Portugal é o país que mais prémios arrecadou na 3.ª edição do EIT Health InnoStars Awards 2019, com cinco start-ups distinguidas entre as 15 vencedoras. O Link To Leaders falou com Nuno Viegas, Regional Manager for Portugal do EIT Health Innostars, sobre este programa e os desafios que enfrenta o sistema de saúde europeu.

O EIT Health, organização apoiada pelo Instituto Europeu de Inovação e Tecnologia (European Institute of Innovation and Technology – EIT) e pela União Europeia, está à frente de um dos maiores aceleradores pan-europeus no setor da saúde, que reúne mais de 20 programas diferentes para estudantes, doutorados, PMEs e profissionais de saúde que atuem, sobretudo, nas áreas de medtech, biotecnologia, ciências da vida e e-health.

Através do programa Innostars Awards, o EIT Health dá, por exemplo, apoio a start-ups (ou empresas recém-criadas) através de bootcamps de formação, mentoria e financiamento. Na última edição foram cinco as portuguesas que receberam distinção. São elas a B-CULTURE, a BRIGHT, a HydrUStent, a SurgeonMate e a TimeUp.

O objetivo do EIT Health é contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos europeus e para a promoção da sustentabilidade dos sistemas de saúde, num contexto de alterações demográficas marcadas pelo envelhecimento da sociedade.

Quantas start-ups já apoiaram em Portugal e na Europa?
O EIT Health já apoiou mais de 400 start-ups em toda a Europa e mais de 20 em Portugal.

Pode dar-nos exemplos de start-ups que tenham apoiado em Portugal? E de projetos que promovam um sistema de saúde mais eficiente?
Em Portugal apoiamos start-ups como a Heartgenetics, Nu-Rise, BestHealth4U, Hydrustent, NeuroPsyAI, CMPI, Clynx, IHCare e muitas outras a continuarem a desenvolver os seus produtos e serviços, de forma a poderem obter investimento adicional que lhes permita ter sucesso. A Hydrustent está a desenvolver um cateter biodegradável que reduz o tempo de hospitalização de pacientes e custos de hospitalização.

A NeuroPsyAi desenvolveu o NeuroPsyCAD, um serviço baseado na “Cloud” que usa exames cerebrais comuns e algoritmos de inteligência artificial de ponta para ajudar médicos a diagnosticar a doença de Alzheimer e a doença de Parkinson. Essas informações permitem que os médicos realizem diagnósticos com mais confiança, direcionem o tratamento certo para os pacientes certos, iniciem o tratamento mais cedo e, consequentemente, atrasem a progressão de doenças. Todas as start-ups que colaboram com o EIT Health desenvolvem soluções na área da saúde que contribuirão para aumentar a eficiência do sistema de saúde.

“Foi recentemente assinado um memorando de entendimento entre o EIT Health e o Banco Europeu de Investimento para a criação de um fundo de investimento para séries B que possa apoiar o crescimento de empresas na Europa”

De que forma a EIT Health ajuda os empreendedores a criarem novos negócios, empresas e a gerarem empregos?
O EIT Health tem vários programas de educação na área do empreendedorismo para estudantes, investigadores, profissionais de saúde e executivos, e que fornecem as ferramentas necessárias para que estas pessoas e equipas possam dar início à criação de novos negócios. Estes programas estão adaptados às diferentes fases do ciclo de vida de uma start-up e cobrem diferentes valências. Alguns exemplos passo a citar.

Em conjunto com a Caixa Capital Risc organizamos o programa Caixa Impulse que pretende apoiar a validação de projetos científicos nas áreas da saúde e das ciências da vida dentro de universidades e centros de investigação, e que tem como objetivo final promover a criação de novas empresas a partir destes projetos. Através do programa Innostars Awards damos apoio a start-ups (ou empresas recém-criadas) através de bootcamps de formação, mentoria e financiamento. Para empresas que estejam à procura de financiamento para a fase de validação de conceito criámos o programa HeadStart.

