Há um fenómeno transversal à sociedade e mercado de trabalho hoje e que pode ser perturbador. Continuam a gerir-se pessoas. Continua a falar-se e a praticar-se gestão de recursos humanos. Esqueçam. Primeiro são pessoas. Depois, ou se lideram ou não. As pessoas não querem ser geridas. Querem ser lideradas.

O que é gerir pessoas? Definirem-te horários, descreverem-te funções, compartirem trabalhos entre ti e outros, indicarem-te o que deves ou não fazer, sobretudo como deves fazer e o que vais fazer. Vamos esquecer esta lengalenga. Dir-me-ás que isso é organização. Concordo, parcialmente. Parcialmente, sublinho. Porque te digo que hoje importa mais o ethos da banda de jazz que conseguires constituir. Tocas clarinete? É bom que o toques bem e saibas quando tocar. Outro tocará bateria? É bom que a toque bem e saiba quando o deve fazer. E é isso que precisas de saber. Para que o som saia melódico. Alguém te ajudará a tocar clarinete, e o momento, e esse mesmo alguém ajudará outro a tocar bateria, e o momento. É isto. É simples. E chega. Isso é liderar.

As pessoas querem perceber com quem se identificam, quem são os role models na empresa, quem os deixa tocar clarinete, quais as atividades e características que devem potenciar para serem melhores, como atingem resultados de forma mais eficiente, como o que vão aprender hoje lhes pode ou não servir no futuro e em que medida isso potencia as suas competências. No limite, o que gostam ou não na pessoa que os lidera e não na pessoa que os pretende gerir. Acabou a convencional gestão de recursos humanos. Começou há uns tempos a liderança – sublinho – e está a expandir-se de forma rápida.

É por isso que as pessoas são difíceis de reter, de estimular. Porque não encontram consistência nos gestores, não encontram comportamentos humanos e próximos, não percebem os seus gestores como líderes, e porque, no limite, não pretendem ser geridos mas antes liderados. Deixa o clarinete para quem sabe tocar clarinete. E descobre em cada uma das tuas pessoas os instrumentos da tua orquestra: a bateria, o trompete, o contrabaixo, o piano.

Talvez haja muito quem não reconheça, ou não queira reconhecer, que receitas antigas não funcionam nos dias de hoje.

Como se responsabiliza alguém? Se me responsabilizar também pela minha quota-parte.

Como se conseguem resultados? Com confiança, com apoio, com abertura e transparência, com rigor nos exemplos. Com resultados que tu terás também de conseguir. Deixa tocar o teu clarinete quando for altura de ele tocar. Deixa-o tocar.

Como se conseguem liderar pessoas? Sendo aquilo que se é de melhor (frase horrível e estafada) mas estimulando nos liderados o que têm de melhor em si. Muda, arrisca, constrói, foca-te, não esqueças a direção. Mas esquece títulos e cargos. Humildade acima de tudo. E pede para que cada um toque o seu instrumento.

Pessoalmente, estou farto de dizeres bonitos de “como podes ser feliz no trabalho”, “como te vais superar hoje e amanhã”, “despeço-me porque a causa principal é o líder”. Blá-blá-blá. E todo o bullshit que por aí anda. O que adianta isto? Nada.  Já todos tomamos isto como frases que aparecem ad nauseam mas que adiantam zero. Resolvem? Não. Pratica antes o teu eu, pratica o teu melhor eu. Pede ao teu clarinete que o toque como se não houvesse amanhã. E talvez tenhas surpresas. O resto, as frases bonitas e engalanadas podes guardá-las com os títulos e com os cargos. Serve. Sê humilde. Desculpa. Pede ajuda se não fores capaz. Dá liberdade para fazer. Para agir. E depois dá feedback dos resultados. Dá feedback do jazz.

Contas feitas é a tua prática que conta. És tu enquanto pessoa. É o que fazes e deixas de fazer. É o que dizes e deixas de dizer. É a forma como tratas os outros. É a forma como comunicas. É a proximidade aos outros. É o ouvires esses outros. É investires tempo nessas pessoas que conta e faz diferenças. Deixa-as tocar o seu clarinete. Porque gostam de ti quando lhes pedires o melhor do clarinete. Quando não fores convencional, padronizado. Quando fores tu. E se por acaso tu conseguires passar essa aura tua, genuína, e se estiveres interessado em teres tempo e investires esse tempo nos outros, pois poderás liderar.

Gerir é uni-direccional. Liderar é bi-direccional. É lá, no terreno com os demais. Ouvindo o que não gostas e aceitando que deverás corrigir, abrindo a porta aos outros e conhecendo-te muito bem para que possas ser um dos demais mas que, no final do dia, saibas que vais acabar sozinho, cansado, a reunir os problemas de todos e a recompores a tua banda de jazz. Sim, porque liderar é “tocar” jazz. Cada um à sua maneira, mas cada um a dar o melhor. Pode ser mau jazz. Mas pode ser bom jazz. E quando há bom jazz, regozija-te. Estás a conseguir liderar. Tens alguém com um bom clarinete. Tens alguém com uma boa bateria. Tens alguém com um bom baixo. É isto. E chega.

Sem frases feitas, sem a importância que julgas ter, sem os pergaminhos que achas que recolheste ao longo do caminho penoso que podes ou não ter feito.

Tudo o resto, é desadequado para os dias que correm. Endireita-te e anda. Sem medo, embora saibas que isto tudo impõe respeito. E medo. Muito medo. Porquê? Porque irás falhar milhares de vezes. Mas também te reerguerás outro milhar, ora bolas. Deixa tocar o clarinete.

 

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Licenciado em Engenharia (Instituto Superior Técnico), MBA e PhD em Gestão (ISCTE-IUL), José Crespo de Carvalho tem formação em gestão, complementar, no INSEAD (França), no MIT (USA), na Stanford University (USA), na Cranfield University (UK), na RSM (HOL), na AIF... Ler Mais