Há mais de três décadas, respondia à pergunta “o que é que queres ser quando fores grande?”, sempre com o mesmo sorriso ingénuo e sonhador: Cabeleireira. Mas no dia em que retalhei, às escondidas das nossas mães, a franja de canudos da minha prima bebé fofinha, percebi duas coisas: que não tinha jeito nenhum para aquilo e que nunca iria ser “grande”… Se calhar, era melhor pensar noutra profissão, onde pudesse dar largas à minha criatividade sem fazer das pessoas minhas cobaias.

Penso que aquilo que eu faço bem deverá ser o cruzamento entre entre a Paixão e a Profissão. E aquilo que me pagariam para fazer é o que resulta da Profissão e da Vocação combinadas. Se insistisse na arte dos cabelos, acho que iria passar o resto da vida a ter de pagar indemnizações.

Assim, uns centímetros mais tarde, e na idade em que tive de fazer escolhas concretas ao nível do meu percurso académico, a minha Paixão pelas letras, o à vontade em comunicar, a minha Vocação para a escrita – comprovada pela opinião dos que me rodeavam – e uma empatia inata para lidar com pessoas ditaram: Jornalismo.

Não sei se algum dia chegou a ser propriamente um sonho, mas era aquilo que eu amava (aprender para um dia vir a) fazer. Os anos foram passando, eu continuava a crescer em centímetris (mas agora só para os lados!) e na universidade ouvi pela primeira vez a palavra Missão aliada à Profissão. Eu que julgava que isso era só para os que abandonavam tudo e iam para um lugar longínquo, fora da sua zona de conforto, guiados por uma Paixão transformadora de mudar o mundo. Até para isso era preciso Vocação!

Quando a Missão e a Vocação se juntam é o mundo que ganha porque deixa de ser unicamente acerca de nós e do nosso sucesso individual. Sempre defendi que o mundo precisa de bons jornalistas, que no exercício puro da sua Profissão podem ser verdadeiros ajudadores da justiça. O profundo respeito por quem, apesar de todos os confrangimentos actuais, ainda consegue fazer isso prevalecer é que me fez assumir que o mundo não precisava do meu jornalismo.

Mesmo assim ainda tentei ter uma vida arrumadinha no que a construir uma carreira diz respeito. Estar perfeitamente inserida no mercado de trabalho, apesar dos meus atestados 95% de incapacidade motora, aos vinte e poucos anos era também poder dizer que tinha uma Profissão: Técnica de Comunicação. Foi isso que eu fui durante oito anos, numa grande empresa de ambiente e onde cresci centímetros invisíveis enquanto mulher e profissional. Como bónus, não tive de abdicar da minha Paixão nem da minha Vocação para exercer as minhas funções. E o mundo precisa daquilo que a minha empresa faz (e bem), portanto ao ser parte disso também o fazia como uma espécie de Missão. Isto é, a minha Profissão era muito mais do que aquilo que me permitia pagar as contas no final do mês.

Estava realizada profissionalmente? Mentiria, se respondesse que não. Mas havia um espaço por preencher, suportado e ladeado pela Paixão, Vocação, Missão e Profissão… a isso chama-se Propósito!

Propósito também é simultaneamente o centro de algo que eu faço bem, que me pagariam para fazer (muito gostam as pessoas de confundir Propósito com Voluntariado), que eu amo fazer e que definitivamente o mundo precisa. Para mim essa foi a alínea em que me foquei para partir para a mudança e pintar o espaço em branco do meu Propósito, que é aquilo para o qual fui criada.

Enquanto estudava para ser jornalista, nunca mais me esqueci da famosa expressão do sociólogo Marshall McLuhan: “o meio é a mensagem”. Quando isso fez eco em mim, quase dez anos depois, percebi o quão a minha embalagem conta para o conteúdo. E que é a partir daí que o meu Propósito se move. Hoje, continuo a comunicar. Fazendo uso não só dos meus dons, recursos, plataformas e pessoas que são acrescentadas à minha vida mas, acima de tudo, sendo eu mesma um instrumento para passar a mensagem mais motivadora de todas as que possam existir: a esperança não é a última a morrer; está ao alcance de todos ser a primeira a nascer!

Por isso, defendo que irmos à descoberta do nosso Propósito, deixando para trás a procura de quem somos, é como deixar a bússola em casa. O Ter e o Fazer são consequências da Profissão, da Vocação, da Missão e/ou da Paixão. Agora viver de mãos dadas com o nosso Propósito é permitir que o Ser tenha “rodas para andar”.

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