliente continua a ter acesso aos mesmos.

Em termos da solução propriamente dita, todos os dados colocados em volumes criados na plataforma Vawlt são automaticamente cifrados e assinados nos dispositivos dos utilizadores, garantindo a privacidade e integridade dos mesmos. Utilizamos para tal uma combinação de cifras e algoritmos provados seguros (por entidades como o NIST). Os dados cifrados são depois divididos em blocos e enviados para diferentes provedores de cloud, utilizando técnicas como erasure-coding e quóruns Bizantinos, que permitem tolerar as faltas dos provedores (por ausência ou comprometimento).

Com esta abordagem, o Vawlt permite às empresas reduzirem o seu orçamento destinado a armazenamento. O sistema permite a diminuição dos custos operacionais pois simplifica a utilização segura de serviços cloud, e otimiza os recursos alocados na cloud de acordo com a natureza ou tipo de dados armazenados.

Quando e como surgiu este projeto?
A Vawlt deriva de um conjunto de investigações iniciadas no âmbito das teses de mestrado do Ricardo [Mendes] e do Tiago [Oliveria], sob orientação do Alysson [Bessani] – todos fundadores da start-up – entre 2011 e 2012, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Daí, evoluiu para um projeto de investigação de maior dimensão, que durante os anos seguintes foi financiado por diferentes projetos europeus e foi nesse contexto que confirmámos o seu potencial, nomeadamente por via de parceiros da indústria que nos foram oferecendo validação e sugerindo que o software deixasse de ser um projeto de interesse puramente académico e passasse a ser trabalhado para colher o interesse do mercado.

Quanto investiram na fase inicial da Vawlt?
No ano que antecedeu o investimento, os sócios suportaram todas as necessidades financeiras da empresa. Antes da criação da empresa, e sendo esta uma spin-off da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, o projeto foi sendo financiado por vários projetos europeus de I&D, e acarinhado pelo Tec Labs, Centro de Inovação da Faculdade. Tudo o resto foi feito nas horas extra, que um empreendedor consegue sempre encontrar.

“O ambiente académico é muito propício à inovação, é lá que se constrói o que vai ser usado no futuro”.

Quais as vantagens/ desvantagens de serem um projeto 100% português, que resultou de uma spin off da da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa?
O ambiente académico é muito propício à inovação, é lá que se constrói o que vai ser usado no futuro. Logo à partida há a vantagem do espaço para experimentação e do financiamento adequado para fazer essa exploração. É também um ambiente recheado de talento e isso pode facilitar na composição inicial de uma equipa de fundadores, ou nos primeiros recrutamentos.

O desafio para os projetos nascidos neste meio é o momento em que se assume uma vertente comercial, tendo por base uma tecnologia que precisa ainda de algum trabalho para ser transformada em produto. Existe, por vezes, uma zona cinzenta no financiamento destas etapas uma vez que, por um lado, já não cabem no financiamento puro de I&D, e por outro não existe ainda tração para aliciar investidores.

Continuam ligados à Universidade de Lisboa? Quais as mais valias dessa parceria?
Sim, mantemos uma ligação muito próxima à Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que é também sócia da empresa, e foi onde o projeto Vawlt surgiu. Estamos incubados no centro de inovação da Faculdade, e o Alysson continua como professor e investigador da instituição, o que nos permite usufruir de um ambiente altamente tecnológico e inovador, muito propício à experimentação. É também muito relevante na perspetiva de identificação e captação de talentos de forma precoce, que possam mais tarde vir a integrar esta empresa.

“Este investimento permitiu desde logo, acelerar o desenvolvimento do nosso produto, através da criação de uma equipa coesa e 100% dedicada”.

Em maio do ano passado foram investidos pela Armilar Venture Partners em 500 mil euros. O que mudou na Vawlt Technologies com esse investimento? O que vos permitiu fazer?
Vale a pena recuar um pouco mais porque a Armilar Venture Partners surgiu no percurso da Vawlt em novembro de 2018, altura em que estavam a fechar o seu fundo dedicado a transferência de tecnologia. Tiveram, desde início, uma abordagem muito hands-on, quiseram conhecer a tecnologia com detalhe e sentar-se connosco em reuniões que tivemos com potenciais clientes diretos e parceiros de revenda, culminando na assinatura do acordo de investimento em maio de 2019.

Este investimento permitiu desde logo, acelerar o desenvolvimento do nosso produto, através da criação de uma equipa coesa e 100% dedicada, que envolve três dos fundadores, tendo-se juntado a nós o Eric [Vidal] e a Jéssica [Machado], que recrutámos na segunda metade de 2019 e que são elementos-chave para os objetivos que traçámos.

Antes do envolvimento da Armilar, tivemos um percurso longo de angariação de investimento, numa altura em que o capital de risco estava a investir muito pouco e os business angels tinham tickets de investimento curtos para o que tínhamos planeado. Tivemos uma primeira proposta em 2018, que acabou por não se concretizar e por isso continuámos à procura de soluções. Mas mesmo isto foi importante para o projeto porque nos obrigou a fechar um produto – uma espécie de Dropbox com a nossa componente de segurança e multi-cloud, com foco no mercado B2C – e a lançar uma campanha que nos permitiu confirmar que o BC2 não estava ainda disposto a pagar por segurança e, portanto, não era claramente o target.

