Tem o nome de Accelerat.ai e promete ajudar a colmatar o atraso que a Europa tem face aos EUA no que concerne à inteligência artificial. Em entrevista ao Link To Leaders Daniela Braga, fundadora da Defined.ai, líder do consórcio, fala do projeto que, segundo ela, vai ser o primeiro “milestone para o Centro de Excelência em IA em Portugal para a Europa”.

O consórcio de inteligência artificial Accelerat.ai vai criar um total de 150 novos postos de trabalho em Portugal nos próximos anos. O projeto, a três anos, representa um investimento de 34,5 milhões de euros, dos quais 75% são cofinanciados pelo governo português.

A Defined.ai é a líder do consórcio que inclui empresas como a Devscope, NOS, Instituto Superior Técnico de Lisboa, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, FC.Id e INESC-Id

Para Daniela Braga, fundadora e CEO da Defined.ai, este novo consórcio tem uma missão muito clara: “desenvolver uma tecnologia que se traduz na criação de assistentes virtuais para automatizar o atendimento a cliente por voz e por texto”, o que irá permitir “encomendar comida por voz sem tirar os olhos do jogo de futebol ou confirmar a receção do cheque família e transferi-lo para a conta poupança enquanto se conduz”, por exemplo.

Este consórcio assume como missão “desenvolver programas de IA de língua portuguesa europeia”. Em termos práticos, que tipo de tecnologia é que o consórcio pretende desenvolver para cumprir este objetivo? Como é que a Defined.ai surge neste projeto?
O novo consórcio Accelerat.ai é a primeira milestone para o Centro de Excelência em IA em Portugal para a Europa que propus ao governo português em finais de 2019. Irá desenvolver uma tecnologia que se traduz na criação de assistentes virtuais para automatizar o atendimento a cliente por voz e por texto. Como isto é um acordo com o governo português, é a nossa missão servir o mercado português, mas como a tecnologia parte da substituição de big data por small data, vai ter suporte em outras línguas também, dependendo do volume de pedidos de outros mercados.

Com estas melhorias, estima-se que será possível reduzir os custos alocados ao automatizar 80% das perguntas feitas no apoio ao cliente. Em termos práticos, algumas das aplicações terão avatares de voz que falarão com as pessoas, tornando possível encomendar comida por voz sem tirar os olhos do jogo de futebol ou confirmar a receção do cheque família e transferi-lo para a conta poupança enquanto se conduz, por exemplo.

Além da Defined.ai – que irá liderar o novo consórcio –, fazem parte do Accelerat.ai um conjunto de empresas que inclui Devscope, NOS, Instituto Superior Técnico de Lisboa, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, FC.Id e INESC-Id. Na lista de clientes interessados estão entidades do setor publico e privado, nomeadamente, o Novo Banco e Banco Santander, a Caixa Geral de Depósitos SPMS e SNS (no Ministério da Saúde), AMA (Transformação Digital), Ministério da Segurança Social, EDP e Galp, a NOS, a Worten e a Fidelidade.

A otimização do atendimento ao cliente nos setores público e privado é o único foco ou estão previstas outras áreas de intervenção? De que forma o consórcio espera contribuir para acelerar a transformação digital dos setores públicos e privado portugueses?
O foco do consórcio será a otimização do atendimento ao cliente nos setores públicos e privados porque esta é uma área de 24,6 mil milhões de dólares [24 mil milhões de euros] em 2020, de acordo com a Gartner. Em Portugal, 50% das chamadas do setor publico nem sequer são atendidas. O foco do projeto é desenvolver agentes virtuais por voz e por texto que se integrem ou em contact centres ou em voicebots e chatbots especializados por vertical da indústria. O nosso foco é em línguas digitalmente “under resourced” em comparação com o inglês, o chines e o espanhol. Por isso, para já estamos a falar com o mercado português, mas estamos já a ver interesse de outros países na Europa, Africa e América Latina.

Com esta solução esperamos disponibilizar um acesso mais fácil na língua nativa, sem obrigar as pessoas a terem de dominar o inglês para aceder a estas tecnologias, especialmente à população que não possui acesso à internet ou, tendo, não detém destreza, proficiência digital e/ou se encontra distante dos centros das cidades onde se localizam a maioria dos nós de atendimento presencial. Acreditamos que passando estes serviços a estar à distância de uma chamada ou de uma mensagem de texto, haverá um impacto positivo na transição digital – um tema que está nas agendas políticas em Portugal e na Europa.

“Este projeto vai tirar partido de um trabalho que a Defined.ai tem vindo a desenvolver nos últimos dois anos, na expansão da sua base de dados, como novos modelos de reconhecimento para línguas europeias (…)”.

