O desenvolvimento de práticas sustentáveis de colaboração com a academia é um fator relevante para o sucesso das atividades de inovação.

Estas práticas têm sido implementadas com sucesso por diversas empresas com resultados interessantes. Um caso de sucesso nesta matéria é o da Bosch Car Multimédia em Braga, onde o primeiro projeto de inovação em colaboração com a Universidade do Minho deu origem a 12 patentes em vários domínios, resultado tão positivo que rapidamente levou ao aprofundamento da colaboração com novos e mais projetos de I&D.

Esta relação colaborativa levou ao desenvolvimento de outras iniciativas, como por exemplo, a criação de um programa de doutoramento conjunto com a empresa, que se traduziu na mobilização de mais de uma dezena de doutorandos que desenvolvem investigação na empresa em áreas relevantes, ou o investimento na criação de um laboratório de investigação na área da manufatura aditiva na universidade, para utilização partilhada com os docentes, alunos.

Algumas das práticas identificadas a este nível, estão relacionadas com o desenvolvimento de atividades de investigação por parte de docentes e alunos na empresa, bem como com a participação de colaboradores da empresa em atividades de docência ou em mestrados ou doutoramentos, bem como através do desenvolvimento de projetos de I&D em consórcio, em co-promoção ou por subcontratação da universidade.

Para tal é importante que identificação dos parceiros na academia seja efetuada pelas empresas com base nas competências científicas necessárias para o seu roadmap de inovação, em áreas de colaboração bem definidas.

De forma sistematizada, identificam-se de seguida as principais práticas de promoção da inovação através da colaboração com a academia:

  • O roadmap resultante das atividades de vigilância e de planeamento estratégico serve da base à identificação das áreas de conhecimento a desenvolver, (ex: IOT, machine learning, etc …), determinando as parcerias a desenvolver e a seleção das universidades parceiras com base nas suas competências científicas nas áreas chave;
  • Existe uma governação conjunta com a universidade envolvendo a gestão de topo, visando o alinhamento da atividade de ambos;
  • Acolhem alunos da universidade, nomeadamente doutorandos e mestrandos, para desenvolvimento de trabalhos de investigação, cujos temas estão alinhados com as áreas prioritárias definidas no roadmap da empresa;
  • É incentivada a progressão académica dos colaboradores em áreas prioritárias, através da realização de mestrados ou doutoramentos na universidade;
  • Promovem o desenvolvimento de infraestruturas tecnológicas na universidade em áreas relevantes para a empresa, para utilização pelos docentes, alunos e colaboradores da empresa.
  • Promovem o recrutamento de docentes e incentivam os colaboradores da empresa a desenvolverem atividades de docência na universidade.
  • Realizam seminários e palestras na universidade para divulgação de resultados dos projetos colaborativos, apresentando o seu conhecimento em diversos domínios.
  • Participam em projetos de I&D em consórcio ou em co-promoção, com universidades, entidades de interface e outras empresas, incluindo atividades de validação de tecnologia.
  • Colaboram na identificação de temas a desenvolver nos conteúdos programáticos dos cursos, a nível de especialização tecnológica ou académica.

As informações apresentadas, neste artigo e em artigos anteriores sobre o tema, resultaram de um trabalho de investigação desenvolvido, usando como caso de estudo as empresas da cadeia de valor da indústria automóvel em Portugal, associadas da AFIA – Associação dos Fabricantes para a Indústria Automóvel.

Em síntese, as práticas de inovação colaborativa visando a partilha de recursos e conhecimento entre parceiros, são suportadas na forma como esta envolve os seus stakeholders no desenvolvimento da sua estratégia. A presença regular junto dos clientes, o desenvolvimento de clubes de fornecedores, a participação em clusters e a aproximação à universidade, através de consórcios de I&D, do acolhimento de projetos de investigação ou da participação de colaboradores em atividades letivas, são exemplos dessas práticas. A colaboração com os stakeholders externos é suportada em práticas de inovação colaborativa dentro da empresa, nomeadamente através da utilização de equipas transversais e abertas o exterior, suportadas em ferramentas digitais que facilitam a comunicação e transmissão do conhecimento. Por fim, o aprofundamento das práticas de inovação colaborativa parece ocorrer à medida que estas geram resultados positivos relevando a importância da sua divulgação e disseminação.

*Direção de Investimento para a Inovação e Competitividade Empresarial / IAPMEI

 

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Profissional com mais de 20 anos de experiência em avaliação de projetos de investimento, adquirida em várias funções exercidas no IAPMEI e na AICEP (ex-ICEP), grande parte das quais de direção de unidades de negócio. Desde 2006 no IAPMEI, exerce... Ler Mais