Opinião

O jogo está a mudar?

João César das Neves, economista e professor catedrático

Os líderes temem uma coisa acima de tudo: a transformação do jogo. A luta diária pelo sucesso do projeto é dura e difícil; mas enquanto as regras se mantiverem, os gestores ao menos sabem com o que contam.

É verdade que a conjuntura, o Governo, os mercados estão sempre a pregar partidas cruéis aos dirigentes. Por isso os planos raramente dão certo e só os empreendedores flexíveis e adaptáveis conseguem sobreviver. No entanto, até os imponderáveis fazem parte das regras do jogo, e um gestor vencido continua a respeitar a competição que o destruiu.

Às vezes, porém, as regras parecem mudar e os jogadores de poker veem-se num tabuleiro de xadrez ou num ringue de boxe. Isso é que, acima de tudo, assusta os administradores. Ao longo da história dos últimos séculos alguns momentos pareceram transformar radicalmente o embate. Perante choques como a Revolução Francesa, o telégrafo, as guerras mundiais ou a internet, a generalidade das atividades viu-se, de repente, perante um ambiente totalmente diferente. As formas de pensar e de fazer deixaram de ser válidas e o caminho para o sucesso ficou bloqueado. Quem tinha um royal straight flush sentiu que era preciso aprender a fazer gambitos ou ganchos da esquerda.

Hoje, um pouco por todo o lado, surgem vozes alarmistas a afirmar que o mundo está a mudar ou, mesmo, que já mudou completamente. Aliás chegam a dizer que está mudar como nunca mudou até hoje. Os argumentos são vários, do ressurgimento do militarismo ao aquecimento global e inteligência artificial, mas todos terminam na mesma conclusão: aquilo que sabemos vai passar a ser falso e será preciso aprender tudo de novo.

Ou não, porque alguns dos pensadores mais eminentes, de Stephen Hawking a Geoffrey Hinton, começam a falar na extinção da humanidade, não apenas devido ao velhinho perigo nuclear, mas sobretudo ao surgimento dos robôs, mudança climática ou manipulações genéticas. Nesse caso as regras mudam tanto que os humanos serão desqualificados do campeonato.

Que devem os líderes de hoje pensar acerca disto? Bem, o melhor é simplesmente não pensar. Essas previsões, histórias e ameaças estão a tentar desviar-nos do único jogo que realmente existe: aquele que o dirigente enfrenta todos os dias na sua empresa real. Essa partida, como todos sabemos, é dura e impiedosa, e todos os dias inúmeros empreendimentos soçobram sem voltar a abrir portas na manhã seguinte. Para essas, é como se a humanidade se tivesse extinguido, mas a única coisa que aconteceu foi o desenrolar habitual das cartadas do costume.

Por outro lado, é essencial nunca esquecer que a economia não se assemelha a um campeonato desportivo, mas aos Jogos Olímpicos, onde todas as modalidades se desenrolam simultaneamente. Aquilo que aconteceu nos momentos atrás referidos, em que o jogo alegadamente mudou, foi simplesmente um reajustamento na estrutura das competições. Se alguns desportistas sentiram uma drástica mudança de regras, no panorama como um todo, o padrão pouco se alterou. Isso é também o que se está a verificar atualmente.

Deste modo, a analogia da mudança de regras é sempre exagerada. O que realmente se pode dizer é que a conjuntura, o Governo, os mercados estão sempre a pregar partidas cruéis aos dirigentes. É por isso que os planos raramente dão certo e só os empreendedores flexíveis e adaptáveis conseguem sobreviver. No entanto, até os imponderáveis fazem parte das regras do jogo, e um gestor vencido continua a respeitar a competição que o destruiu.

Quer isto dizer que a subida do militarismo, o aquecimento global, a inteligência artificial e outras ameaças afins não vão mudar o jogo? Exatamente; a competição permanece como era. Esses aspetos serão apenas elementos novos na magna evolução do desenvolvimento a que assistimos há séculos e que, como é há séculos, vai continuar a surpreender-nos. Aquilo que os líderes devem fazer é manter a sua atenção no jogo que existe, que se desenrola debaixo dos seus olhos. Devem atender aos novos imponderáveis que não deixam de surgir, e que nos próximos tempos virão primordialmente desses lados. Essas novidades trazem consigo benefícios e custos, e em alguns casos significarão mesmo o fim de muitos empreendimentos. Mas elas darão também grandes vantagens aos que as souberem aproveitar. Entretanto, pouca atenção devemos às vozes alarmistas que afirmam que o mundo está a mudar ou, até, que já mudou completamente. Essas mesmas vozes mostram que tudo continua como dantes, porque já cá andam há milénios.

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João César das Neves

João César das Neves

Licenciado e doutorado em Economia, João César das Neves é professor catedrático e presidente do Conselho Científico da Católica Lisbon School of Business & Economics, instituição onde, ao longo dos anos, já desempenhou vários cargos de gestão académica. Também possuiu um mestrado em Economia pela Universidade Nova de Lisboa e um mestrado em Investigação Operacional e Engenharia de Sistemas pelo Instituto Superior Técnico. Ao longo do seu percurso profissional também esteve ligado à atividade política. Em 1990 foi assessor do... Ler Mais..

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