Para empresas à procura de investimento de série A temos o European Health Catapult e a rede trans-europeia de investidores Investor Network. Para empresas à procura de mentoria criamos uma rede de mentores chamada Mentoring & Coaching Network, onde as start-ups podem encontrar especialistas internacionais nas mais diversas áreas, desde marketing a propriedade inteletual . Para finalizar, foi recentemente assinado um memorando de entendimento entre o EIT Health e o Banco Europeu de Investimento (FEI) que tem como objetivo a criação de um fundo de investimento para séries B que possa apoiar o crescimento de empresas na Europa.

Em Portugal, estas oportunidades traduzem-se, na prática, em dar apoios financeiros que permitam às start-ups nacionais continuarem a desenvolver os seus produtos e serviços e a dar acesso a mentores experientes e a investidores Europeus que os poderão ajudar a validar e comercializar as suas tecnologias.

“O Innostars Awards tem tido um grande impacto em regiões Europeias de inovação moderada como Portugal, tanto ao nível da educação como ao nível do financiamento de start-ups e empresas recentemente criadas no sector da saúde”.

Que balanço faz do InnoStars Awards de apoio a start-ups? E como carateriza os projetos vencedores na última edição?
O Innostars Awards tem tido um grande impacto em regiões europeias de inovação moderada como Portugal, tanto ao nível da educação como ao nível do financiamento de start-ups e empresas recentemente criadas no setor da saúde. Em 2018, o vencedor do InnoStars Awards foi uma empresa lituana chamada Oxipit e que ganhou 25 mil euros, que lhes permitiu fazer a validação do produto. A Oxipit trabalha na área da inteligência artificial aplicada à análise de imagens médicas e desenvolveram um conjunto de ferramentas para radiografias de tórax, que é a modalidade de imagem médica mais utilizada.

A Oxipit destaca-se da concorrência ao cobrir praticamente todas as patologias e gerando relatórios como se fossem escritos por um radiologista. Em julho de 2019 a Oxipit levantou uma seed round de 1,7 milhões de dólares [1,5 milhões de euros], contribuindo para o sucesso do nosso programa.

Quais as oportunidades e desafios que se colocam hoje em dia à inovação tecnológica na área da saúde?
Os desafios que se colocam atualmente à inovação tecnológica estão relacionados com uma população cada vez mais envelhecida, a globalização do mercado da saúde, os avanços clínicos e tecnológicos e o aumento dos salários dos profissionais de saúde. A tecnologia vai facilitar esta transição, especialmente a telemedicina, os sensores eletrónicos, o estudo de dados biométricos adquiridos e tecnologia que possa ser usada no dia a dia e que possa contribuir para a gestão da saúde dos consumidores.

Os empreendedores portugueses têm potencial para ajudar a revolucionar este setor da saúde? Em alguma área em particular?
Sim, claro. Vários empreendedores portugueses estão já a trabalhar em produtos que têm como objetivo solucionar uma necessidade urgente na área da saúde e que contribuirá para melhorar o bem estar de pacientes e contribuir para a redução nos custos da saúde. Devido aos custos inferiores necessários para o desenvolvimento de soluções digitais, é possível que no futuro em Portugal sejam cada vez mais criados produtos na área digital.

“Num futuro breve, a inteligência artificial será um componente integrado dos cuidados de saúde”.

Qual será o papel da inteligência artificial no futuro da prestação de cuidados de saúde?
A inteligência artificial tem o potencial de revolucionar diagnósticos, o planeamento de tratamentos, a monitorização de pacientes e até mesmo a descoberta de novas soluções e medicamentos para o tratamento de pacientes. Num futuro breve, a inteligência artificial será um componente integrado dos cuidados de saúde. Além disso, a “internet-of-medical-things” (IoMT), “Software-as-a-medical-device” (SaMD), blockchain, telemedicina e novas alternativas de mobilidade irão também contribuir para uma revolução nos cuidados de saúde.

