Estudar fora é o sonho de muitos jovens, mas nem sempre é fácil fazer as malas e sair do país. Além da distância e da saudade, muitos desistem na hora de encontrar a sua oportunidade. Para os ajudar, Ricardo Lemos juntou-se a Julio Pucciarelli e lançou a Ally. Saiba tudo sobre esta start-up brasileira que trabalha em conjunto com as escolas internacionais e as agências de intercâmbio, e que contou com o apoio da Amazon.

Imagine uma plataforma através da qual escolas e fornecedores de serviço podem divulgar as suas ofertas a estudantes em todo o mundo. E por sua vez os estudantes podem efetuar a sua matrícula online ou escolher a agência de intercâmbio para os auxiliar no processo.

É precisamente isto que a Ally, anteriormente conhecida como Sellead, faz. Depois do apoio do Founder Institute e do investimento da Sevna Startups, hoje a Ally está incubada no Supera Parque, o centro Tecnológico de Ribeirão Preto, no Brasil.

O Link To Leaders falou com Ricardo Lemos, CEO e cofundador da Ally, para perceber como surgiu a ideia de criar esta start-up brasileira que conta já com mais de 3.500 instituições registadas e cerca de 50 mil cursos.

Como surgiu o projeto Ally e qual a proposta de valor que traz ao mercado?
Estava à procura de um sistema de gestão eficiente para a minha agência de intercâmbio. Estávamos com cinco lojas, três no Brasil e duas na Austrália. Na altura representávamos mais de 200 instituições de ensino em todo mundo todo e não tinha um sistema de cotação e gestão eficientes. Foi quando conheci o Julio, hoje COO e cofundador da Ally. Ele estava à frente de uma fábrica de software. Numa primeira fase, solicitei um orçamento para a criação de um software para a empresa. Porém, depois de apresentar todo o projeto, o Julio disse que possivelmente esse projeto poderia ser uma start-up e pediu para entrar de sócio.

Como funciona exatamente a plataforma?
Hoje em dia a plataforma faz a ligação entre as escolas internacionais e provedores de Serviço, com as agências de intercâmbio. Uma espécie de marketplace, onde essas empresas promovem-se e as agências têm acesso ao portfólio de produtos para oferecer aos seus clientes. Nesse modelo estamos a atuar apenas no mercado B2B. Para 2020, vamos lançar um novo modelo B2B2C, ou seja, daremos acesso à nossa base de dados para os estudantes. Eles vão poder procurar pelo curso ideal na nossa base de dados e escolher se querem ou não o apoio de uma agência para poder fazer a matrícula na escola desejada ou comprar o serviço/produto dos provedores que fazem parte do hub.

Porquê o setor da educação e concretamente o de cursos de intercâmbio?
Trabalho com intercâmbio há mais de 12 anos. Sempre fui apaixonado por viagens, por conhecer novas culturas, línguas estrangeiras e tecnologia. Acredito que essa experiência tem que ser vivida por todos. Inclusive, a nossa missão é fomentar o intercâmbio e torná-lo mais acessível.

“São mais de 3.500 instituições registadas e cerca de 50 mil cursos. Hoje temos a maior base de dados de cursos internacionais com valores atualizados do mundo”.

Quantas escolas disponibiliza atualmente a plataforma? E quantos cursos?
São mais de 3.500 instituições registadas e cerca de 50 mil cursos. Hoje temos a maior base de dados de cursos internacionais com valores atualizados do mundo.

Em que mercados já estão presentes?
Temos clientes em 44 países.

Quantas pessoas já passaram pelos vossos programas de intercâmbio?
No ano passado tivemos 200 mil novos leads registados e matriculámos cerca de 15 mil estudantes.

Quais foram os parceiros /financiadores do projeto na fase inicial?
Fomos acelerados pelo Founder Institute e na sequência pelo Sevna Startups, que foi o nosso primeiro investidor. Quando finalizámos o programa, recebemos três investimentos de investidores locais. Hoje estamos incubados no Supera Parque, o centro Tecnológico de Ribeirão Preto.

