Li há pouco tempo a última edição do estudo da Deloitte “Women in the boardroom” e a emoção que me transmite é agridoce: a esperança ao ver uma evolução, mas o desalento pelo crescimento lento e que deixa escapar tantas oportunidades às empresas e às suas equipas.

“A nível mundial, as mulheres ocupam 19,7% dos cargos de administração, um aumento de 2,8 pontos percentuais desde 2018. Se assumirmos este aumento a cada dois anos, poderíamos alcançar a paridade em 2045, 7 anos antes do que o concluído no relatório anterior”.

“As mulheres lideram apenas 6,7% dos conselhos de administração, com ainda menos a ocupar o cargo de CEO, 5%”.

Sabemos que qualquer mudança, principalmente a este nível, leva o seu tempo. É mudança de costumes, de mentalidades, de formas de trabalhar. Para que a diversidade ocorra, e já amplamente falado nos dias que correm, sabemos que as empresas devem adotar uma cultura e valores que se baseie na aceitação da diferença, da diferença na gestão, na criação de uma cultura experimental, empática, humana e aberta.

Estas são as bases que devem existir num grupo, mas hoje não quero debater tudo aquilo que deve existir nas nossas empresas para que existam mais mulheres em cargos de administração ou de direção. Hoje, quero relembrar cada um e em particular cada uma, que o nosso destino começa em nós e que existe algo que também tem de ser trabalhado para que estes números mudem: a mentalidade da mulher que se encontra num percurso profissional a caminho de um cargo de administração/direção.

O facto é: independentemente de ter ou não sido educada em igualdade de oportunidades, em algum momento da sua vida a maioria das mulheres terá questionado as suas capacidades e ter-se-á achado inferior ou incapaz, comparando-se com um par. Muito se ouve falar da Síndrome do Impostor, um mecanismo psicológico caracterizado pela dificuldade em aceitar as suas conquistas e julgar-se inadequado aos desafios, mas esta síndrome por si só não justifica esta mentalidade presente no universo feminino. O facto é que o contexto em que crescemos, a educação, os exemplos que tivemos em casa, o desequilíbrio que existiu entre homens e mulheres há não muito tempo atrás, são ainda fatores impactantes. Há quantas gerações, a maioridade das mulheres frequentaram a escola até ao fim, conseguiram conciliar trabalho e vida familiar e foram motivadas para conseguirem fazer o que tanto sonharam?

Como referi, estas mudanças começam em nós também e existem três passos que considero essenciais para trabalharmos esta mentalidade:

  • Consciência e aceitação: é absolutamente essencial ter consciência que nos sentimos assim, que nos comparamos, que temos medo da exposição e que exigimos muito mais de nós. Ter consciência ajuda a identificar e racionalizar os nossos próprios pensamentos e emoções.
  • Arriscar: sair da zona de conforto leva-nos a outros voos e a um desenvolvimento pessoal. Às vezes é preciso provar a nós próprios que somos capazes. E se não formos, aprendem-se lições. Dar um passo no sentido da tomada de risco ponderada é essencial para quebrarmos um ciclo. Um de cada vez.
  • Mentoria: por experiência própria, considero que um processo de mentoria é muito eficaz na diminuição deste sentimento que mina a confiança. A mentoria ajuda-nos a criar objetivos, a repensar o que queremos, a clarificar o caminho e a dar estrutura às nossas decisões – passo essencial para a criação da confiança base que precisamos.

Em 2022, e para surpresa de muitos, é ainda necessário continuar este movimento para trazer às empresas a abertura e o espaço para o crescimento de todos. Mas cada uma de nós, e sim, falo particularmente para as mulheres que se encontram nesta situação, não podemos culpar o contexto externo, dar um nome ao que sentimos e deixar o rumo nas mãos dos outros. Este processo é de todos, mas começa em nós. É a diferença entre ser a origem ou só uma consequência de fatores extrínsecos. Empenhemos o mesmo esforço e energia que diariamente dedicamos às nossas empresas e equipas à mudança da nossa própria mentalidade.


Susana Salgado é atualmente COO na Consultora de Inovação Colaborativa Beta-i. O seu currículo conta com a fundação de uma agência digital e sociedade numa empresa de serviços de consultoria em IT. Passou também por diversas áreas que a dotaram de competências transversais essenciais para o papel de gestão de negócios que hoje desempenha. É licenciada em Psicologia pelo ISPA, Pós-graduada em Gestão de Recursos Humanos, Pós-graduada em Marketing e graduada no Programa Avançado de Gestão para Executivos da Católica Lisbon School of Business & Economics.

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