Nas últimas décadas a Europa lançou duas soluções de transporte aéreo, consideradas tecnologia de ponta: o Concorde – o único avião supersónico de passageiros de mundo que efetivamente voou numa base regular – e o Airbus380 – o maior avião de transporte de passageiros do mundo de todos os tempos.

Em ambos os casos as soluções tecnológicas encontradas eram incontestáveis e situaram-se na vanguarda do que mais avançado o mundo tinha realizado até então. Coincidentemente em ambos os casos as soluções acabaram por ser abandonadas por se terem revelado completamente desajustadas das necessidades de mercado e dos níveis de eficiência requeridos para o negócio.

São dois interessantes exemplos de que não basta ter soluções tecnologicamente avançadas, nem gastar muito dinheiro em investigação e desenvolvimento para, automaticamente um país ou uma empresa se encontrarem na liderança económica. A Europa é das economias com um maior número de patentes registadas mas é, em comparação com os EUA e o Japão, dos blocos económicos com menor sucesso comercial no seu aproveitamento.

O que isso quer dizer é que o fator determinante na obtenção do sucesso empresarial está na existência de ambientes em que a competitividade é estimulada, em que a concorrência de mercado existe sem constrangimentos e natureza burocrática, protecionista ou de outra natureza equivalente.

A Europa continua a ter mercados de capitais fragmentados e níveis de mobilidade de mão de obra e de recursos, em geral, que estão longe de gerarem um mercado único capaz de criar uma massa crítica indispensável ao financiamento de operações de capital de risco e subsequente colocação em mercado assegurando mecanismos de saída dos investimentos com expetativas de retorno adequadas para os investidores.

Por outro lado, o nível de intervencionismo e de regulação burocrática ainda fortemente prevalecentes na Europa, geram barreiras negativas aos mecanismos de filtragem das inovações tecnológicas que têm ou não viabilidade económica.

Obviamente que a vantagem tecnológica é, em si, importantíssima, mas a mesma só é sustentável se for transformada em fator gerador de valor acrescentado. É por isso que não existem setores privilegiados quando se trata de inovação e modernização de processos empresariais. A tecnologia e a inovação tecnológica são meios que permitem executar novos conceitos e novas ideias de negócios. Por exemplo, o negócio de distribuição alimentar nos EUA – por natureza, aparentemente não suscetível de grandes transformações inovadoras –  sofreu das maiores revoluções graças à evolução tecnológica que permitiu a adoção de soluções “cross docking” e gestão logística próximo de soluções just in time.

A revolução que se aproxima com a implementação da tecnologia 5G é mais um caso em que, havendo uma tecnologia nova, revolucionária e disruptiva – na velocidade e na capacidade de transmissão de dados – haverá, como sempre, ganhadores e perdedoras na sua adoção. E aí, quanto mais aberta for a economia, quanto mais as regras de mercado prevalecerem, maior a capacidade de sucesso na adoção de novas tecnologias.

E é por isso que “it’s not the technology…” que assegura, por si, o sucesso dos negócios, mas a inovação tecnológica é uma enorme catapulta para a inovação empresarial.

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Franquelim Alves é Diretor-Geral da 3anglecapital, sociedade especializada em operações de M&A e serviços de “advisory” financeiro. Licenciado em economia, pelo ISEG, detém um MBA em Finanças pela Universidade Católica Portuguesa e o Advanced Management Program da Wharton School of... Ler Mais