Este novo ano de 2021 inicia-se com a entrada em vigor de mais um confinamento geral, marcado por fortes restrições à restauração e ao comércio não essencial, em que o recolhimento domiciliário é um dever, limitando-se as saídas de casa apenas para ir trabalhar (se as funções não puderem ser desempenhadas em regime de teletrabalho).

O crescimento do teletrabalho é, sem dúvida, cada vez mais uma realidade. Mas tal só tem sido possível dado o progresso da Economia Digital, que incorpora a internet, as tecnologias e os dispositivos digitais tanto nos processos de produção e comercialização, como na distribuição de bens e serviços. Perante este cenário, vale a pena pensar no impacto que a Economia Digital poderá ter na promoção do empreendedorismo pelo território nacional, facilitando a tão desejada coesão territorial!

O rápido progresso tecnológico, aliado à democratização da internet, tem permitido uma maior eficiência na conectividade entre as pessoas, as empresas e as organizações, dado que promove a participação de todos nas redes sociais e nas plataformas económicas. A Economia Digital abriu, assim, “espaço” a transformação digital e a mudança da própria estrutura económica. Em resultado, a difusão das Tecnologias da Informação e Telecomunicação (TIC’s) tem conduzido a transformações nos processos de produção, na relação fornecedor – cliente, na infraestrutura e nos próprios serviços (digitais) oferecidos. Por outras palavras: os modelos de negócios e as relações de trabalho estão a ser transformadas e reinventadas nesta Economia Digital, com implicações diretas no empreendedorismo.

São cada vez mais as start-ups que proliferam com novos modelos de negócios, como Software as a Service (SaaS), Marketplace, Consumer, venda de dados, modelo de negócios em Application Programming Interface (API) ou o e-commerce, apenas para citar alguns[1]. Consequentemente, assistimos ao aparecimento de plataformas de intercâmbio comercial on-line, que se pautam por uma maior descentralização e horizontalização, com benefícios claros para todos os stakeholders. Ultrapassam-se barreiras geográficas, chegando a um maior número de pessoas mais rapidamente (por comparação com um negócio mais tradicional), com maior visibilidade nacional e internacional (mediante a aplicação de boas práticas de marketing e publicidade), com condições de trabalho mais flexíveis. Tudo isto é conseguido, em geral, com um investimento inicial menor, que não exige uma estrutura física complexa e com custos de operação reduzidos.

Em síntese, na Economia Digital, esta forma de empreendedorismo – que podemos designar por Empreendedorismo Digital – pode assumir-se como uma ferramenta de desenvolvimento económico, inovação e empregabilidade. Mais, dadas as suas mais-valias em termos de flexibilidade, investimento e principalmente infraestrutura física (que não necessita – o empreendedor e os colaboradores poderão estar “em qualquer parte”), o Empreendedorismo Digital pode constituir uma ferramenta estratégica para o desenvolvimento das regiões de baixa-densidade e do interior do nosso País. Mais do que os recursos endógenos, o turismo ou a floresta, o Empreendedorismo Digital – através de novos modelos de negócio centrados na inovação e no conhecimento – pode promover a diferenciação e a competitividade das regiões, contribuindo para a tão desejada coesão territorial de Portugal.

[1] OECD (2019). Vectors of digital transformation. OECD Digital Economy Papers, No. 273. Paris: OECD Publishing.

*Coordenadora da Escola de Liderança e Inovação do ISCSP – Universidade de Lisboa

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Sobre o autor

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Patrícia Jardim da Palma é doutorada em Psicologia das Organizações e Empreendedorismo e Professora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (ISCSP- ULisboa). É coordenadora das Pós-graduações “Gestão de Recursos Humanos” e “Empreendedorismo e Inovação”... Ler Mais