Alguma ronda de investimento em perspetiva? Para quando?
Para já, estamos focados em lançar o produto e continuar a desenvolvê-lo e aprimorá-lo com base no feedback do mercado. Estamos bastante confiantes no nosso serviço diferenciador. Em relação a financiamento, não temos nada a anunciar de momento.

“A Vawlt surge como resposta aos desafios trazidos pela operação na cloud e que as empresas estão agora, mais do que nunca, a enfrentar (…)”.

Qual o valor que a vossa tecnologia pode aportar às empresas?
Em três palavras: simplicidade, segurança e otimização. A Vawlt surge como resposta aos desafios trazidos pela operação na cloud e que as empresas estão agora, mais do que nunca, a enfrentar, ajudando-as a reduzir custos, através de uma plataforma dinâmica que permite criar volumes de dados customizados para responder a requisitos de armazenamento específicos, como, por exemplo, preço, localização geográfica, latência, ou regulamentação.

Quais são, neste momento, os vossos clientes? De que áreas de atividade?
Estamos em fase de preparação de lançamento da primeira versão pública do produto e o nosso objetivo é chegar a todos os mercados, tanto nacional como internacional, e setores de atividade, com, ou sem, estruturas já montadas na cloud e que vejam na segurança dos seus dados uma prioridade. Os setores para os quais a Vawlt pode ser uma solução mais imediata são aqueles com maiores questões ao nível da proteção de dados sensíveis ou críticos, nomeadamente a saúde, finanças, banca ou justiça.

“(…) a nossa tecnologia pode ser um forte aliado na estratégia das empresas (…)”

A segurança e a privacidade são desafios constantes no mundo empresarial. Como é que estas vertentes são encaradas pela Vawlt?
Segurança e privacidade são as pedras basilares da existência da Vawlt, como empresa e como produto. Percebemos o quão desafiante é para as organizações a missão de recolher, tratar e armazenar dados, pessoais, ou de negócio, em segurança, de forma a garantir a privacidade dos mesmos. Sabemos que a nossa tecnologia pode ser um forte aliado na estratégia das empresas, com vista a projetar nos seus clientes e parceiros uma imagem de responsabilidade e confiança.

De que forma, os acontecimentos provocados pelo coronavírus estão a alterar os vossos planos estratégicos?
A situação que vivemos e a consequente alteração das condições do mercado levou à necessidade de adaptação rápida dos planos que a Vawlt tinha para este ano, mas assumimo-lo como um desafio e uma oportunidade de aprendizagem, ainda que forçada.

Estamos, mais do que nunca, focados em apoiar as empresas a otimizar os seus recursos e processos através da adoção de uma estratégia assente em cloud que seja flexível, escalável e permita uma redução de custos operacionais e de manutenção.

No fundo, queremos contribuir para a sobrevivência dos negócios (e dos postos de trabalho) por via de uma transição digital e das ferramentas que poderão facilitar esse processo.

“(…) vemos o momento atual não tanto de forma oportunística para a Vawlt, mas antes como um cenário em que é possível todos retirarmos benefícios”.

No vosso caso particular, este é um momento perigoso para a vossa sobrevivência ou uma oportunidade?
As empresas e entidades públicas estão a contactar cada vez mais com serviços assentes na cloud, nomeadamente para terem as suas equipas a funcionar remotamente. Prevemos, por isso, que haja uma fatia significativa a adotar soluções como a a nossa, particularmente pela componente de redução de custos, já que a liquidez das empresas será um tema-chave nos tempos mais próximos.

Se já antes da pandemia acreditávamos ter criado uma solução inovadora, com mais-valias estratégicas para tantos negócios, percebemos agora que é urgente pô-la à disposição do mercado e contribuir para a retoma. Nesta perspetiva, vemos o momento atual não tanto de forma oportunística para a Vawlt, mas antes como um cenário em que é possível todos retirarmos benefícios.

Quais são os vossos horizontes empresariais? Até onde vão as vossas ambições?
Em termos de horizontes temos, neste momento, um muito concreto que é o lançamento público do produto, ainda na primeira metade deste ano. No seguimento, iremos materializar os contactos comerciais que temos vindo a desenvolver e outros novos que estão a surgir, nomeadamente de clientes fora de Portugal porque a nossa ambição é global.

Respostas rápidas:
O maior risco: o risco e a incerteza são a génese de uma start-up, estão sempre presentes. Gostamos da abordagem de lançar hipóteses e ir validando como forma de os mitigar.
O maior erro: cometemos vários no dia a dia, e uma das nossas “regras da casa” encoraja-nos a aprender com todos eles.
A maior lição: uma das vantagens de surgirmos agora é que já muitos outros fizeram um caminho semelhante e podemos aprender com eles, não uma mas imensas lições.
A maior conquista: o investimento que angariámos, na altura certa e com os investidores certos.

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