Laurentina Gomes fundou há 20 anos o único grupo a representar a Toshiba em Portugal. O seu dia começa às 7h20 no ginásio, com 50 minutos de treino que a ajudam a descontrair e a ganhar energia para enfrentar o dia.

Licenciada em Gestão e Administração de Empresas, Laurentina Gomes está desde sempre ligada à tecnologia. Começou o seu percurso profissional no DEPSI – Departamento de Sistemas de Informação da Hoechst, sucursal portuguesa da multinacional alemã de produtos químicos, onde passou pela gestão de stocks e depois pela importação dos equipamentos.

Em 1992, quando a Hoechst decide vender o DEPSI, Laurentina Gomes, juntamente com Joaquim Guerreiro e outros gestores, avança com um MBO e criam a Listopsis para vender produtos multimarca de informática. Em 1995, lança a Liscic, a única empresa independente a representar em exclusivo uma das maiores marcas de equipamento de gestão documental e projeção, a Toshiba. Pelo caminho, e num momento de plena crise, compra a CVCIC no Porto e lança a Listopsis em Braga.

Laurentina Gomes orgulha-se dos prémios que têm sido conquistados pelo grupo Liscic/Listopsis que é frequentemente nomeado PME Líder, PME Excelência e Empresa Aplauso. Para além de empresária de sucesso, é uma mãe dedicada de 3 filhos e ex-atleta federada fundista do Mem Martins e do Campolide.

A Listopsis nasceu em 1993 em resultado de um MBO (Management Buy Out). Quais foram lições que retira deste processo?
Uma operação de MBO pelos gestores de negócio, como foi o caso do nascimento da Listopsis, permite vantagens competitivas porque acumulamos o saber, o know-how do negócio, conhecemos os clientes e toda a estrutura, mas não é garantia de sucesso só por si. O facto de passarmos de gestores para donos do negócio foi um enorme vazio que implicou muito trabalho, persistência, espírito de sacrifício, acreditar no projeto e ir atrás dos sonhos, fazê-los acontecer.

Aprendemos também que num processo de MBO é fundamental preservar e aumentar os níveis de confiança dos clientes, parceiros e colaboradores, o que se torna ainda mais importante pelo facto de deixarmos de estar integrados numa multinacional e passarmos a ser uma PME. Aprendemos que o “sucesso é ir de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo” como dizia Winston Churchill. Conseguimos ultrapassar as dificuldades e os momentos difíceis. Outros hão-de acontecer, mas hoje somos um grupo sólido e merecemos a confiança dos nossos clientes e de marcas mundiais, como a Toshiba, a NEC e a HP entre outras. Aprendemos que só equipas motivadas e comprometidas com objetivos comuns fazem acontecer projetos de sucesso.

Que balanço faz dos 20 anos à frente do grupo Liscic/Listopsis?
Sem dúvida que o balanço é bastante positivo. Orgulho-me do grupo que construímos, com capitais exclusivamente portugueses, que conta com mais de vinte anos e com uma carteira de clientes que são o nosso permanente desafio. É uma honra estar na génese da criação de duas empresas de sucesso, a Liscic que representa uma multinacional em Portugal há mais de 20 anos, a Toshiba, e a Listopsis, que em plena época de crise expandiu geograficamente o seu negócio para o Porto e para Braga, num cenário em que muitos concorrentes desapareceram. Mas não posso deixar de ressalvar que tem sido um trabalho de equipa, conjuntamente com Joaquim Guerreiro, CEO do grupo Liscic/Listopsis, e com toda a nossa equipa, com a qual reinventamos em permanência o nosso Grupo para chegar cada vez mais longe, incluindo os mercados internacionais.

O que a levou a avançar por esta área de negócio, habitualmente mais associada ao género masculino?
Cheguei por acaso às tecnologias. Hoje tenho uma enorme paixão pelas tecnologias e não me imagino a trabalhar noutro setor que não sejam as TI. O progresso e a inovação tecnológica fascinam-me e acredito que “a tecnologia move o mundo”, como referiu Steve Jobs. Esta é de tal de maneira relevante que entra todos os dias nas nossas vidas e de diversas formas, incluindo a sua tão relevante utilização ao serviço de causas humanitárias ou em de situações de catástrofes e socorro de vítimas.

