A convergência de tecnologias digitais traduz o começo de uma transformação da nossa sociedade e a utilização crescente de tecnologias e técnicas de Inteligência Artificial (IA) tem sido central na convergência dessas tecnologias.

Os desenvolvimentos recentes da IA resultam do aumento do poder de processamento, da otimização de algoritmos e do crescimento exponencial no volume de dados digitais muito dele originado pela proliferação da Internet das Coisas com o aumento exponencial do número de dispositivos conectados.

Muitas das aplicações da IA ​​já entraram no nosso dia a dia, desde traduções automáticas, sugestões de serviços, ao reconhecimento de objetos em imagens, e o número de aplicações aumenta todos os dias em todas as áreas de atividade.

Também em Portugal este tema tem vindo a aumentar de importância, não só no setor privado onde começam a despontar aplicações com potencial de negócio em empresas de todas as dimensões e setores, mas também na Administração Pública onde existem diversas iniciativas que visam usar os dados existentes em prol de uma gestão mais eficiente e de um serviço mais eficaz aos cidadãos e às empresas.

Existe uma forte concorrência global nesta área, opondo os EUA, a China e a Europa. Para a Europa, uma das principais preocupações prende-se com a maneira de abraçar as oportunidades oferecidas pela IA de uma forma centrada no ser humano, ética, segura e fiel aos valores fundamentais europeus.

O Conselho da Competitividade da União Europeia divulgou no final de fevereiro, conclusões sobre o Plano coordenado para o desenvolvimento e utilização da inteligência artificial “Made in Europe”. Nas suas conclusões, o Conselho sublinha a importância crucial de se promover o desenvolvimento e a utilização da inteligência artificial na Europa aumentando o investimento nesta área, reforçando a excelência nas tecnologias e aplicações de inteligência artificial e fortalecendo a colaboração no domínio da investigação e inovação entre a indústria e o meio académico.

No âmbito da sua estratégia sobre a inteligência artificial, adotada em abril de 2018, a Comissão apresentou um plano coordenado, elaborado com os Estados-Membros, para promover o desenvolvimento e a utilização da inteligência artificial na Europa.

Este plano propõe ações comuns para uma cooperação mais estreita e mais eficaz em quatro áreas fundamentais.

  1. Maximizar os investimentos através de parcerias, uma vez que os níveis de investimento para inteligência artificial na UE são baixos e fragmentados, em comparação com outras partes do mundo, como os EUA e a China.
  2. Criar espaços de dados europeus, pois para se poder desenvolver tecnologias em matéria de inteligência artificial é necessário dispor de grandes conjuntos de dados, sólidos e seguros.
  3. Promover o talento, pois ele é essencial para o desenvolvimento e uso da inteligência artificial, mas os países da UE enfrentam carências de profissionais de TI e carecem de programas de ensino superior especializados em IA.
  4. Desenvolver inteligência artificial ética e confiável, que respeite os direitos fundamentais e as regras éticas.

Neste âmbito, até meados de 2019, todos os Estados-Membros devem dispor das suas próprias estratégias nacionais para a inteligência artificial, com identificação de investimento e de medidas de execução, que contribuirão para os debates a nível da UE.

A questão ética é particularmente relevante pois existem riscos associados à IA, principalmente os de opacidade da maioria das técnicas de IA e os de enviesamento resultante dos dados. Esse enviesamento pode ainda degenerar em situações de discriminação de cidadãos e empresas, que devem ser acauteladas e evitadas. Exemplos recentes de má utilização têm gerado resultados preocupantes, com a utilização indevida de dados e a influência determinante em processos eleitorais, com prejuízo para os direitos e liberdades dos cidadãos.

Para criar a confiança necessária para que as sociedades aceitem e utilizem a inteligência artificial, o plano coordenado procura desenvolver uma tecnologia que respeite os direitos fundamentais e as normas de caráter ético. Um grupo europeu de especialistas, representando a academia, os negócios e a sociedade civil, está a trabalhar em diretrizes éticas para o desenvolvimento e uso da inteligência artificial, a apresentar à Comissão Europeia até março de 2019.

Para isso é necessário trabalhar em direção a estratégias de avaliação, sistemas transparentes e confiáveis ​​e boas interações entre humanos e IA. Algoritmos transparentes “by design” são cruciais para construir confiança nessa tecnologia disruptiva, mas para isso é essencial um envolvimento mais amplo da sociedade civil sobre os valores a serem incorporados na IA e as direções para o seu desenvolvimento futuro.

*Direção de Investimento para a Inovação e Competitividade Empresarial / IAPMEI

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Profissional com mais de 20 anos de experiência em avaliação de projetos de investimento, adquirida em várias funções exercidas no IAPMEI e na AICEP (ex-ICEP), grande parte das quais de direção de unidades de negócio. Desde 2006 no IAPMEI, exerce... Ler Mais