Portugal tem uma longa e frutífera relação histórica, social e económica com o mar. A cultura marítima portuguesa atravessou séculos de História, forjando um contexto socioeconómico que se mantém válido na atualidade. É no mar que o nosso país encontra ainda hoje alguns dos seus mais importantes recursos naturais, a partir dos quais se desenvolvem atividades de grande peso económico e social.

Não me refiro apenas às atividades mais tradicionais, como a pesca, a construção e reparação naval, a indústria conserveira, o turismo, os transportes marítimos ou a gestão portuária. Mas também a atividades mais recentes e que têm vindo a emergir com grande dinamismo, como a aquacultura, a biotecnologia marítima, a produção de algas, as energias renováveis ou os sistemas de comunicação marinhos, por exemplo.

Por tudo isto, o mar é reiteradamente identificado como um dos grandes desígnios nacionais. Nas últimas décadas multiplicaram-se os estudos, estratégias e agendas que procuravam valorizar o mar enquanto fator crítico de desenvolvimento. Ainda assim, o potencial daquela que é a 3.ª maior zona económica exclusiva da UE e a 11.ª do mundo parece não ter ainda cabal tradução em valor, emprego, inovação e sustentabilidade.

É verdade que a economia do mar tem vindo a crescer sustentadamente, estando próxima de atingir os 5% do PIB. A zona costeira continua a ser um dos grandes atrativos turísticos do país, o setor portuário desenvolveu-se extraordinariamente, houve uma significativa expansão da aquacultura, há capacidade empresarial para a transformação e valorização do pescado, as energias renováveis oceânicas estão a captar investimento, os estaleiros nacionais são competitivos internacionalmente… Mas a sensação que temos é que, apesar das proclamações políticas e estudos técnicos, as potencialidades do mar português encontram-se ainda subaproveitadas e há muitos desafios a vencer pelo cluster marítimo.

Desde logo, o desafio do conhecimento. Os setores emergentes da economia do mar são particularmente intensivos em competências, I&D, inovação e tecnologia. Portugal dispõe hoje de massa crítica nas ciências do mar, nomeadamente em áreas com grande potencial económico, e nas engenharias naval, energética e ambiental, incluindo nichos de grande sofisticação como a energia eólica offshore, a robótica submarina ou os veículos marinhos não tripulados. Mas, como em muitos outros setores, falta melhorar a interface entre academia e empresas, de modo a que o conhecimento produzido na comunidade científica tenha aplicação na economia do mar.

Outro grande desafio é a sustentabilidade. A economia do mar tem de ser sustentável, o que implica a redução ou mesmo eliminação do impacto das suas atividades no ambiente. Os projetos empresariais devem ser pensados em função do equilíbrio do ecossistema, da preservação da biodiversidade, da descarbonização energética e da valorização dos recursos marinhos. Até porque os investidores não aplicam o seu capital em projetos que não cumpram critérios ambientais e o mercado penaliza as empresas que não garantam a sustentabilidade das suas operações.

Os setores emergentes da economia do mar têm ainda um peso económico marginal, mas encerram um grande potencial de crescimento. Importa, por isso, criar em Portugal um ambiente mais favorável a uma mudança de paradigma na economia do mar, o que pode passar por mais apoios à inovação tecnológica, pela atração de IDE, pela abertura de novas concessões para exploração energética e pela criação de ecossistemas empreendedores especializados no setor, por exemplo.

*Associação Nacional de Jovens Empresários

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Alexandre Meireles, 38 anos, foi eleito (no final de fevereiro 2020) presidente da Direção Nacional da ANJE- Associação Nacional de Jovens Empresários, para o triénio 2020-22. Natural de Amarante, é licenciado em Engenharia Eletrotécnica, no ISEP, e tem o Curso... Ler Mais