Quando entrei para as TI, nomeadamente para o setor tradicional da cópia/impressão, não era comum ter mulheres na liderança, pelo que o desafio foi ainda maior, mas encarei-o como encaro todos os desafios, com trabalho, persistência e muita dedicação.

Em termos de faturação, quais as principais áreas de negócio da Liscic e da Listopsis?
No caso da Liscic as principais áreas de negócios dizem respeito à comercialização de multifunções, gestores documentais e impressoras de etiquetas e códigos de barras Toshiba, marca que representamos oficialmente há mais de 20 anos. Para além disso, somos também representantes e distribuidores de projetores de imagem, monitores e public displays da NEC. No que diz respeito à Listopsis, para além da comercialização de equipamentos, soluções e serviços de impressão, gestão documental, informática e imagem, dispomos ainda de uma área de prestação de serviços de apoio e consultoria.

Qual o modelo de negócio?
Temos os dois modelos de negócio, o direto e o indireto. O direto através da Listopsis, onde asseguramos junto do cliente final uma prestação de serviços de business automation, document management, soluções de impressão e implementação de infraestrutura informática multimarca. O indireto com a Liscic que, através de uma rede de parceiros onde está também a Listopsis, oferece soluções de tecnologia, de cópia e impressão Toshiba e de imagem e projeção NEC.

Qual é atualmente a orientação estratégica do grupo Liscic/Listopsis na comercialização dos seus produtos?
A nossa orientação estratégica assenta neste momento nos eixos de mobilidade e personalização das soluções tecnológicas que oferecemos a nível de informática, cópia e impressão, imagem e projeção. Queremos garantir às empresas uma verdadeira efetividade de acesso e tratamento da informação de negócio, de acordo com as necessidades de cada “cluster” empresarial.

Quantos clientes contam atualmente?
Neste momento contamos com mais de 3000 clientes, com os quais temos diariamente uma relação o mais próxima possível, ao mesmo tempo que tentamos satisfazer todas as suas necessidades tecnológicas dentro da nossa área de atuação. Podemos dizer que, mais do que fornecedores, somos parceiros dos nossos clientes.

Qual o maior desafio superado até ao momento?
Diria que o maior desafio é assegurar a motivação permanente das equipas num negócio com caraterísticas próprias e num mercado altamente competitivo e turbulento, o que condiciona os resultados individuais e da equipa. Assegurar que mantemos as equipas comprometidas com os objetivos e promover o espírito de partilha, autonomia e rapidez na decisão, sempre orientadas para as soluções dos problemas e desafios.

Quais são as expetativas de evolução do negócio da empresa para este ano?
As expetativas são muito positivas. Vamos manter a nossa estratégia de crescimento, que nos tem permitido repetidamente ser nomeados PME Líder, PME Excelência e Empresa Aplauso. Queremos continuar nesse caminho premiado. Como já referi, a concorrência neste mercado é muito intensa e a melhor forma de contornar essa realidade é antecipar as tendências do mercado. É essa a nossa visão. Vamos continuar a trabalhar todos os dias para continuarmos a ser uma empresa de TI de referência no mercado, que apresenta soluções tecnológicas inovadoras e que aposta na criação de valor acrescentado. Se assim for conseguiremos manter a confiança e a satisfação dos nossos parceiros e clientes. Temos ainda um grande objetivo para o futuro, que passa pela internacionalização do negócio.

