Será que a educação é um elemento essencial do desenvolvimento? Não; temos de dizer que a única resposta honesta a esta pergunta é negativa.

É verdade que todos os dirigentes, analistas e agentes do setor enchem a boca com a importância decisiva da educação para a sociedade. Falam de “paixão pela educação”, de “contrato social para a educação”, de “setor estratégico nacional”; mas em todas essas ideias existe uma distorção subtil que precisa de ser corrigida.

Todos os seres humanos, mal ou bem, queiram ou não, têm uma educação. Até Mowgli foi educado pelos lobos. Isso significa que todos, bons e maus, são-no como educados e, portanto, as maiores destruições, como as maiores construções do desenvolvimento social provêm de uma educação.

Deste modo, o que se deve dizer em resposta à questão levantada é que “educação” em abstrato simplesmente não existe. Uma boa educação é um fator maravilhoso, inestimável para o progresso humano, enquanto uma má educação é inútil ou até muito nociva. Assim, a questão nunca está no apoio genérico à educação, mas na escolha, preparação e orientação do tipo particular de educação de qualidade.

Este ponto é essencial, porque o mito que a educação, qualquer educação, é sempre boa tem gerado terríveis equívocos. Quanto surge um chavão como esse as pessoas sentem-se dispensadas de pensar, deixando de considerar com muito cuidado aquilo em que consiste realmente a educação a administrar. Basta atirar dinheiro para o setor e, automaticamente, o desenvolvimento floresce. Mede-se o sucesso, não pelos resultados, mas pelos esforços. Temos décadas de erros, montanhas de desperdícios e gerações de vítimas devido a esta ilusão.

Além disso, precisamente por ser alegadamente um setor estratégico e decisivo, todos os interesses organizados se precipitam sobre ele para o controlar, resultando daqui o espetáculo degradante a que assistimos há muito tempo. Isso, logo à partida, viola o princípio mais sagrado da educação, a prioridade dos pais na orientação dos seus filhos. É verdade que os progenitores precisam de ajuda nesse esforço, o que impõe a intervenção de autoridades e especialistas; mas sempre numa posição supletiva, sem usurpar a tutela materna e paterna que a natureza impôs.

Ora basta considerar esta evidência para se revelar imediatamente a caricatura macabra em que tantas vezes se transformou o sistema educativo nacional. O Estado impõe um pensamento próprio, coartando a liberdade de educação das famílias. Isso vê-se com mais evidência nos temas fraturantes de cada geração, mas é verdade também nos tópicos consensuais.

Por outro lado, à sombra do financiamento público, floresce uma classe de profissionais que capturam o setor a seu favor. Rapidamente a finalidade do sistema é servir, não os alunos, mas os professores, que realmente controlam todos os elementos do processo. Não se ensina o que a sociedade precisa, mas aquilo que ocupa mais docentes e interessa aos que controlam os programas. Esta educação dificilmente será um verdadeiro fator de desenvolvimento nacional. Por isso, quanto mais paixões e contratos sociais suscitar, pior.

Felizmente que a verdadeira educação das gerações depende muito menos das escolas do que se diz, e na sua maioria passa ao lado dos modelos pensados pelos responsáveis. O elemento mais decisivo da formação da pessoa acontece em casa, onde as crianças nascem e os jovens crescem. Somos muito mais educados, para o bem e para o mal, por aqueles com quem vivemos do que por aqueles que nos pretendem educar. Por isso, a educação para o desenvolvimento ocorre, sobretudo, nas salas de jantar, jardins, ruas, festas, televisões e redes sociais; finalmente, também na empresa e formação profissional. Os avanços tecnológicos hoje até põem os elementos mais escolares e letivos ao alcance de quem se quiser ilustrar, com o YouTube a substituir ou corrigir muitos professores desadequados.

Entretanto, o mito da educação, impondo uma ideologia sobre um problema real, pode levar muitos alunos a, como Mowgli, ser educados por lobos.

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Sobre o autor

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Licenciado e doutorado em Economia, João César das Neves é professor catedrático e presidente do Conselho Científico da Católica Lisbon School of Business & Economics, instituição onde, ao longo dos anos, já desempenhou vários cargos de gestão académica. Também possuiu... Ler Mais