Greta Thunberg foi eleita a figura do ano de 2019 por várias publicações internacionais. Zangada, mas não violenta, esta rapariga de 16 anos acabados de fazer representa uma geração que se interroga sobre o legado que os mais velhos (que ela cresceu a respeitar) lhes vai deixar.

Uma geração que nos confronta, olhos nos olhos, de forma pacifista mas decidida e acutilante, perguntando, não pelo passado mas pelo presente: O que estão a fazer pelo planeta? Ou, melhor: já viram o que continuam a fazer ao planeta?!

Quando observo a malta com menos de 35 anos sinto um misto de orgulho e de “ah, se isto fosse assim quando eu tinha a idade deles”…

Há muita literatura que carateriza os jovens das gerações Y e Z (ou seja, os millennials e aqueles que nasceram já depois destes) e que mostra como eles são diferentes dos seus irmãos mais velhos, pais e avós (que aquela literatura também carateriza). Mas aquilo que mais me impressiona é a sua capacidade de fazerem acontecer, de romperem com o status quo e da rapidez com que executam aquilo em que acreditam.

Reflito sobre o tal legado que nós, mais velhos, lhes vamos deixar e sei que este é, hoje, um mundo muito melhor sob quase todas as métricas que se possa ou queira utilizar. A obra do historiador israelita Yuval Noah Harari é seminal e mostra isto mesmo, pelo que não vou aqui gastar bits a justificar a medida dessa mudança. Foi o mundo que nós transformamos e temos esse mérito a nosso favor.

Mas é exatamente a partir desse mundo novo que os jovens reivindicam o seu lugar nele! Um lugar, talvez especial, em que, de uma forma muito diferente da nossa, eles possam liderar para que as “novas mudanças” se concretizem. E reivindicam-no com naturalidade.

Para as gerações mais velhas, acreditar que é possível concretizar os seus sonhos e criar algo de realmente novo foi uma conquista, um ponto de chegada. Para as gerações Y e Z, lutar por atingir o impossível é um ponto de partida, uma “não-questão”.

Tenho assistido a inúmeras conferências em que “panelistas” e assistência discutem aquilo que os jovens gostam, o que os carateriza, o que são e como se comportam. Olho à volta e só vejo cabeças grisalhas a falarem sobre os jovens que não conhecem. Talvez porque se sentem eles próprios jovens e querem perpetuar essa juventude e isso é compreensível.

Mas os jovens não têm uma maior expressão na nossa sociedade porque nós, os mais velhos, não lhes cedemos o lugar e isso já não é desejável! Devemos, com humildade, começar a entregar-lhes o legado que temos para lhes deixar e reinventarmo-nos num mundo liderado por eles.

Os jovens “Y e Z” têm uma atitude pragmática, mais informada, focada em resolver problemas e assim encontram frequentemente soluções que nós desconhecemos e que, muitas vezes, recusamos quando confrontados com elas.

A mais recente edição americana da Time, datada de 3 de fevereiro, tem como artigo de capa um trabalho de Charlotte Alter que especula sobre “como o mundo mudará quando a nova geração liderar”. A autora intitula o fenómeno de “Youthquake”, pela magnitude da mudança que terá lugar. É certo que a mudança não ocorrerá de um dia para o outro, mas quando se concretizar será uma mudança radical, defende a autora.

Do meu ponto de vista, não só será radical, mas também amplamente benéfica, pela capacidade de resolução dos velhos problemas que os mais novos revelam. Por isso mesmo, será uma mudança desejável e devemos fazer o que pudermos para lhe dar as boas vindas e mesmo acelerarmos a sua chegada.

Eu não comungo de uma teoria que defende as quotas como princípio, pois essa não me parece a melhor forma de valorizar o contributo dos novos líderes. Mas tenho que reconhecer que, na prática, o sistema de quotas funciona!

Foi isso que aconteceu com a participação das mulheres na atividade política, social e empresarial. A atribuição de quotas para mulheres em lugares de chefia funcionou e elas hoje ocupam, por mérito próprio, alguns dos lugares mais relevantes política e socialmente. Apesar do mérito próprio que têm, só agora ocupam esses lugares, o que se deve ao sistema de quotas, pois antes tinham o mesmo mérito próprio mas alguém (os homens) lhes vedava o acesso aos lugares que lhes “estavam reservados” (por eles próprios).

Da mesma forma, acredito que poderá funcionar noutros contextos. Por isso, acho que a receita deve ser também aplicada aos jovens, reservando para eles lugares de chefia na vida pública e na privada, na política, na sociedade e nas empresas.

E mais, acredito que rapidamente se verão os resultados, para benefício de todos.

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Miguel Henriques é um Business Angel português. Presidente da FNABA entre 2015 e 2017, é hoje vice-presidente do Clube de Business Angels de Lisboa e membro da Invicta Angels, do Porto. Integra três sociedades de investimento em projetos empresarias inovadores,... Ler Mais