Opinião

Não consigo compreender bem esta cultura maluca de feedback constante que se instalou.

Por um lado, e vejo várias pessoas com que me vou cruzando, sobretudo os mais novos, ansiar profundamente pelo feedback. Mas, por outro, vejo-os altamente maldispostos antes do momento do feedback e, infelizmente, a começar com a má disposição uns dias antes do momento anunciado.

Sabe-se que o querem. Sabe-se que o anseiam. Sabe-se que o pedem à viva força. Mas, quando chega, e sobretudo se chega em modo anunciado, com aviso de data e hora, os sentimentos de apreensão são muitos. No fundo, isto é uma moeda de dois lados. Quer-se, por um lado, odeia-se, por outro.

Porque será isto assim?

Porque só com feedback consegues ter retorno do que desenvolves. Verdade. Porque só com feedback poderás perceber se o que fazes está alinhado com o que pretendem de ti e se esse alinhamento te interessa. Verdade. Mas, acima de tudo, porque só com feedback é possível cresceres. Esta última é basilar, central, lapidar. Crescer. Cresces com feedback.

Então porque entras em pânico com o feedback?

Porque, como diriam Jackman e Strober, num artigo da Harvard Business Review com 20 anos e que dá o título a este artigo, há vários sentimentos negativos que podem advir do feedback (direto ou indireto) e os quais, apesar de serem conhecidos, são muito mal geridos por todos. Quais são?

  1. Fúria – porque houve feedback que não te chegou por via direta, pela tua chefia, mas por via de terceiros? Ou porque o feedback não era o que desejavas? Ou porque foi muito anglo-saxónico?
  2. Ansiedade – Porque não sabes o que te vai acontecer? Ou porque afinal e à medida que o dia e hora se aproximam já não tens a certeza de que queres mesmo passar por isto? Ou ainda, e se não te quiserem mais?
  3. Medo da confrontação – Porque vês uma realidade diferente? Porque vais opor-te ao que te dizem? Porque tens cada vez mais medo do que se vai passar?
  4. Receio de represálias – Se responderes o que te vai acontecer? Serás alvo de represálias? Serás posto de lado? Não vais ser aumentado como os demais?
  5. Receio da ferida – Sentiste-te ofendido com o que te foi dito? Sentiste que o feedback foi injusto? Que o feedback deveria ter sido mais bem preparado?
  6. Defesa – Não tens de reconhecer o que te vai ou o que te está a acontecer? Porque te dizem estas coisas agora? Será aceitável o que ouviste?
  7. Tristeza – Sentes que falhaste contigo próprio? Que falhaste com a equipa a que pertencias? Achas que estavas a dar o máximo e afinal o teu máximo não é necessariamente tão máximo assim?
  8. Ambivalência – Será que deves permanecer? Esta empresa merece-te? Ouvir isto é importante para te fazer crescer, mas podes crescer noutro lado de melhor forma?
  9. Resignação – Ok, mas não será necessário para já ires à procura de outra coisa, pois não? Dá-te trabalho andar sempre à procura e o melhor é deixares-te andar. Procrastinar?

Estas e outras questões são cruciais para criar alguma apreensão pelo feedback. Queres muito feedback mas na hora da sua digestão, afinal, era melhor não to terem passado? Sentes-te psicologicamente ameaçado pelo feedback? Estás com medo? Sinal de que reclamas por ele e não sabes lidar com ele?

Doutro ponto de vista e concluindo, o que te falta não é porventura feedback. Até pode ser, mas muitas vezes não é. O que te falta é saberes o que é realmente o feedback. E se realmente consegues construir sobre ele. Deves saber que o feedback nem sempre é bem estruturado e a forma que assume nem sempre é a melhor. Mas também depende de ti. Porque deves saber que o teu contributo para o feedback, as questões que colocas e a construção que fazes é igualmente tua. Afinal, o feedback não é apenas unilateral. É pelo menos bilateral. Mas isso só a experiência to poderá dizer – e a muita formação.

Se fores à origem terminológica e antes de teres medo ou quereres muito e não saberes o que fazer com o feedback quando ele chega então pensa bem: feedback é feed = alimentar e back = de volta. Prepara-te, pois, para teres feedback antes de o teres. Porque é aí, na preparação, que está, muitas vezes, a chave para um melhor feedback. É porque não te preparas que tens medo.

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José Crespo de Carvalho

José Crespo de Carvalho

Licenciado em Engenharia (Instituto Superior Técnico), MBA e PhD em Gestão (ISCTE-IUL), José Crespo de Carvalho tem formação em gestão, complementar, no INSEAD (França), no MIT (USA), na Stanford University (USA), na Cranfield University (UK), na RSM (HOL), na AIF (HOL) e no IE (SP). É professor catedrático do ISCTE-IUL, presidente da Comissão Executiva do ISCTE Executive Education e administrador da NEXPONOR. Foi diretor e administrador da formação de executivos da Nova SBE e professor catedrático da Nova SBE (Operations... Ler Mais..

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