Opinião

O milagre das máquinas…ou talvez não.

Sandra Silva, diretora-geral da Mary Kay Portugal

Há uns dias ouvi, por acaso, o princípio de uma conversa entre uma pessoa de tecnologia e um fornecedor. E começava assim: “A equipa de liderança quer que as reuniões sejam mais colaborativas, interativas e pediu-me um novo sistema…!”

Este princípio de conversa intrigou-me e levou-me a refletir. O ano passado fiz um curso para executivos na Universidade Nova – Liderar a Transformação Digital. Os participantes de várias indústrias eram essencialmente ligados à tecnologia. Eu era seguramente a mais ignorante em toda aquela temática. O meu objetivo era compreender melhor o léxico que tão de repente tinha entrado no meu dia a dia e entender o potencial da transformação digital para fazer crescer o negócio. Muitas das nossas conversas e discussões sobre digitalização, inteligência artificial, realidade virtual, big data, etc, iam parar a uma derradeira questão: “Mas afinal o que faz de facto a diferença e garante o sucesso? A tecnologia ou as pessoas?”. E uma e outra vez, os presentes, pessoas de tecnologia e, portanto, provavelmente os primeiros a querer louvar e enaltece-la, diziam: “As pessoas!”

Então porque existe tamanho desequilíbrio nos orçamentos de grande parte das empresas? Porque se investe tanto em tecnologia e não o suficiente em explicar, envolver, desenvolver e motivar as pessoas? Envolve-las na cocriação do plano que vai maximizar a nova tecnologia para fazer crescer o negócio e em alguns casos, mesmo mudar o modelo de negócio? E por último, porque insistimos em pedir aos sistemas informáticos, às máquinas, aquilo que só os seres humanos podem dar?

Assistimos a um tempo em que de alguma forma pedimos às máquinas, aos sistemas que sejam milagrosos…

Não me interpretem mal. Eu valorizo a tecnologia e todo o seu potencial. Tenho um telefone móvel de última geração, sou utilizadora de redes sociais e enquanto consumidora e cidadã adoro a comodidade, facilidade e serviço imediato que a transformação digital traz ano nosso dia a dia. É a tecnologia ao serviço da melhoria da qualidade de vida! E, nos negócios o poder da transformação digital é imenso e sem limites! Veja-se o exemplo de modelos de negócio absolutamente inovadores e disruptivos como a Netflix, App store, Amazom…, mas há que saber que até a tecnologia em todo o seu esplendor e potencial tem limites e não é a resposta para tudo!

E não é a resposta para aumentar os níveis de agilidade, colaboração, criatividade nas organizações. O melhor sistema, a melhor tecnologia é impotente perante culturas tóxicas, lideranças autocráticas e burocratas, sistemas de desenvolvimento de pessoas ineficazes ou obsoletos.

Então se queremos aumentar a colaboração, antes de correr a procurar o melhor sistema do mercado, há que começar por nos perguntarmos como está a nossa cultura na organização e as suas lideranças. Não há sistema que ponha as pessoas a colaborar nas reuniões, se no dia a dia, a liderança não escuta ativamente, não valoriza, empodera e promove a autonomia nas pessoas.

Da mesma forma se uma organização não tiver um foco central no serviço ao cliente, não vai haver sistema informático de CRM por melhor que seja que lhe valha. Vai falhar em todo o seu esplendor. Porque a cultura, os processos, o desenho da estrutura organizacional e os comportamentos das pessoas que o tornam possível não estão lá!

Se as pessoas não estiverem preparadas, capacitadas, motivadas e envolvidas de nada vale a tecnologia. O seu poder é nulo e em vez de um investimento com retorno torna-se um gasto e, como sabemos, um gasto que pode chegar aos milhões.

Nada do que disse é rocket science. Diria mesmo é sentido comum.

Então porque continua a acontecer tanto nas empresas?

Na minha opinião, porque a tecnologia tornou-se de certa forma num elemento cool, sexy e moderno das organizações. Todas as empresas querem a tecnologia de última geração. Quase como se fosse uma promessa de que imediatamente entram na primeira liga das organizações de sucesso.

E depois porque é mais fácil comprar uma nova tecnologia na esperança de todos aqueles zeros e uns façam o milagre da mudança dos comportamentos das pessoas que levam ao sucesso, do que fazer um trabalho profundo, constante e muitas vezes quase invisível de desenvolver a liderança, de nos desenvolvermos e desenvolver o talento das nossas equipas. Este sim, o verdadeiro poder transformador das organizações.

O milagre das máquinas? Talvez não… O verdadeiro milagre começa sempre nas e com as pessoas.

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Sandra Silva

Sandra Silva

Sandra Silva é a diretora-geral da Mary Kay Portugal desde 2009, ano em que entrou para a companhia. Desempenhou um papel importante e fundamental tendo sido responsável pelo turnaround da empresa em Portugal. Liderou a importante renovação da estratégia de negócio implementada em todos os departamentos. Também é membro da Plataforma Portugal Agora. Antes de chegar à Mary Kay a experiência profissional de Sandra Silva centrou-se nas áreas das Vendas e Marketing em multinacionais de grande consumo. Começou na Johnson&Johnson,... Ler Mais..

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