“Liderança de nível 5” foi a expressão usada por Jim Collins para designar líderes que revelam, entre outras qualidades, duas aparentemente contraditórias: humildade e “garra” (ou “fibra”).

Neste estudo, procurámos* testar empiricamente essa possibilidade. A humildade envolve três dimensões: (1) consciência das forças e fraquezas próprias; (2) capacidade de reconhecer as forças e qualidades dos outros; (3) disponibilidade para aprender, sobretudo com os erros. “Garra” ou “fibra” são termos leigos para designar uma qualidade que, em língua inglesa, se denomina grit. Representa a combinação de duas componentes: o foco em objetivos de longo prazo e a determinação/perseverança na sua prossecução.

A nossa questão de pesquisa foi a seguinte: serão os líderes com “fibra” e humildes mais capazes de desenvolverem o capital psicológico (PsyCap, de psychological capital) dos liderados?

O PsyCap envolve quatro componentes: autoconfiança, determinação, resiliência e otimismo. Os estudos têm mostrado que as pessoas com mais PsyCap experimentam maior bem-estar, são mais eficazes no trabalho e são mais bem-sucedidas.

Serão os líderes dotados de “garra” e humildade mais capazes de desenvolver o PsyCap dos liderados? Será a “garra” dos líderes mais ou menos importante do que a humildade? Bastará ser um líder com muita “garra” para se fomentar o PsyCap dos liderados?

Convidámos as pessoas a imaginarem-se perante um determinado líder: (1) algumas foram convidadas a imaginarem-se lideradas por um líder com pouca “garra” e pouca humildade; (2) outras foram convidadas a imaginarem-se lideradas por um líder com pouca “garra” e muita humildade; (3) um terceiro grupo de pessoas foi convidado a imaginar-se perante um líder com muita “garra” e pouca humildade; (4) e, finalmente, outras pessoas foram convidadas a imaginarem-se lideradas por um líder com muita “garra” e muita humildade. Participaram no estudo 223 pessoas, distribuídas de modo equilibrado pelos quatro cenários. O principal resultado está refletido no gráfico abaixo e pode ser assim sintetizado:

  • Os participantes consideram-se dotados de maior PsyCap quando se imaginam liderados por líderes que denotam simultaneamente muita “garra” e muita humildade.
  • O PsyCap dos liderados cujos líderes são dotados de muita “garra” mas pouco humildes quase não se diferencia do PsyCap dos liderados colocados perante líderes com pouca “garra” e pouco humildes.

Em suma, os resultados sugerem que a “garra” dos líderes, por si só, é pouco relevante para a promoção do PsyCap dos liderados. O que mais releva é a humildade e, sobretudo, a conjugação de muita “garra” e muita humildade.

Poder-se-ia argumentar que os resultados não são fiáveis, porque são obtidos com cenários hipotéticos. Todavia, uma pesquisa recente por nós realizada com mais de cem líderes reais apontou precisamente no mesmo sentido: a “garra” dos líderes é importante para o desenvolvimento do PsyCap dos liderados, quando é acompanhada de humildade. Uma explicação possível é a seguinte:

  • Os líderes com muita “garra” mas pouco humildes, sendo perseverantes e muito focados, não reconhecem o esforço e as qualidades dos liderados, não aprendem com os erros e podem mesmo ser agressivos e bullies.
  • Diferentemente, os líderes com muita “garra” e muito humildes são determinados na prossecução de metas que envolvem os liderados, os liderados sentem que são valorizados e apoiados e os próprios líderes são capazes de reconhecer as suas próprias fraquezas e aprender com os erros.

Por conseguinte, confirma-se a noção de que os melhores líderes (aqui entendidos como os capazes de fortalecer os seus liderados e as suas equipas) são “humbiciosos” – humildes e ambiciosos!

*Arménio Rego, Católica Porto Business School
*Andreia Vitória, Universidade de Aveiro
*Ana Ventura, Universidade de Aveiro

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