Qual o foco inicial das iniciativas planeadas pelo Accelerat.ai? O investimento de 34,5 milhões de euros enquadra-se nas ambições do consórcio?
Este projeto vai tirar partido de um trabalho que a Defined.ai tem vindo a desenvolver nos últimos dois anos, na expansão da sua base de dados, como novos modelos de reconhecimento para línguas europeias, incluindo o português de Portugal. O foco inicial do consórcio será no benchmark dos nossos sistemas de reconhecimento de voz em relação a realidade das chamadas dos clientes. É necessário medir como os nossos modelos genéricos se comportam em relação à realidade. A fiabilidade do primeiro modelo é fundamental para determinar a fiabilidade dos próximos. A seguir vem a anonimização dos dados, que é um tema muito importante a luz do GDPR.

O valor do investimento é o mínimo para poder entregar um produto dentro de 3 anos, mas vamos necessitar de mais financiamento seguramente. Só para pôr as coisas em perspetiva, a Amazon desenvolve estas tecnologias há mais de 10 anos e neste momento a Alexa tem mais de 1000 pessoas.

Qual o perfil de clientes/setores de atividade target da tecnologia que vão desenvolver? Porquê?
São várias as áreas de atuação e indústrias que temos planeadas como targets da tecnologia que estamos a desenvolver. A escolha foi feita em função das manifestações de interesse durante a candidatura dos setores publico e privado, nomeadamente a Banca, a Saúde, as Telecomunicações, Energia, Utitlities, Retalho e Seguros.

Algum mercado com mais potencial para acolher a inovação tecnológica que vier a sair do consórcio?
O mercado português primeiro por ser financiado pelo governo português. Mas a seguir são países de expressão portuguesa e espanhola, onde há bastante resistência para adotar o inglês e que tem milhões de clientes a interagir com empresas e instituições em grande escala.

“(…) o novo consórcio irá criar cerca de 150 novos postos de trabalho qualificado em Portugal. 44 desses novos postos de trabalho irão integrar a Defined.ai”.

A contratação de “talentos” para o consórcio vai incidir em que áreas profissionais? E com quantas pessoas preveem completar a equipa do Accelerat.ai?
A aposta no talento para este consórcio vai incidir principalmente na área das tecnologias de informação. Com o intuito de fazer crescer as equipas de machine learning, data e infraestrutura, o consórcio está ativamente à procura de novos talentos que nos permitam ir ao encontro do objetivo e que nos capacitem dos recursos necessários para concretizar esse mesmo objetivo. Mas também precisamos de program managers, project managers, sales representatives, solutions Architects.

Deste modo, o novo consórcio irá criar cerca de 150 novos postos de trabalho qualificado em Portugal. 44 desses novos postos de trabalho irão integrar a Defined.ai. Os restantes, farão parte das outras instituições que compõem o consórcio. O projeto contará ainda com o contributo de milhares de freelancers que, em regime crowd-source, criam os dados para o desenvolvimento desta tecnologia.

Planeiam alargar o número de empresas e instituições que integram o consórcio? Mais empresas, mais academia?
A lista de membros do consórcio está fechada porque o orçamento está fechado, mas é sempre possível mudar empresas se houver necessidade de uma substituição. No entanto, estará sempre aberto à possibilidade de novas colaborações, apoios e parcerias que ajudem a promover a linha de atuação do consórcio. Nesse sentido, estamos a trabalhar ativamente na criação de canais de comunicação, contando com a colaboração de mais instituições da academia (do ponto de vista de atração de talento e apoio à formação), bem como mais empresas (do ponto de vista comercial).

O Accelerat.ai é um dos primeiros projetos do Centro de Excelência em IA em Portugal. Pode dizer-se que é uma etapa para tornar Portugal uma referência europeia em inovação?
Sem dúvida e esse é o meu objetivo desde que o apresentei ao governo português em finais de 2019. Portugal foi sempre um país muito bem capacitado a nível de talento (fator crucial para a inovação nas empresas). No entanto, temos vindo a assistir a uma migração deste talento para países mais bem posicionados a nível da inovação e investimento.

Nos últimos anos deu-se o reverso da moeda: diferentes gigantes tecnológicos procuram agora Portugal, transformando o nosso país num novo hub tecnológico ou, como alguns dizem, o Silicon Valley Europeu. Acredito que Portugal pode ser um grande fornecedor de tecnologias de machine learning e soluções de IA para a Europa e para o mundo, e que tem as condições de segurança, qualidade de vida e até de atracão de investimento e de talento necessárias para realizar esta visão.

 

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