A recente situação de pandemia do COVID-19 e a necessidade de respostas rápidas em termos de comunicação e operacionalização de sistemas, comprovou a robustez de diversas estruturas de gestão e administração.

Centenas de plataformas digitais de acesso a dados, milhares de aplicações e milhões de computadores e portáteis estão interligados através da rede digital, por entre milhares de km de cabos que cruzam bastidores vestidos de fios e luzes que piscam em cada byte que circula.

Na última semana, com milhões de pessoas a trabalharem a partir de casa, em ligação remota e com as instituições e empresas a comunicarem mais intensamente pelas plataformas digitais, a União Europeia teve de pedir à Netflix para transmitir em baixa definição. Estava em causa a intensidade do fluxo e o risco do crash

A rede digital é uma ferramenta imprescindível para a dimensão funcional e orgânica dos sistemas de comunicação. Ainda que o ouro possa ter sido um investimento intemporal, os sistemas digitais e a sua propriedade, ao assumir a dimensão da base de funcionamento do mundo, tornou-se estratégico e precioso.

Nesse sentido e em caso de ocorrência de um desastre natural, pela imprevisível geodinâmica terrestre, a eventual inoperacionalidade da rede por cabo colocará em causa a maioria das estruturas digitais. Num cenário desta tipologia, a rede 5G será uma alternativa fiável para a gestão de operações e socorro?

A esmagadora maioria dos portugueses pertence à geração Y (millennials), pela utilização diária de inúmeras ferramentas digitais. Neste momento, através de um computador ou de um smartphone, resolve-se um crescente conjunto de operações com empresas e com o Estado. Para esta realidade muito contribuiu o programa Simplex, lançado em 2006, pelo desenvolvimento de medidas inovadoras na componente digital da administração pública, que conquistaram o país e os cidadãos, num contínuo aperfeiçoamento tecnológico e legislativo.

Se a simplificação de processos e a desburocratização de procedimentos nos permitiu ter mais tempo para outras coisas, hoje, limitados na nossa mobilidade, devemos refletir no que devemos fazer diferente. Pessoalmente considero que o nosso futuro coletivo está dependente de uma melhoria da gestão e da administração em rede. O Estado deve continuar a promover e a assegurar o papel de regulador e de estratega, sem condicionar a iniciativa empresarial e respeitando a liberdade individual, preconizando políticas públicas inovadoras, sustentáveis, de fomento da coesão social e territorial. Tendo como objetivo a satisfação das necessidades essenciais e a garantia do funcionamento do país (até nos cenários mais adversos), a estratégia deve passar pelo substancial incremento de parcerias entre o setor público e privado num plano de rede, sob monitorização permanente.

A segurança das pessoas e das organizações, a solidez da economia, a prosperidade e a inovação não podem estar condicionadas a ideologias, crenças ou a agendas corporativistas. Nos últimos dias comprovou-se a real importância de cada área e do que é fundamental para o futuro coletivo. Na área do ensino, por exemplo, são os professores e as plataformas digitais que estão a permitir continuar a assegurar a partilha de conhecimento, o desenvolvimento do raciocínio e da compreensão, para a conclusão de cada ciclo de estudo.

Pensem na Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior, para as suas diretrizes e protagonistas e vejam se o que esta instituição pública tem exigido às estruturas de ensino superior (a suprema relevância da investigação e publicação de artigos científicos), agora, nos serve de alguma coisa? Hoje, com os professores e os alunos em casa, qual é a mais valia de os docentes do ensino superior terem artigos científicos publicados em revistas SCOPUS?!? Espero que o desenho do novo estilo de vida consagre a reestruturação de instituições como esta, para o que é efetivamente importante e determinante.

Nos últimos dias há quem tenha voltado a valorizar a vida, a reforçar a dispensabilidade de doutrinas ignóbeis e até o supérfluo, que há duas semanas era indispensável. Somente num trabalho em rede, repito, conseguiremos recuperar os danos sociais e económicos que estão a ocorrer, num novo ciclo que congregue todos e cada um de nós.


João Caldeira Heitor é licenciado em Português/Inglês pelo Instituto Jean Piaget, tem um doutoramento em Turismo pela Universidade de Lisboa, é mestre em Educação e Administração Escolar pela Universidade de Évora e pós-graduado em Gestão de Bibliotecas Escolares, pelo Instituto Superior de Línguas Aplicadas.

Paralelamente é investigador colaborador do Centro de Investigação, Desenvolvimento e Inovação em Turismo (CiTUR Leiria). Além das diversas publicações efetuadas também é orador em vários congressos nacionais e internacionais. Ao longo do seu percurso profissional desenvolveu atividades de docência em diversas instituições de ensino superior. Atualmente é o secretário-geral do Instituto Superior de Gestão (ISG).

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