A confirmarem-se os mais recentes indicadores, aliados a uma – finalmente – ponderada e mais suave abertura da atividade económica, começa a ser possível dizermos que foi superada, de forma difícil e com enormes perdas, mais uma barreira no combate à pandemia global que vivemos.

Não dista muito o tempo em que a quase totalidade da população nacional (mundial, até) estava confinada nas suas casas, num cenário semi-apocalíptico a fazer lembrar alguns filmes notórios do género, em que, no meio da crise e isolamento, os sons da natureza entravam pelas nossas residências como há muito não acontecia. Sair à rua apresentava elevados graus de risco, como se houvesse um “zombie” qualquer (leia-se infetado) a cada esquina à espera de contaminar-nos a todos, contra os quais não havia qualquer caçadeira improvisada, besta ou outra arma saída do imaginário do Mad Max, mas apenas podíamos combater essas ameaças com umas fracas máscaras e bisnagas de álcool gel em barda.

Ao mesmo tempo seguimos as notícias, os relatórios diários de crescimento da doença, a evolução desastrosa da economia mundial, o endividamento crescente, desemprego galopante e um sem número de negócios a encontrarem o seu fim. Muitos não se anteciparia que assim fosse, outros parecia já evidente que não haveria alternativa.

Tal como em 2008, o Mundo vive de bolhas, sejam elas imobiliárias, creditícias ou de outra natureza. Uma das citações mais interessantes relativamente a este fenómeno vem de Warren Buffet que afirmou que “only when the tides goes out do you discover who’s been swimming naked”. E sem dúvida que a maré desceu muito mesmo, e não faltava quem estivesse há muito tempo a nadar despido…

A pandemia, tal como a crise de 2008, revelou de forma brutal aqueles que há muito viviam acima das suas possibilidades, para lá do red line que nem as pessoas nem as empresas devem ultrapassar sob pena de inequivocamente se despistarem. Não foi só a redução da atividade económica que criou a calamidade global em que vivemos. Foi também a saúde artificial de muitos que rodavam dinheiro sem efetivamente o conseguirem ganhar. Daqueles que viviam do amanhã para solucionar os problemas do presente, na esperança de uma nova lufada de ar fresco que pudesse solucionar miraculosamente os problemas sistémicos que os seus negócios ou agregados sentiam há muito. Mas o Euromilhões veio da forma contrária, tirou em vez de dar, fechou em vez de alargar horizontes e criar excêntricos, descobrindo-se sim que esses já há muito cá andavam a “comprar ilhas” quando não podiam nem pagar uma ida à praia.

No que pensamos ser já um rescaldo da crise, a realidade impõe-nos uma alteração transversal de hábitos e da forma como fazemos negócios. O virtual, o online, as novas tecnologias entraram em força no dia a dia de todos, mesmo daqueles que sempre se esquivaram a aderir às mesmas. O contato pessoal reduziu, as plataformas eletrónicas dispararam, a moeda virtual ganhou força e novamente (sempre?) a procura pelos técnicos informáticos atingiu níveis avassaladores. Conceitos antiquados como escritórios fixos, reuniões presenciais ou outros resquícios arcaicos do mundo profissional pré-crise estão já seriamente colocados em causa.

O indivíduo virou-se novamente para si, um pouco ao estilo do renascimento, sabe da importância da sua saúde, apreciou o bem-estar de poder trabalhar virtualmente a partir de casa. As empresas que subsistiram entenderam a redução de custos que o ambiente de negócios virtual permite, o corte nas despesas fixas e overheads, a maior rapidez e facilidade de comunicar eletronicamente.

Perde-se algo, sem dúvida. Perde-se a antiga maneira de fazer negócios. O cumprimento pessoal, o aperto de mão, o selar de acordos efusivamente. Ganha-se na capacidade de olhar olhos nos olhos (o pouco que resta debaixo da máscara) e no talento de saber ler uma poker face cada vez mais disfarçada. É a nova realidade, dura, mais fria, imperdoável para quem não se souber adaptar rapidamente. Não é cheia de vantagens, mas também não tem só defeitos. É simplesmente o que é. O que temos de saber aceitar. E os que melhor o fizerem, menos correrão o risco de se encontrar nus a nadar no oceano.

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Nuno Madeira Rodrigues é Chairman da BDJ S.A. Anteriormente foi Chairman da Lusitano SAD, Administrador do Grupo HBD e Presidente do Conselho de Administração da Lusitano, SAD, e do Conselho Fiscal da Associação Lusófona para as Energias Renováveis. É Vice-Presidente... Ler Mais