Opinião

Por um modelo híbrido de recrutamento para as nossas FAs

André Marquet, cofundador da Productized

Coincidindo com a 1.ª fase do processo de concurso nacional de acesso ao ensino superior, que agora se inicia, volto à temática das Forças Armadas (FAs) para falar do seu respetivo modelo de recrutamento.

O momento que vivemos em termos internacionais obriga-nos a pensar numa mudança profunda no respetivo modelo de recrutamento e nas sinergias que podem ser criadas com o sistema de ensino. Quando a probabilidade de alargamento do atual conflito entre a Rússia e a Ucrânia na Europa não é nula, e vários países da NATO se mobilizam para fazer face à ameaça securitária, surgiram noticias que dão conta que vivemos a pior situação desde a segunda guerra mundial no que concerne aos quadros das nossas FAs.

Nos dados dos primeiros três meses de 2022, divulgados pela Associação de Oficiais das Forças Armadas, o número de militares voltou a cair para 25.616, o número mais baixo desde que há registo. Alguns generais até já falam de recrutamento de estrangeiros…

Caso o atual modelo de recrutamento e visão para o papel das FAs na sociedade portuguesa não seja profundamente redesenhado, na eventualidade de Portugal ser chamado a responder no quadro das suas obrigações da NATO, arrisca-se a nem sequer conseguir reunir um batalhão para projeção de forças para um teatro no Leste Europeu, ou de prestar ajuda significativa no Atlântico Norte, em que será necessário assegurar corredores marítimos para a retaguarda logística da Europa, baseada na Península Ibérica.

Arriscamos a um repetir da História, quando a recém criada República arrancou o milagre de Tancos, como garante da participação portuguesa nas trincheiras da Flandres na Guerra 1914-1918. Recorde-se que a Constituição Portuguesa permite a conscrição em caso de guerra,

Em Portugal, todos os anos chegam à idade militar (18 anos) cerca de 100.000 jovens de ambos os sexos, número que tem vindo a diminuir acentuadamente. Quando eu cheguei à idade militar, em 1999, éramos 200.000. Quando o meu filho mais velho chegar à idade adulta, em 2027, serão apenas cerca de 90.000. Com o fim do serviço militar obrigatório foi criado o Dia da Defesa Nacional (DDN), que dificilmente serve o propósito de convencer os jovens a ingressar nas FAs, já que as taxas de conversão são baixíssimas. Não só não funciona como mecanismo de atração, como se assume como uma obrigação vã, que é rapidamente esquecida pela maior parte dos que o frequentam.

Torna-se hoje evidente que o atual modelo de voluntariado, que faz 20 anos, não serve um país com recursos financeiros limitados como o nosso, porque não gera uma base de recrutamento suficiente e irá condenar as nossas FAs à situação de míngua em que se encontram, tentando disputar talento altamente qualificado com o setor privado, que se revela com mais capacidade atrativa. Mesmo quando as FAs apostam em incentivos para a prestação do serviço militar, em regime de voluntariado ou em regime de contrato, a vantagem competitiva está do lado do setor privado.

Este sistema cria uma profecia autorrealizada que faz com que o ingresso nas FAs seja atrativo para uma franja cada vez mais reduzida da população elegível, que neste momento deverá estar muito próxima da chamada linha de base, isto é, jovens naturalmente vocacionados para a vida militar, seja por via familiar, ou pela via formativa através dos colégios militares – e que veem a sua participação nas FAs mais como oportunidade de emprego.

O que defendo neste artigo é que deveríamos redesenhar o atual modelo de recrutamento, para um modelo híbrido, isto é, a formação nas FAs devia passar a ser vista como um fim em si mesmo e encarada como uma extensão do atual ensino obrigatório até ao 12.º ano. No século XXI, a atual dissociação que existe entre o ensino dito civil, nomeadamente o superior, e as FAs não faz sentido.

  • O DDN manter-se ia nos moldes atuais, mas com um programa revisto destinado a não a tentar recrutar os jovens para as FAs, mas, sobretudo, a explicar o funcionamento da fase subsequente que aqui proponho, o “nano-recrutamento”.
  • Os alunos que terminam o 12.º ano passariam a frequentar um “nano-recrutamento” com a extensão mínima de duas semanas de frequência obrigatória e em parceria com as instituições de ensino superior dos territórios em que se inserem as infraestruturas militares de referência. A este propósito tive a oportunidade de participar, enquanto docente, na 1.ª Escola de Verão em Tecnologias Digitais do Iscte, em Sintra, onde contactei com jovens dos 16 aos 18 anos, candidatos ao ensino superior, e me apercebi em primeira mão das suas dificuldades na escolha de uma formação superior, e de como as FAs não estão no seu radar de possibilidades.
  • Após o “nano-recrutamento”, muitos dos nossos jovens poderiam realizar o 1.º ano do ensino superior (Licenciatura, TeSP, Curso de Especialização) em regime combinado, entre a instituição de ensino superior e os ramos das FAs, com vista ao seu acompanhamento e direcionamento para áreas que são mais prementes para as necessidades de segurança nacional, das forças modernas, como sejam a cibersegurança, a informática e os sistemas de informação, a operação de sistemas de armas avançados, a gestão logística e de pessoal, a assistência médica ou enfermagem, entre muitas outras.
  • Portugal tem hoje um ensino superior público e privado vibrante e internacionalmente reconhecido no plano científico, que já atingiu relevância e impacto internacionais, tendo excelente condições para atrair jovens para o nosso país, que valorizam o nosso estilo de vida e a qualidade do ensino. E o mesmo poderá ser pensado para o setor da Defesa, com a possibilidade de implementarmos um Erasmus Defense, de forma a atrair jovens da UE e da CPLP para as nossas FAs.
  • Este contacto mais direto e continuado com as FAs seria também uma excelente oportunidade para que muitos destes programas de formação fossem ministrados nas línguas oficiais da NATO, em particular, em inglês, até por razões de interoperacionalidade futura.

Um modelo deste género iria permitir às FAs ter contacto direto com os jovens dos dois sexos em idade militar, injetando na base do funil de recrutamento mais 50.000 jovens, com mais horas de contacto, durante cerca de um ano, e com um foco “formativo” e não necessariamente profissionalizante.

Esta formação complementar militar de base seria uma oportunidade de participação em ações de apoio às populações, por exemplo, nos contextos da proteção civil, INEM ou bombeiros. Ao mesmo tempo, este modelo complementaria a formação do ensino superior tradicional, sobretudo em competências de línguas estrangeiras, de coordenação e liderança, e das chamadas soft skills, permitindo às FAs alargar a sua base do funil de recrutamento e aumentar a probabilidade de atrair as melhores mentes para carreiras profissionais mais flexíveis nas FAs.

Esperamos que o novo Conceito Estratégico de Defesa, que irá ser apresentado pelo Ministério da Defesa Nacional até ao final do ano, traga algumas novidades neste sentido.

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André Marquet

André Marquet

André Marquet é formado em Engenharia de Telecomunicações e mestre em informática, pelo ISCTE-Universidade de Lisboa. Iniciou a sua carreira como investigador de redes informáticas no INESC Lisboa. Trabalhou na Tunísia para a EFACEC. Ocupou cargos de consultor na AICEP, e na Nokia. Abraçou a Gestão de Produto na Wit Software e Huawei. Em 2009 trouxe as conferências TEDx para Portugal e cofundou e teve uma função executiva na Beta-i, um hub de start-ups de inovação. Atualmente, atua como líder... Ler Mais..

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