De que forma está a EIT Health a aproveitar e a explorar as oportunidades da Telemedicina?
No dia 24 de setembro, em Aachen (Alemanha), o EIT Health organizou uma reunião sobre telemedicina onde vários parceiros participaram com a exposição da sua visão e iniciaram colaborações para a criação de consórcios entre várias instituições Europeias, por forma a criar projetos de inovação nesta área. Os representantes portugueses em Aachen foram a Glintt e o Instituto Pedro Nunes. Além disso, na semana anterior em Portugal, o EIT Health organizou um Think Tank em telemedicina e inovação em saúde digital em nas instalações da Glintt.

“O relatório recente da consultora Deloitte (2019 Global Health Care Outlook) revelou que 64% dos consumidores afirma ter bastante interesse em soluções de telemedicina que lhes permitam gerir mais facilmente a sua saúde de forma remota”.

Como devem as entidades explorar o potencial da telemedicina como uma ferramenta integradora de cuidados de saúde?
O relatório recente da consultora Deloitte (2019 Global Health Care Outlook) revelou que 64% dos consumidores afirma ter bastante interesse em soluções de telemedicina que lhes permitam gerir mais facilmente a sua saúde de forma remota. Simultaneamente, a maioria dos médicos vê também um valor adicional na telemedicina uma vez que pensam conseguir melhorar a qualidade do serviço prestado, conseguir uma maior satisfação do cliente e poderão monitorizar por mais tempo o paciente, pois haverá uma maior ligação entre os pacientes e os seus prestadores de cuidados.

Todos os anos, as regiões do InnoStars exibem os seus ativos e organizam reuniões e debates europeus com os designados “players inovadores” da área da saúde. Este ano Portugal acolheu uma dessas reuniões. Quais foram as grandes conclusões deste encontro?
As grandes conclusões deste encontro é de que necessitamos de nos focar no desenvolvimento de inovação que procure resolver um problema na área da saúde ou para o qual os mercados não tenham uma solução imediata. Para isso, é necessário envolver os consumidores, pacientes e hospitais desde cedo no processo de criação de novas soluções e procurar ouvir as suas opiniões e necessidades. Além disso, é necessário trabalhar em conjunto com governos e autoridades reguladoras de forma a facilitarmos o processo de inovação e criação de novos produtos na área da saúde.

Hoje em dia, quais são os maiores desafios que o sistema de saúde europeu enfrenta?
O sistema europeu terá de se adaptar às novas tecnologias e implementar novas regras de pagamento de serviços como a telemedicina. Terá também de facilitar o processo de licenciamento de novas tecnologias na área da saúde e lidar com os elevados custos iniciais relacionados com a implementação de nova tecnologia. Além disso, inicialmente poderão existir problemas com a confiança nos dados adquiridos e também com a sua privacidade e segurança.

Como imagina o sistema de saúde europeu no futuro?
No futuro imagino organizações como hospitais a focarem-se mais nas tecnologias digitais e na análise de dados recolhidos dos pacientes. Imagino também que existam mais colaborações entre hospitais, universidades e indústria no processo de criação de inovação na área da saúde. Tal é já uma prática corrente no EIT Health e uma tendência que parece vir a aumentar progressivamente. Em Portugal, a Universidade de Coimbra e o Instituto Pedro Nunes organizam um programa de “innovation by design”, atarvés do qual a indústria apresenta necessidades a alunos e estes desenvolvem, durante o programa, soluções adequadas a essa necessidade.

Além disso, vejo um aumento de utilização de nova tecnologia como a inteligência artificial e robótica, que não irão substituir trabalhadores, mas mudar o seu foco para tarefas de maior responsabilidade. Para finalizar, haverá uma tendência de progredir em direção a um tratamento personalizado e novos avanços na área de terapia genética (células CAR-T, etc) e outras terapias de próxima geração (anticorpos monoclonais, transferência adaptativa de células, vacinas contra o cancro) contribuirão para revolucionar a medicina.

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