Conhecido durante muitos anos como o “celeiro” do país, a realidade com que se depara o “meu” Alentejo atualmente é, no mínimo, desoladora.

Há algumas semanas, por ocasião da inauguração de um novo complexo hoteleiro, uma socialite comentava que o Alentejo está cada vez mais na moda, especialmente agora que atraía pessoas de outra “estirpe” social, referindo-se, claro está, a si mesma, entre outras figuras caricatas de um jet-set cada vez mais caído em desgraça e chacota nacional, dependente de fugazes aparições públicas que relembrem um estilo de vida que já lhes granjeou outro tipo de alvíssaras no passado.

Não é, porém, esse o tema – e que longo seria – que julgo ser importante ter como foco deste texto, mas sim aquilo que o mesmo encerra na sua génese, o esquecimento global da realidade da maior região do país, nomeadamente no que diz respeito aos investidores e empresários que, cada vez menos, olham para uma região de oportunidades ímpares com desconfiança e pouco interesse real.

Quando hoje pensamos no Alentejo a ideia mais generalizada é comum à maioria dos portugueses: boa comida, bom vinho e sol. Trocando isto por termos mais empresariais, é evidente que as apostas principais no território têm sido focadas na produção vinícola, na proliferação da restauração de qualidade e, cada vez mais, a nível do turismo regional, tudo áreas onde o crescimento tem sido deveras assinalável.

Há porém outras áreas onde timidamente vamos encontrando alguns investimentos, uns mais reconhecidos que outros, como sejam as energias renováveis (aproveitando o sol e condições da terra), algumas infraestruturas (aeroporto de Beja, ligações ferroviárias, fábricas aeronáuticas), mas, salvo melhor opinião, sem que tal me pareça ter por detrás uma verdadeira estratégia definida quanto ao que deve ser o crescimento empresarial nos vários distritos. Dito isto por outras palavras, venha o que vier é bem-vindo, mas não há uma estratégia de atração de investimento que permita a criação de ‘hubs’ consistentes em determinados setores de atividade, sendo tudo muito esporádico e dependente da visão – ou falta dela – de alguns investidores pontuais.

Saber crescer é saber antes de mais reconhecer as dificuldades e limitações que são inerentes a uma determinada situação ou zona. No caso é preciso admitir que as acessibilidades não são as ideais, que o clima não ajuda a todo o tipo de desenvolvimento, que a falta de incentivos estratégicos e fiscais não atrai maiores investimentos, entre outras questões. Mas crescer é também reconhecer as forças que existem, os bons solos, a enorme disparidade de oferta turística (que cresce a números muito assinaláveis a nível nacional), a proximidade com outras regiões (Estremadura, Algarve, Espanha), de modo a capitalizar e promover cada vez mais as fórmulas que têm tido até ver sucesso.

A título pessoal julgo que os filões esquecidos no Alentejo são efetivamente as tecnologias, que não carecem de condições geográficas específicas para vingar, e o turismo/alojamento residencial, áreas onde há espaço, vontade, interesse e potencial para ganhar mercado nacional e internacional.
Mas isso é a minha opinião, vale o que vale. Pena tenho que tantos investidores continuem a olhar para os grandes centros urbanos e se esqueçam do “interior”, mesmo quando esse interior, o nosso Alentejo, liga este país desde o mar até aos nossos vizinhos de Espanha.

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Nuno Madeira Rodrigues é atualmente Chairman da Lusitano SAD e da BDJ S.A. Anteriormente, foi Administrador do Grupo HBD e Presidente do Conselho de Administração da Lusitano, SAD, e do Conselho Fiscal da Associação Lusófona para as Energias Renováveis. É... Ler Mais