Nos meus artigos anteriores relatei o incrível boom de investimento em capital de risco realizado no ano passado no Brasil. Este ano, o cenário é bem diferente, o primeiro trimestre registou uma queda de 19% comparado com igual trimestre do ano passado.

Apesar desta desaceleração, o financiamento de US$144 bilhões (de acordo com o relatório da CB Insights), foi o quarto maior já registado. Segundo o estudo da Sling Hub houve também uma desaceleração do volume de investimentos e das fusões e aquisições. Mesmo assim, o ecossistema segue crescendo puxado pelas fintech.

A carta da YCombinator, aceleradora referência em Silicon Valley, divulgada no dia 19 de maio, repercutiu em todo o ecossistema. A carta alertava os founders para se prepararem e se planearem para o pior. A onda de medo e pessimismo nos Estados Unidos acabou expandindo-se para a América Latina, o que levou algumas start-ups no Brasil a realizarem demissões, como a Zak, a QuintoAndar, a Facily e a Loft. “O mar não está para peixe”, em outras palavras, não está nada fácil navegar neste momento. A aversão ao risco está em alta, alguns investidores estão bem cautelosos, principalmente depois da perda de US$ 9 triliões no valor das empresas listadas na Nasdaq.

Para João Kepler, um dos maiores investidores anjo do Brasil, as boas start-ups continuarão sendo boas (com equipas completas, com controle e gestão), talvez com valuation menores e mais próximas da realidade. Para ele, o horizonte de investimento em venture capital é de longo prazo. Segundo Kepler, os que estiverem com caixa para investir, possuem a oportunidade de obter os melhores retornos e a tendência é que o ticket médio dos aportes diminua.

Na contramão da escassez no investimento em start-ups, a Ânima Educação anunciou o Ânima Ventures, o primeiro fundo de corporate venture capital da companhia voltado para investimentos em start-ups (não necessariamente que sejam edtech).

Atualmente, o Brasil conta com 30 unicórnios*, sendo que mais de um terço das start-ups tornaram-se unicórnio em 2021. Em fevereiro deste ano, a fintech Neon recebeu um aporte de R$ 1,4 bilião (US$ 300 milhões) do grupo espanhol BBVA tornando-se o primeiro unicórnio de 2022.

A Distrito, plataforma de inovação aberta, apontou no início do ano 14 start-ups com possibilidade de virarem unicórnio este ano. No relatório constava a Neon. Segundo Gustavo Gierun, CEO do Distrito, considerando que o mercado já está consolidado, o mesmo possui maior liquidez, e com isso o crescimento é ainda mais acelerado fazendo as empresas chegarem ao valuation de mais de US$ 1 bilião em intervalos menores, como foi o caso da Merama, que virou unicórnio com menos de um ano de operação.

Em relação a inovação e start-ups interessantes que surgiram no mercado, vale a pena mencionar a Food to Save, uma foodtech que pretende salvar mais de 500 toneladas de alimentos do desperdício até o fim do ano.  A start-up tem apenas um ano de vida, mas captou pré-seed de R$ 1,3 milhões e quer escalar suas sacolas surpresas (sacola com produtos excedentes e aptos para consumo de restaurantes, padarias, hortifrutis e confeitarias  com descontos de até 70%). Com mais de 80 mil pedidos na aplicação, a foodtech já evitou a emissão de 250 toneladas de CO2.

Quanto a talento, uma pesquisa realizada pelo Banco Nacional de Empregos revelou que 29,75% das mulheres possuem ensino superior, contra 21,5% dos homens. Apesar disso, a pesquisa mostrou que o setor de tecnologia lidera áreas com maior diferença salarial de género. No cargo de desenvolvimento, os salários são até 63% maiores para homens. A média nacional é de 20,5% a menos no salário das mulheres. Não faz o menor sentido essa diferença salarial principalmente se lembrarmos que a primeira pessoa da história a programar foi uma mulher: a cientista Ada Lovelace que escreveu um código ainda no século XIX. As mulheres são quem deveria estar a ganhar melhores salários. Já que não é o caso que pelo menos ganhem salários iguais aos seus pares. Espero que CEO e diretores de RH se consciencializem e essa diferença salarial se torne coisa do passado.

Por fim, estamos quase em meados do ano, e ainda há muito por vir. Acredito que o mercado irá seguir com cautela, mas os investimentos por parte de alguns grupos e fundos continuarão a acontecer. Há muitas oportunidades e o mercado está ávido por realizar o que não foi possível durante os dois anos de pandemia.

Como dizem em Portugal: A ver!

*VTEX, Arco Educação, PagSeguro, Único, MadeiraMadeira, Hotmart, NuvemShop, Wildlife, iFood, Gympass, EBANX, Quinto Andar, Stone, 99, MercadoBitcoin, CloudWalk, Nubank, Loggi, Olist, Neon, Facily, C6Bank, Loft, Creditas, Dock, Merama, Daki, Frete.com, Ascenty, Brex (a última foi fundada por brasileiros nos EUA).

Comentários