Até ao meu segundo ano do doutoramento custava-me muito perceber porque é que as pessoas sacrificavam tanto pelo trabalho, especialmente quando não escreviam romances ou tentavam curar doenças – as duas únicas profissões em que se está mesmo a ajudar os outros.

No segundo ano do meu doutoramento li um livro de um sociólogo francês chamado Pierre Bourdieu e percebi. O Bourdieu escreveu a melhor explicação do comportamento das pessoas no trabalho que li até hoje: para as pessoas o trabalho é um jogo e é o resultado desse jogo que define o nosso valor como pessoas. As consequências do jogo para o mundo real não importam: para uma pessoa que quer passar a ser o chefe do chefe, o jogo é tão importante como para uma pessoa que está à procura da cura para uma daquelas doenças complicadas. O que importa é a posição da nossa peça no tabuleiro e o que é que é preciso fazer para ganhar.

O Sherlock Holmes é um exemplo da versão mais construtiva de quem cada um de nós pode ser quando joga o seu jogo no trabalho. Nos livros, o Sherlock Holmes às vezes recusava casos de pessoas importantes porque não eram desafiantes. O jogo era demasiado fácil. Outras vezes aceitava casos triviais de pessoas humildes porque o problema era difícil de resolver. Esses casos faziam com que o jogo valesse a pena.

Alguns de nós já tiveram a oportunidade de trabalhar com pessoas que jogam a versão mais destrutiva deste jogo. Estas pessoas concentram-se nos adversários em vez de se focarem no jogo em si. Para estas pessoas, o que é divertido, o que as convence de que têm mesmo valor é a sua capacidade de eliminar adversários do jogo. Para estas pessoas, o jogo só interessa se houver concorrentes para eliminar.

Para as pessoas tipo Sherlock Holmes, ser chefe é uma oportunidade para fazer coisas mais interessantes, como decidir a estratégia da empresa. Para as pessoas que jogam um jogo mais destrutivo no trabalho, ser chefe é uma oportunidade para derrotar os outros e demonstrar a sua superioridade. Estas pessoas mais destrutivas são muito perigosas porque não jogam com as mesmas regras do outros. São como aqueles pilotos na Fórmula 1 que batiam nos adversários para ganhar campeonatos. Estar perto destas pessoas é perigoso e ultrapassá-las pode acabar com a carreira de quem o tenta fazer.

Independentemente se você joga um jogo construtivo ou destrutivo lá na empresa, o mais importante é que não se esqueça que não é mais do que isso. Um jogo.

Toda a pressão que nos impomos a nós mesmos, todo o tempo que passamos longe de quem gostamos porque estamos a trabalhar é só por causa de um jogo. Só de um jogo. Pode ser um jogo suficientemente apaixonante para ser o centro de quem somos. Mas não sei se vale a pena.

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João Vieira da Cunha é escritor. Utiliza uma variedade de meios para partilhar as suas ideias, desde as mais prestigiadas revistas científicas na área da gestão até uma conta rebelde no Twitter. É doutorado em Gestão, pela Sloan School of... Ler Mais