Opinião

O pescoço e a sua importância

Carlos Rocha, economista e gestor*

“Se uma parte do corpo sofre, todas as outras sofrem com ela. Se uma é elogiada, todas as outras se alegram com ela”. Primeira carta aos Coríntios, 12:26.

Caros leitores, para que fique claro, não vou falar de anatomia humana, pois não tenho habilitações para tal, mas vou apenas queixar-me de uma ligeira dor que senti no pescoço há dias quando acordei de manhã, e que causa um pouco de desconforto. Nem fui ao médico, faço automedicação com pomada e alguma massagem para alívio do stress muscular.

Dor aguda no pescoço pode ser debilitante, constrangedora, causa dificuldades e pode impedir a realização de tarefas simples do dia a dia. Quem alguma vez teve torcicolo sabe que não se consegue virar apenas a cabeça, tem de ser todo o corpo, o que faz perder agilidade, flexibilidade e, pelo contrário, ganha rigidez. Nestas situações, o pescoço perde a sua função mecânica de intermediar, conectar e transmitir fluidez entre a cabeça e as restantes partes operacionais do corpo. Imagine que, para girar a cabeça, tem de girar todo o corpo.

Pelo pescoço, e através da laringe, passam os alimentos que irão nutrir todo o corpo, a água que hidrata o corpo, através da traqueia, o ar que oxigena a cabeça e também pelo pescoço passa a medula espinhal que conduz os impulsos nervosos entre o corpo e o cérebro. Pelo pescoço ainda passam os vasos sanguíneos que alimentam o cérebro. Em termos de defesa pessoal e de artes marciais, o pescoço é uma zona fulcral. Evite lesões traumáticas no pescoço, pois, por exemplo, lesões acima da cervical C4 podem ser fatais.

Assim, na organização do corpo, o pescoço desempenha o papel fundamental de uma espécie de gestão intermédia. Efetivamente, a gestão intermédia tem uma importância muito relevante na gestão das organizações, embora isso não tenha sido sempre assim. Até ao artigo seminal de Abraham Zahznik de 1977 no HBR, a gestão intermédia era vista com alguma reserva. O autor contribui positivamente ao introduzir uma distinção entre ser líder e ser gestor. Talvez hoje, no atual contexto, esta distinção não seja tão relevante, pois as organizações precisam das competências das duas categorias numa única categoria, a de gestor intermédio: precisa de ser o líder de uma equipa que dirige, mas também precisa gerir recursos e objetivos e reportar resultados à hierarquia de topo na organização.

A gestão intermédia, fazendo a ponte entre o topo e as equipas, é cada vez mais importante à medida que as organizações se tornem mais ágeis, menos burocráticas e mais flexíveis.

A sua importância e influência pode ser comparada a uma correia de transmissão, de geometria variável e seletiva entre a alta administração e as equipas operacionais: geometria variável porque não repassa tudo nem à mesma velocidade entre o topo e as equipas; seletiva porque tem de fazer uma pré-seleção do que vai trocar entre a alta administração e as equipas (na forma e no conteúdo). Quando a gestão intermédia não consegue fazer essa filtragem, transformação positiva e adaptação dos conteúdos aos dois públicos (alta administração e equipas funcionais) então passa a ser uma mera caixa de correios. Geralmente não é isso que acontece, pois, os gestores intermédios de sucesso são líderes proativos e sabem seguir a liderança do topo.

Os gestores intermédios de sucesso sabem fazer a ponte e sabem negociar entre dois públicos que, apesar de estarem a trabalhar para a mesma organização, muitas vezes tem agendas, interesses, visão e posições hierárquicas diferentes. Quem consegue esta intermediação tem de ter sucesso, se não corre o duplo risco de se expor perante a alta administração e/ou de defraudar as equipas que dirige.

Mas para tal, os programas de formação são fundamentais para preparar gestores intermédios pelo que devem incluir aspetos relacionados com:

  • Comunicação: é praticamente impossível falar de gestores intermédios sem falar numa boa comunicação. Saber comunicar com as equipas as decisões do topo e, depois, reportar os resultados, pode determinar ou não o sucesso;
  • Capacitação em ser bons seguidores: tendo este papel intermédio, os gestores também devem ser capacitados para influenciar o topo da organização, nomeadamente em termos de soluções para os problemas;
  • Capacitação emocional: são estes gestores que sofrem pressão e tensão de ambos os lados da organização, pelo que a área de desenvolvimento dos recursos humanos deve dar atenção especial do ponto de vista emocional;
  • Responsabilização: os gestores que não têm sucesso, geralmente não aceitam a responsabilização. Ora a responsabilização é importante para a melhoria da gestão intermédia, e se cada um deve ter as suas responsabilidades, o gestor intermédio deve ser responsabilizado perante o topo face aos resultados da sua equipa.

Não menos importantes são os desafios que esta categoria enfrenta, nomeadamente, o stress, o burnout e o desequilíbrio entre a vida familiar e profissional. Possuem agendas sobrecarregadas e, segundo pesquisas internacionais, passam, em média, 35% do seu tempo em reuniões. Pela natureza das suas funções, é também uma categoria sobrecarregada com tarefas administrativas.

Por tudo isso, os gestores intermédios devem merecer o apoio de toda a organização. Enquanto isso é a minha hora de colocar mais pomada no pescoço e fazer mais umas massagens para aligeirar o desconforto e você, líder, cuide do “pescoço” da sua organização, identifique e cuide das “cervicais” acima do C4.

* As opiniões são apenas do autor e não vinculam nenhuma instituição.

Comentários
Carlos Rocha

Carlos Rocha

Carlos Rocha é economista e atualmente é vogal do Conselho de Finanças Públicas de Cabo Verde e ex-presidente do Fundo de Garantia de Depósitos de Cabo Verde. Foi administrador do Banco de Cabo Verde, onde desempenhou anteriormente diversos cargos de liderança. Entre outras funções, foi administrador executivo da CI - Agência de Promoção de Investimento. Doutorado em Economia Monetária e Estabilização macroeconómica e política monetária em Cabo Verde, pelo Instituto Superior de Economia e Gestão – Lisboa, é mestre em... Ler Mais..

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos Relacionados