O ano que passou foi diferente de tudo que já vivemos, tanto na vida em geral quanto no local de trabalho. Atividades rotineiras foram suspensas, práticas de trabalho foram viradas do avesso e as normas aceites foram repensadas para que empregadores e colaboradores se adaptassem a um mundo incerto e em rápida mudança.

O impacto da Covid-19 foi desigual em termos de perda de emprego e mudanças no trabalho. Mesmo os trabalhadores que mantiveram os seus empregos são confrontados com um leque de escolhas e concessões e, em muitos casos, oportunidades inesperadas.

A súbita mudança para o trabalho remoto, os cuidados ininterruptos aos filhos ou a perda de emprego levaram muitos trabalhadores a reorganizar a vida, o que pode levar a novas escolhas profissionais.

Os empregadores precisam pensar em novas maneiras de atrair e reter os melhores talentos.

Dificuldades imediatas que pareciam temporárias há um ano podem perfeitamente se tornar questões de longo prazo. Entender alguns dos eventos que vivemos e identificar seu impacto em empresas e trabalhadores é vital para os empregadores planeando o caminho a seguir e buscando estabelecer um senso de estabilidade e propósito no momento atual em que continuamos sem saber como será o tão falado “novo normal”.

Na ADP fizemos recentemente um grande inquérito junto de mais de 32 mil trabalhadores no setor privado sobre as suas opções de trabalho no futuro próximo e como encará-las no percurso profissional para 2021, e nos próximos artigos abordarei estes temas convosco e partilho alguns factos desse estudo feito em 25 países, incluindo Portugal.

Nesta amostra, identificamos tanto colaboradores tradicionais quanto freelancers. Os freelancers identificaram-se como profissionais que realizam trabalho contingente, temporário ou sazonal, que atuam como freelancers, prestadores de serviços ou consultores, ou que utilizam uma plataforma on-line para encontrar trabalho. Os colaboradores tradicionais identificaram-se como profissionais não freelancers que ocupam um cargo em uma empresa com contrato de trabalho regular ou permanente, em período integral ou part-time.

A pesquisa foi conduzida online e no idioma de cada país. Os resultados gerais foram ponderados para representar o tamanho da população economicamente ativa de cada país.

O inquérito revela a extensão do impacto da Covid-19 na confiança do trabalhador e em questões como segurança no emprego. Houve uma queda no otimismo medido um ano atrás em relação aos cinco anos seguintes no local de trabalho.

Mas, apesar de todas as pressões da pandemia e de não sabermos quanto tempo o seu impacto durará, o clima entre os trabalhadores permanece amplamente positivo. Entre os entrevistados, 86% afirmam sentir-se otimistas, um número menor que os 92% que disseram o mesmo antes da Covid-19.

Otimismo abalado, porém, persistente

De maneira aparentemente contraditória, o otimismo existe por causa da Covid-19 e não a despeito dela. Quando perguntados especificamente sobre o impacto esperado da pandemia nos próximos três anos, os trabalhadores estavam mais inclinados a achar que a Covid-19 teria um efeito mais positivo do que negativo para o trabalho, particularmente em termos de se obter maior flexibilidade e desenvolver habilidades (resposta de 52% a cada item).

Um ponto essencial é que há diferenças regionais percetíveis quanto a esse sentimento: geralmente, o otimismo com o impacto da Covid-19 no trabalho é maior na região do Pacífico Asiático e na América Latina, enquanto as expectativas de resultados positivos são muito menores na Europa.

O impacto para a geração Z

A faixa etária mais nova na força de trabalho – pessoas entre 18 e 24 anos (também conhecidas como a geração Z) – foi a mais afetada, com quase quatro em cada cinco (78%) indicando um impacto na sua vida profissional e dois em cada cinco (39%) afirmando ter perdido o emprego, temporária ou permanentemente, ou ter recebido dispensa temporária parcialmente remunerada. Isso pode ser um reflexo da realidade difícil de entrar na força de trabalho durante uma recessão, causando grandes perdas financeiras iniciais e levando a mudanças significativas na estrutura do mercado de trabalho local que podem durar anos. Assim, não é surpreendente que o otimismo da geração Z tenha caído substancialmente no ano passado (de 93% para 83%), uma queda muito maior do que em qualquer outra geração.

Além disso, os trabalhadores mais jovens estão a dedicar um maior esforço ao estabelecimento de novos contatos nas suas organizações, com três em cada dez (30%)  trabalhadores da geração Z e quatro em cada dez (40%) dos millenials (de 25 a 34 anos de idade) fazendo o mesmo. Esses números confirmam uma tendência de longo prazo identificada no estudo sobre evolução do trabalho, do ADP Research Institute, que identificou que os colaboradores definem segurança no emprego de acordo com a extensão da sua rede de contatos profissionais e pela capacidade de utilizar esses relacionamentos para encontrar empregos que os façam avançar na carreira.

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Licenciado pelo ISEG em Gestão, em 1994, Carlos Carvalho começou a carreira nos escritórios da KPMG em Lisboa. Após um ano como auditor financeiro na KPMG, coordenou a equipa de desenvolvimento comercial B2B da empresa espanhola FAGOR Eletrodomésticos, onde desenvolveu... Ler Mais