Opinião

Comecei a minha vida profissional como “management trainee” na Fima-Lever-Iglo, uma joint-venture entre a Jerónimo Martins e a Unilever. Quando liguei ao meu Pai encontrei um raro silêncio do outro lado da linha.

Depois de uns longos segundos, disse-me o seguinte: “Tens até ao fim do mês para decidires o que fazer da vida. Depois de receberes o primeiro salário, nunca mais queres outra coisa”. A conversa evoluiu para explicações mais alargadas sobre um simples facto que hoje me parece evidente: na vida profissional há apenas duas opções válidas, trabalhar por conta própria ou trabalhar por conta de outrem. Todas as outras que possamos conceber são sempre variantes destes dois únicos caminhos. Médicos podem trabalhar para o SNS ou montar um clínica. Advogados podem encontrar um patrono ou serem patronos. Pode trabalhar-se para uma empresa ou lançar uma empresa.

É verdade que o salário vicia. Quem tem salário estrutura toda a vida em seu redor e espera o dia do pagamento para enfrentar um novo período de trinta dias. É um balão de oxigénio que se enche e esvazia em períodos cadenciados. Procuram-se promoções, uma “carreira”, sobretudo porque elas significam aumentos, mais dinheiro ao fim do mês.  O nirvana do assalariado é chegar ao topo, ser diretor-geral, CEO, presidente, o que for, e aí olhar para um percurso que confirme o seu denodo e competência ao longo de décadas.
No final restará o sentimento da coisa conseguida e, para os melhores, o reconhecimento social, cargos não-executivos, palestras, pedidos de presença aqui e ali, sem esquecer o hobby escolhido, pintar, escrever, ler, viajar ou, claro, jogar golfe. Para os outros, a maioria, uma reforma, maior ou menor, lazer na medida das possibilidades, netos, família e o encontro esporádico com amigos de uma vida.

Quem escolhe a vida empresarial abdica do salário em dia certo para entrar num mundo de interrogações onde alternam frustração e possibilidade. Um comerciante pode passar todo um ano a fazer maus contratos, a enfrentar dificuldades de tesouraria, ver-se à beira do abismo quando, inesperadamente, surge um negócio que salva tudo. Meses de noites mal dormidas substituídas por amanhãs luminosas. Já o industrial tem um desafio diferente, como pagar salários a cada trinta dias, fazer face a impostos e contribuições, a matérias logísticas e organizacionais que exigem coordenação, capacidade de previsão, agilidade e endurance.

Quando à atividade industrial se acrescenta pesquisa, inovação, investimento recorrente e compreensão dos mercados, a empresa poderá transformar-se naquilo que se designa uma “long-living company”. Sobretudo, o empresário bem-sucedido poderá olhar para trás e dizer, criei riqueza, dezenas, centenas ou milhares de postos de trabalho, juntei equipas de gestores competentes e inovadores, construí pontes e estradas, inventei isto e aquilo, vejo os meus produtos em casas nos cinco continentes ou espalhados pelo país.

O curioso desta dicotomia simplista é que o homem de carreira precisa do empresário como este precisa daquele. Dizia o “Economist” que não há nada mais abundante no mundo das business schools que cursos de “leadership” e que quase todos aspiramos à liderança. Mas, anotava com ironia, tal como excelentes líderes, são precisos ótimos “followers”. Ora, como a vastíssima maioria reporta a alguém, é bem mais importante saber seguir que liderar até mesmo para os que se consideram líderes. É isso que se espera de quem trabalha pois esse é o caso de todos com exceção de apenas um ou uma. Àqueles cabem as tarefas do possível, a estes sonhar com o impossível. Para os primeiros é uma forma de vida, para os últimos é a própria vida.

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Ricardo Monteiro

Ricardo Monteiro

Ricardo Monteiro é ex-presidente global da Havas Worldwide e ex-chairman global da Havas Worldwide,empresa de marketing e publicidade com presença em mais de 70 países e líder em Portugal. É speaker internacional, comentador de política internacional e economia na CNN e professor convidado da Porto Business School. Foi administrador não-executivo na Sonae MC, e special advisor no jornal Público entre 2018 e 2022. Ricardo Monteiro é casado com Leonor Jesus Correia, pai de quatro filhos e cinco vezes avô. Os... Ler Mais..

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