A World Investor Week (Semana Mundial do Investidor) é uma iniciativa global criada pela IOSCO[1] em 2017, com o objetivo de sensibilizar e alertar para a importância da educação financeira e da proteção dos investidores. A CMVM[2] associa-se novamente à iniciativa que tem este ano como tema “ A informação é o seu ativo mais valioso”.

Os temas a desenvolver visam, por um lado, ajudar os investidores a enfrentarem a incerteza decorrente da crise pandémica e, por outro, a refletir sobre o contributo que o mercado de capitais pode oferecer à economia.

A OCDE[3] aprovou, no dia 29 de outubro 2020, a Recomendação sobre Literacia Financeira (“OECD Recommendation of the Council on Financial Literacy”) que inclui um conjunto de princípios e recomendações em três áreas:

Conceção de estratégias nacionais de educação financeira;
Desenvolvimento de programas de educação financeira em áreas específicas, como poupança, investimento, planos de pensões, crédito e seguros;
Implementação de estratégias nacionais e de programas de educação financeira.

Nesta recomendação, a OCDE considera que a literacia e a inclusão financeiras, aliadas a uma adequada regulação e proteção do consumidor, são fundamentais para aumentar a resiliência financeira e o bem-estar da população.

O best-seller de Benjamin Graham “The Intelligent Investor”, editado em 1949, veio alterar as perceções dos conceitos de investimento, muito assentes em especulação e em ganhos rápidos.

De acordo com Graham, o investidor inteligente deve compreender sempre as várias opções existentes e os vários graus de risco associados no contexto da estratégia Value Investing[4].

As teorias financeiras tradicionais[5] pressupõem que os seres humanos são seres completamente racionais nas suas tomadas de decisão, avaliando cuidadosamente e sem dificuldade todos os factos e evidências, antes de tomarem qualquer decisão, maximizando, assim, os seus objetivos.

Um mercado perfeito estaria dependente de decisões absolutamente racionais, não afetadas por custos, impostos ou comissões em que existisse verdadeira eficiência informativa – porque a informação está disponível livremente e de forma célere, incorporando-se nos preços.

Da parte dos investidores, se todos estes tivessem racionalidade completa os mercados financeiros seriam eficientes. A realidade é diferente, a resposta das finanças comportamentais baseia-se nos enviesamentos cognitivos, emocionais e sociais[6] que os investidores manifestam na prática.

Neste sentido, as finanças comportamentais[7] apelam à compreensão:

  • de como os enviesamentos[8] cognitivos e emocionais do processo de decisão afetam os investidores.
  • como é que os investidores com racionalidade limitada interagem nos mercados financeiros com decisores racionais, que por sua vez sofrem limitações na sua atuação.
  • de como da interação entre estes dois grupos podem resultar preços que se podem afastar da condição de eficiência.

Por outro lado, a nova Diretiva dos Mercados de Instrumentos Financeiros (DMIF II) enfatiza, as características individuais dos investidores – por exemplo, aspetos relacionados com a personalidade, idade, situação patrimonial e outras circunstâncias pessoais – terão de ser consideradas aquando da definição das estratégias de investimento. Uma correta caracterização dos investidores – com base na sua experiência, capacidade e tolerância ao risco – deve estar sempre presente no processo de adequação dos investimentos.

A OCDE, em 2020, no documento do projeto de educação financeira[9] salienta a sua importância definindo um conjunto de competências organizadas nas seguintes dimensões:

– Consciência e conhecimento: informações adquiridas pelo investidor, como comissões, características e riscos de produtos de investimento comuns;

– Capacidades e comportamentos:  capacidade de agir de maneira a obter resultados positivos, usando os comportamentos que provavelmente levam ao bem-estar financeiro, por exemplo, avaliando o retorno real dos investimentos antes de selecionar um produto de investimento;

– Atitudes, confiança e motivações: os mecanismos psicológicos internos que podem dificultar/apoiar a tomada de decisão informada e o bem-estar financeiro, por exemplo a crença dos investidores de retalho de que o desempenho passado de um investimento é uma indicação de retornos futuros.

Da prática sabe-se que poucos investidores são suficientemente disciplinados para manter padrões rigorosos de avaliação e aversão ao risco num contexto de incerteza.

Os investidores nunca deixarão de ser suscetíveis aos vieses comportamentais refletindo-se nas preferências, opiniões e expetativas que ditam a sua atuação nos mercados e que, em última análise, definem os próprios preços.

Por isso, a educação e a literacia financeira devem reforçar a formação e gestão na vertente comportamental das dimensões cognitiva, emocional e social que permitirão entender melhor as decisões financeiras que todos nós tomamos ao desafiarmos o modelo de “Homo Economicus” [10].

Como afirma Graham, o principal problema do investidor – e talvez o seu pior inimigo – é ele próprio.

*investigador, docente e Coordenador Científico da Pós-graduação em Gestão Financeira do Instituto Superior de Gestão

[1] Organização Internacional das Comissões de Valores.
[2] Comissão do Mercado de Valores Mobiliários.
[3] Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico.
[4] Value investing é uma estratégia de investimento que aposta no potencial de valor das empresas a longo prazo, e não em seu preço de mercado atual, nem seu volume de transações na bolsa. Este perfil de investidor em valor é avesso ao risco, por isso, a decisão de investimento é um processo de avaliação profunda dos dados fundamentais das empresas, dos negócios que lhe estão subjacentes e da sua capacidade de gerar um rendimento crescente no futuro.
[5] Efficient Market Hypothesis (Teoria dos Mercados Eficientes), Capital Asset Pricing Model (Modelo de Avaliação de Ativos Financeiros) e Modern Portfolio Theory (Teoria Moderna de Portefólios).
[6] Exemplos de alguns enviesamentos: aversão ao arrependimento, dissonância cognitiva, excesso de confiança, excesso de otimismo e conservadorismo.
[7]As finanças comportamentais são uma nova área de conhecimento na Teoria Financeira que deve ser estudada preocupando-se com a influência dos aspetos psicológicos, emocionais e cognitivos do comportamento humano nas tomadas de decisão de investimento (Thaler, R.H.,1999. Mental Accounting Matters, Journal of Behavioral Decision Making, 12,183).
[8]Tratam-se de mecanismos inconscientes e automáticos que, muitas vezes, condicionam a tomada de decisões, influenciadas por preconceitos e estereótipos.
[9] Disponível em http://www.financial-education.org/dataoecd/8/28/444q1a\\\09678.pdf
[10] O Homem Económico é um modelo simples do comportamento económico em que os princípios da racionalidade perfeita, do auto-interesse perfeito e da informação perfeita determinam as decisões económicas individuais.

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