Dizia um general prussiano do século XIX, já citado neste espaço, que a guerra é a continuação da política por outros meios. Diria antes, como o Papa Francisco, que a guerra é o fracasso da política.

A guerra na Ucrânia é, de facto, um fracasso da política, mas um fracasso que pode ser apontado a um grande responsável: um homem, com as suas ambições de poder, na tentativa de voltar atrás na História e de reconstruir a grandeza de um império perdido.

Ao contrário da ideia muito enraizada de que todos os conflitos militares se devem a interesses económicos, mais ou menos obscuros, culpando sempre as empresas, esta é, claramente uma tragédia que tem na sua base motivações exclusivamente políticas. A economia, neste caso, sofre as consequências da guerra e é, talvez, no melhor cenário, a pressão para travar a loucura de um político.

Na Europa, as consequências económicas desta guerra estão a ser exacerbadas pela forte dependência relativamente ao gás natural, cuja importância é decisiva diretamente, para indústrias e consumidores privados, e indiretamente, na produção de eletricidade.

A Europa não se precaveu desta dependência. Nem sequer conseguiu construir um verdadeiro mercado único da energia. Lembro aqui a questão crítica das interligações entre as redes europeias de eletricidade e de gás natural, cuja urgência tem sido insistentemente reclamada. A França só agora veio declarar já não ter reticências ao desenvolvimento das ligações entre o seu território e a Península Ibérica. Seriam uma peça fundamental para a segurança energética da Europa.

Mario Draghi, entre outros líderes europeus, reconheceu, também agora, quão imprudente foi não termos diversificado mais as nossas fontes de energia e os nossos fornecedores, nas últimas décadas.

Mais uma vez, as decisões políticas – ou a sua ausência – sacrificaram a economia. Por vezes, provavelmente, pela ganância de alguns; noutros casos, por ingenuidade ou simplesmente por inércia e falta de visão.

A Comissão Europeia apresenta agora uma estratégia de diversificação das fontes de abastecimento de energia e de investimento na produção de alternativas economicamente sustentáveis na Europa. Lamentavelmente, este caminho leva tempo a produzir resultados. Precisamos, agora, ao nível nacional e europeu, de medidas urgentes para mitigar o impacto do aumento de preços, energéticos e não só.

É preciso, mais uma vez, salvar as empresas e preservar o emprego. Numa visão de médio prazo, é preciso conter, tanto quanto possível, a emergência de uma espiral inflacionista que tornaria esta crise mais profunda e mais duradoura.

Assim haja vontade política, do Governo e das instituições europeias.

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António Saraiva nasceu em novembro de 1953 em Ervidel. Diretor da Metalúrgica Luso-Italiana desde 1989 e administrador a partir de 1992, adquiriu a empresa ao Grupo Mello em 1996, sendo atualmente presidente do conselho de administração. Começou a sua carreira... Ler Mais