No mundo dos investimentos, as crises são desconfortáveis, geram receio e desafiam algumas de nossas certezas. Não raramente, tendemos a encarar estes momentos como se fossem mais críticos ou severos que outras crises que já enfrentamos em algum momento no passado. No entanto, apesar de toda a turbulência que surge em fases difíceis ou da forma como olhamos para estes eventos, situações desafiadoras também geram grandes oportunidades.

Historicamente, o ganho em investimentos fruto da recuperação pós-crise tem-se provado substancial. Algumas classes de ativos naturalmente tomam mais tempo que outras para retomar o ritmo de crescimento anterior à crise, mas com o passar do tempo a maior parte delas eventualmente acaba recuperando o fôlego de crescimento. Em meio a isso, alguns poucos investidores – aqueles aos quais por vezes nos referimos como visionários – conseguem tomar vantagem deste tipo de situação.

Primeiramente, ao se examinar eventos anteriores, é notável o quão rapidamente o mercado de venture capital se recuperou após turbulências e quantas start-ups do tipo unicórnio surgiram justamente em função das mudanças naturalmente impostas pelas crises sobre a sociedade. Enquanto a bolsa de ações toma, em média, cerca de dois anos para se recuperar, o mercado de venture capital retomou o crescimento imediatamente no ano de 2008 com ritmo extremamente acelerado. O impacto negativo gerado por esta crise sobre as mais variadas classes de ativos ao redor do mundo pouco difere de uma série de outras pelas quais já passamos e, não surpreendentemente, a incerteza de longo prazo gerada por ela amedrontou os investidores. Como de costume, previsões assertivas de curto prazo se tornaram difíceis de serem feitas, e os preços dos ativos, como consequência, derreteram.

Apesar de ainda não ser possível garantir que já tenhamos alcançado o fundo do poço ou se ainda há espaço para maior desvalorização dos preços, o mercado está claramente mais atrativo do que antes da crise para aqueles com intenção de investir. Nesta pandemia especificamente, no entanto, alguns aspetos parecem sugerir que o venture capital, entre todas as outras modalidades de investimento, será a classe de ativos mais promissora pelos próximos anos.

Além disso, considerando a natureza da crise atual e de como ela tem mudado as vidas de toda uma geração, fica claro o quão crucial se tornou o papel da tecnologia em nossas vidas. Diferentemente do ataque de 11 de setembro, que afetou em maior parte a economia dos EUA, e da crise de 2008, que impactou o mercado financeiro muito mais do que quaisquer outros mercados, a atual pandemia atingiu absolutamente todas as pessoas e todos os segmentos, causando o encerramento indefinido do comércio e de fronteiras entre países, além de mudanças comportamentais na vida de toda a população mundial.

Home office se tornou a nova realidade, assim como serviços prestados à distância. Sem a devida tecnologia, é difícil acreditar que qualquer companhia poderia prosperar neste momento. Quando tudo voltar ao normal, a tecnologia permanecerá intacta. Modelos de negócio defasados deverão adaptar-se à nova realidade e novos modelos muito mais associados à tecnologia surgirão. Este novo contexto representa um mar de oportunidades para empresas relacionadas com a tecnologia e, consequentemente, para fundos de venture capital.

Como mencionado anteriormente, ainda não é certo se os preços já atingiram o menor nível neste momento ou se ainda estão prestes a enfrentar mais desvalorização. Em muitos aspetos, é muito mais difícil fazer previsões de curto prazo do que de longo prazo neste caso. Sendo venture capital uma modalidade de investimento de longo prazo com potencial de retorno extremamente substancial, esperar mais tempo para entrar neste mercado a fim de se investir no momento de maior desvalorização possível não compensa o risco de potencialmente se perder este ótimo momento de entrada.

O fato é que o impacto do resultado de longo prazo em se perder o momento de entrada mais barato possível por uma pequena margem é praticamente irrelevante, mas garantir a entrada em um bom momento tal como o atual é, no mínimo, lógico.

Ademais, fundos de venture capital, assim como qualquer outra classe de investimento de longo prazo, invariavelmente enfrentam alguma turbulência no decorrer de sua vida de 8 a 10 anos. Diferentemente de produtos de curto prazo, estas turbulências não mudam estruturalmente a estratégia dos fundos de venture capital. Pelo contrário, dependendo do estágio do fundo, as crises podem gerar oportunidades únicas de investimento para que os gestores de venture capital possam aumentar o retorno dos seus investimentos sem necessariamente aumentar o risco associado.

Por fim, muito em função desta crise especificamente, a diversificação deve, mais do que nunca, exercer um papel importante na construção de portefólios de investimento. Alocar recursos em diferentes classes de ativo, regiões e moedas, provavelmente se tornará uma regra incontestável para muitos daqui para frente. Dada a discussão acima, o venture capital deve passar a representar uma parcela notável em muitos portefólios de investimento daqui para frente.

Comentários

Sobre o autor

Avatar

Daniel Ibri é Managing Partner e cofundador da Mindset Ventures, fundo de Venture Capital internacional focado em start-ups dos Estados Unidos e Israel, e foi considerado um dos mais influentes investidores de 2018 pela publicação Venture360. Além disso, também é... Ler Mais