O percurso de Laurentina Gomes está ligado à tecnologia desde o início. O seu primeiro emprego foi no DEPSI – Departamento de Sistemas de Informação da Hoechst. De que forma esta experiência a marcou e a ajudou a ser o que é hoje?
No DEPSI comecei na gestão de stocks, mas rapidamente assumi funções na área da gestão da importação dos equipamentos. Ou seja, não só adquiri um vasto know-how na área dos sistemas de informação, como rapidamente tive de assumir a responsabilidade de lidar com vários mercados e de tomar decisões. Quando em 1992, a Hoechst decide alienar o DEPSI para se concentrar no negócio químico e farmacêutico, percebemos de imediato que essa era uma oportunidade a não desperdiçar para criar algo de raiz e 100% português. Era preciso arriscar e foi isso que fizemos em conjunto, sob a liderança de Joaquim Guerreiro e da sua equipa de gestão à qual pertencia. Enfrentar os desafios sem receio e com confiança, acreditando que só assim é possível alcançar o sucesso, é uma lição que guardo deste que comecei a minha vida profissional e que define muito aquilo que sou.

É fácil ser-se empreendedora nos dias de hoje?
Uma coisa é certa, há 20 anos atrás o empreendedorismo era bem menos apoiado e incentivado. A crise que se instalou em Portugal fez despertar uma cultura de empreendedorismo como resposta às dificuldades. Na crise surgem novas oportunidades de negócio, bem como uma maior abertura ao risco e uma constante criação de soluções de inovação em todos os setores. Hoje encontramos grandes exemplos de sucesso cujos empreendedores são jovens que conseguiram desenvolver projetos diferenciadores em climas de grande adversidade pessoal e profissional.

Quais os principais desafios com que se deparam hoje em dia as PME em Portugal?
Garantir o financiamento necessário para que possam crescer, que as suas infraestruturas tecnológicas sejam adequadas ao negócio, para que possam fazer a transição para o Digital, onde há imenso trabalho a fazer. Este trajeto é necessário para conseguir aumentar os níveis de competitividade e fixar talentos, outros dois desafios das PME nos dias de hoje.

Dicas para conciliar a vida familiar, pessoal e profissional…
Acima de tudo, uma agenda muito organizada. A prática do atletismo deixou um legado único que só o desporto de média e alta competição nos transmite: determinação, espírito de sacrifício, capacidade de trabalho e muita disciplina, são essenciais para atingir o equilíbrio na nossa vida. Por norma, todos os finais do dia, após o jantar, planeio e organizo o dia seguinte, seja para atividades da família ou de agenda profissional.

Ex-atleta federada está habituada a corridas por isso o seu dia começa às seis da manhã e o desporto faz parte da sua rotina… Como consegue manter o exercício físico no seu dia-a-dia? O que a motiva? O exercício físico faz parte da minha vida e contribui para o meu equilíbrio, bem-estar e saúde, por isso entro diariamente no ginásio pelas 7h20 e faço 50 minuto de treino que me permite descontrair e ganhar energia para o dia. Quando chego ao escritório estou sempre com muita energia e espírito positivo. Procuro logo contagiar a equipa no momento em que os cumprimento e lhes desejo um bom dia sempre com um sorriso sincero!

Um conselho a quem está a lançar um negócio…
O sucesso faz-se de muitos fracassos, de muito trabalho, de determinação e confiança para prosseguir, pelo que nunca devemos perder o entusiasmo. É fundamental que as pessoas sejam determinadas, focadas nos objetivos e confiantes no seu atingir, para garantir desempenhos individuais de excelência e para que os negócios possam ser exemplos de sucesso. Finalmente, terem uma enorme apetência e flexibilidade para a mudança!

Respostas rápidas:
O maior risco:
Fazer um MBO com uma relativa experiência profissional, mas já diz o ditado “quem não arrisca, não petisca”.
O maior erro: A criação em 1994-95 de várias delegações da Listopsis na região da grande Lisboa, que poucos anos depois se revelaram dispendiosas e obsoletas, pela nova rede de autoestradas e pelo advento da Internet.
A melhor ideia: A criação de duas empresas de sucesso e a presença nas três maiores cidades do país.
A maior lição: A vida ensinou-me que a felicidade deve partir de nós mesmos, que as dificuldades e adversidades são parte da vivência, mas que a maior felicidade está nos momentos e nas coisas simples da vida.
A maior conquista: O nascimento dos meus filhos e ver cada um deles a construir os seus percursos individuais.

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