Como ajudar de modo eficaz os países que depois de muito sofrimento chegaram a um estádio em que desejam elevar o nível material, cultural, científico, da sua população? Que fazer, sem despertar fantasmas da memória coletiva desses países explorados? Quais os países melhor posicionados para canalizar uma ajuda eficaz?

A Europa teve uma longa convivência com a África. Contudo, as más recordações ainda fazem sangrar, agravadas pelo precipitado abandono e a incúria na formação de quadros e elites, para criar e pôr a funcionar instituições sociais duradouras. Daí que seja melhor ela atuar indiretamente através de países que tenham ganho a confiança. Entretanto, a Europa pode e deve acolher quantos vêm em busca de refúgio, longe das deploráveis condições das suas origens. Não lhes estender uma mão amiga não é só desumano e imoral, podendo ser criminoso…

A Europa que enriqueceu com as colónias devia criar fundos, para ajudar a África a sair do atoleiro em que a meteu, para se investir em projetos que os países mais estabilizados desejassem levar à prática. Para as infraestruturas, a agricultura e criação de trabalho e, muito em especial, para a generalização do ensino básico/profissional, de qualidade e exigência, com instituições também de ensino secundário e superior; e para a criação de uma rede mínima de cuidados de saúde!

Sem dúvida, a melhor forma de ajudar um país a crescer é comercializar com ele, comprando o que é capaz de produzir. Infelizmente, a Europa mal gastou com o PAC-  Programa Agrícola Comum, concorrendo com os países pobres, saídos do jugo colonial, que tinham a única possibilidade de criar riqueza através da agricultura. Isso afundou mais os pobres e desacreditou a Europa.

Se há instituição que fez muito, e muito bem nessa África, é a Igreja Católica, e é por isso a entidade muito amada e desejada na promoção das sociedades locais. Ela identifica-se com as populações mártires, com os seus anseios, protegendo-as das injustiças e das perseguições, sofrendo com elas, curando as suas feridas e ensinando. Daí, que todas as iniciativas da Igreja Católica deveriam ser apoiadas pelos países ricos, se de verdade quisessem ajudar África.

No ambiente de abandono em que se encontrava, eis que surge a China, numa entrada poderosa, talvez com vontade de se afirmar, mas também de ajudar a reconstruir. E teve o condão de despertar e assustar os países ricos, para essa África esquecida.

Embora a Índia lá estivesse desde há muito tempo, através dos seus cidadãos-empreendedores e suas famílias, a fúria das ideologias e a afirmação nacionalista fizeram que muitos deles não encontrassem segurança nem condições para continuar a trabalhar lá. Só há poucos anos, quando a Índia começou a afirmar-se como potência, estendeu uma mão forte à África.

Manmohan Singh lançou a ideia do Forum África-Índia, reunindo a maioria dos Chefes de Estado e abrindo linhas de crédito crescentes para o comércio e investimentos. O comércio bilateral (Índia-África) deu um salto, para chegar aos $62,9 bn em 2017/18. O PM Narendra Modi reafirmou a parceria, “para fortalecer o poder da África, dar acesso ao mercado indiano, trocar experiências em matérias agrícolas e apoio aos investimentos indianos na África”.

Em 2006, um trabalho do Banco Mundial veiculava a opinião de vários estudiosos de que as empresas indianas, presentes em África, contratavam pessoal local, treinavam-no e transferiam tecnologia. Alex Vines, do think-tank britânico Chatam House, sugeria que, contrariamente à China, a Índia não encarava a África apenas como fornecedor de recursos naturais, mas os seus investimentos eram de desenvolvimento (in Financial Times).

Há, de facto, um número crescente de empresas indianas a operar em África desde há muitos: a TATA International está em vários países; a Bharti Airtel, adquiriu a Zain, sedeada no Kuweit, e leva telecomunicações móveis a cerca de 50 países da África e do Médio Oriente; a Vedanta, tem investimentos em minas de vários países do sul da África; a Coal Índia, a Reliance Industries, a BHEL, a Essar, a Mahindra & Mahindra, a Kirloskar, a Dr Reddy’s, etc. são exemplos de empresas com boa presença.

Serão mais de 250 empresas indianas, com investimentos superiores aos $50.000 milhões e com potencial para crescer e trabalhar em infraestruturas, energia, agricultura e processamento de alimentos, engenharia, etc.

Para preparar o futuro, para além da qualidade do ensino primário e secundário, deveria dar-se atenção à formação de engenheiros de todas as especialidades, informáticos, professores, médicos, enfermeiros e páramédicos, gestores, etc. tão necessários ao desenvolvimento das populações e dos países.

*Professor da AESE-Business School, do IIM Rohtak e autor do livro ‘O Despertar da Índia’

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Eugénio Viassa Monteiro, cofundador e professor da AESE, é Visiting Professor da IESE-Universidad de Navarra, Espanha, do Instituto Internacional San Telmo, Seville, Espanha, e do Instituto Internacional Bravo Murillo, Ilhas Canárias, Espanha. É autor do livro “O Despertar da India”,... Ler Mais