Conseguiram atrair o apoio indireto da Amazon na fase inicial. Como é que isso os ajudou?
Ajudou-nos muito no começo porque conseguimos que os nossos dados estivessem alojados gratuitamente num dos servidores mais seguros do mundo.

“O estudante é o maior beneficiado, pois essa ligação faz com que haja uma redução no custo operacional de todo o processo (…)”.

Como caracteriza o seu hub de educação?
O hub é formado pelos principais atores no mercado da educação internacional. Estamos a inovar com a ligação desses players, trazendo agilidade, eficiência e segurança para todos. O estudante é o maior beneficiado, pois essa ligação faz com que haja uma redução no custo operacional de todo o processo, fazendo com que o Intercâmbio fique cada vez mais acessível.

A plataforma começou como Sellead e passou a Ally. Porquê essa alteração de nome?
No começo estávamos a trabalhar apenas com as agências de intercâmbio, pois sem elas não seria possível convencer as escolas e fornecedores a publicar o seu portefólio de produtos na plataforma. O nome estava a ser bem acete, pois as agências entendiam o nosso modelo de negócio sem muita dificuldade. Quando conseguimos 1000 consultores registados, começámos a conversar com as escolas e fornecedores e o nome Sellead não foi bem aceite.

Explicar um novo modelo de negócio num mercado extremamente tradicional com um nome que remetia para a ideia de ´venda de leads´ foi um desafio e tanto. Resolvemos então tornar-nos ´aliados´, explicando que tínhamos desenvolvido uma nova tecnologia para aumentar a exposição da marca dessas empresas para os seus representantes de venda, trazer meios de gestão, meios de pagamento e cntacto num único lugar. Essa nova apresentação com proposta de valor incluída no nome, trouxe resultados excelentes.

“O investidor brasileiro não tem experiência em investimento. Eles querem retorno sobre o capital e não é isso que uma start-up propõe no início”.

Como tem sido esta experiência de criar uma start-up no mercado brasileiro?
Desafiador. O investidor brasileiro não tem experiência em investimento. Eles querem retorno sobre o capital e não é isso que uma start-up propõe no início. Alem disso, o mercado de intercambio é muito pouco conhecido aqui.

Qual o montante de investimento que já levantaram?
400 mil reais [87 mil euros] até o momento.

Cinco anos depois de ter arrancado com este projeto, que balanço faz da iniciativa?
Sinceramente, errámos muito e aprendemos também. Teria feito um processo de validação mais eficaz desde o começo e teria me afastado do setor comercial logo no início. Com o produto validado, métricas claras e mais tempo para falar com investidores, com certeza teríamos levantado mais capital.

Quais as ambições em termos de crescimento? Expansão geográfica, número de cursos?
Nessa fase do pivot, queremos atuar principalmente no mercado brasileiro. Vamos trazer inovação para as agências locais, nos meios de pagamento, queremos fazer com que mais brasileiros estudem no exterior.

Qual a previsão de faturação para este ano?
Não revelamos a faturação, mas no ano passado vendemos 90 milhões de reais [19 milhões de euros] em intercâmbio aqui no Brasil. Em 2020 queremos duplicar este valor.

“O mercado de cursos no exterior tem um valor estimado de 800 biliões de dólares [721 mil milhões de euros] (…)”

Que potencial encontra no mercado do intercâmbio?
Vemos muito potencial, principalmente agora que conseguimos validar diferentes produtos para todos os players do mercado. Desde empresas de alojamento, a  empresas de transporte aéreo, seguros, entre outras. O mercado de cursos no exterior tem um valor estimado de 800 biliões de dólares [721 mil milhões de euros], já o mercado de viagens ultrapassa os 4 trilhões de dólares [4 triliões de euros].

Respostas rápidas:
O maior risco:
 Não conseguir desenvolver a tecnologia necessária por falta de mão de obra.
O maior erro: Demorar para invalidar produtos.
A maior lição: Focar no negócio e não envolver a paixão pelo mercado nas validações dos produtos.
A maior conquista: Os meus sócios, investidores e equipa.

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