Para Luís Calado, há poucas start-ups financeiras em Portugal, resultado da falta de oferta, mas perpetiva um futuro promissor para esta área. Eu acho que, para o ano, vamos ter melhores notícias em relação a este tema”, revelou em entrevista ao Link To Leaders.

A Microsoft reuniu mais de 100 start-ups, empresas, investidores e incubadoras na terceira edição do Ativar Portugal.  O evento decorreu no dia 24 de maio, na sede da Microsoft, no Parque das Nações, onde se discutiu temas como o futuro do empreendedorismo em Portugal e a importância do recurso a avanços tecnológicos e científicos – conhecidos como deep tech – pelas start-ups nacionais, para garantir vantagens competitivas no mercado global.

Durante o encontro foram ainda premiadas start-ups e aceleradores do ecossistema Ativar Portugal de âmbito nacional e que se distinguiram pelo elevado potencial. A CoolFarm arrecadou o prémio de start-up do ano. O Deep Tech Partner de 2017 foi para a UPTEC (Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto) e o Ecosystem Partner foi entregue à Startup Braga.

Foi neste contexto que Luís Calado, Start Up Lead da Microsoft Portugal, em entrevista ao Link To Leaders fez um balanço de todo o trabalho desenvolvido até agora e de como a Ativar Portugal contribuiu para alavancar várias start-ups nacionais.

Qual o balanço que faz do Ativar Portugal?
O BizSpark, o programa corporativo que serve de suporte tecnológico ao Ativar Portugal, começou a ser aplicado por nós há três anos. Na altura estávamos a lidar com cerca de 72 start-ups, se não me falha a memória. Mas o contacto era muito pouco dinamizado: nós não estávamos à procura de contactar as start-ups e elas também nos contactavam pouco. Então decidimos internamente mudar a estratégia e criámos o Ativar Portugal. Além de darmos a tecnologia, tentámos ao mesmo tempo ajudar as start-ups e hoje vimos alguns exemplos de como poderemos trabalhar em conjunto com elas, ajudando a desenvolver parte das suas soluções e promovendo-as no mercado, e junto dos nossos clientes. Tentámos arranjar aqui uma série de atividades e isto foi crescendo. Já são mais de 1000 as start-ups que entraram no Ativar Portugal Startups desde o seu lançamento em 2015.

Quais os resultados deste trabalho que mais lhe saltam à vista, quer para a Microsoft, quer para as start-ups?
Na altura em que a mobilidade explodiu, as plataformas da Google e da Apple acabaram por sobressair mais e isso não foi bom para nós. As pessoas passaram a olhar para a Microsoft um pouco como uma empresa que não inovava e, no contacto com as start-ups, mas também com as empresas, sentimos que eles não procuravam a Microsoft porque na realidade não trazíamos nada de novo. Tínhamos perdido um pouco aquela estrelinha da inovação tecnológica.

Acho que a maior vantagem do Ativar Portugal para nós e para as start-ups foi mostrarmos que, de facto, a Microsoft ainda tem muito para contribuir no espaço da tecnologia e que estamos a conseguir levar esta mensagem às pessoas que estão a lidar com esta inovação, que são estas empresas. Hoje, quando um Luís Calado vai a uma universidade falar de Inteligência Artificial e Machine Leaning, as pessoas querem ouvir e interessam-se, porque se apercebem que a Microsoft está um pouco “back in business”. Mas note-se que, se perdemos um pouco no lado da mobilidade, acabamos por ganhar muito no que diz respeito aos serviços e novas tecnologias que ouvimos falar nesta terceira edição do Ativar Portugal, nomeadamente ao nível do “deep tech”.

Quais foram os grandes destaques desta edição do Ativar Portugal?
Os heróis do dia foram as start-ups que estiveram presentes. Tal como nos anos anteriores, este ano voltamos a escolher 40 start-ups diferentes das 40 do ano passado. O que fazemos é olhar para as start-ups que estão a entrar para o nosso programa e escolher 40. Saliento que passámos de uma média de 300 start-ups a entrar no programa por ano para mais de 400.

Qual o vosso critério para selecionar as start-ups?
Não temos uma medida standard. Avaliamos o modelo de negócio, tentamos perceber qual o mercado que existe para a tecnologia das start-ups, tentamos avaliar a qualidade da equipa, ver qual a fonte que dá origem ao produto que estão a colocar no mercado; ouvimos também o parecer dos nossos parceiros, aceleradoras e incubadoras e, às vezes, também o investidor. Tentamos visualizar a start-up de vários ângulos diferentes, perceber a vantagem que ela pode entregar aos clientes. Às vezes, talvez possamos cometer injustiças, porque na prática temos de olhar para muitas. A única coisa que posso dizer é que elas podem passar no filtro, mas depois não são esquecidas ao longo do ano.

Por exemplo, está aqui uma start-up que não está na lista e que é a Sensei. Eles não estão entre as 40, na realidade nem são parceiros da Microsoft, mas eu tinha-os visto a fazer uma apresentação na Beta-i, gostei do que vi, a tecnologia deles é interessante. Estão a construir algo num espaço que a Amazon está a tentar ocupar. Nesta semana recebi uma chamada de uma das responsáveis pela start-up a perguntar se podiam estar no Ativar Portugal e claro que disse que sim. Nós não queremos só start-ups que estejam a trabalhar com a nossa tecnologia, por isso desafiamo-las para virem e fazerem networking. A possibilidade de poderem fazer networking é uma algo valioso para as start-ups e tem dado bons resultados.

Qual a área mais dominante das start-ups que são apoiadas pela Microsoft ao abrigo do Ativar Portugal?
Vou arriscar dizer que é a Healthcare. A área de Saúde está com um “boom” muito grande, há muitas start-ups a surgirem nesta área, o que é algo que me satisfaz. Eu estou a ver muita inovação a sair dos serviços partilhados de Medicina no Estado, eles estão a trabalhar fortemente a componente de inovação e é bom ver que estas pequenas empresas estão a acompanhar e estão a propor coisas novas.

Por outro lado, olhando mais para a tecnologia, acho que IoT [sigla em inglês para a internet das coisas]é algo que está a ter um “boom” enorme. Os nossos clientes procuram resolver problemas que caiem na lógica de connected devices e de tudo o que é preciso para criar à volta do tema IoT. Mas, ao darmos uma volta pelas start-ups que marcaram presença nesta edição do Ativar Portugal, há dispositivos com fartura. Isto agrada-me, porque é um bocadinho sair do espaço que eu vi nos últimos dois anos e que era muito ligado à mobilidade, mobilidade… para temas que são mais core para as empresas e que vão ser mais sustentáveis a longo prazo.

Há alguma área em que faltem mais propostas de start-ups?
Sim, na área financeira. Há poucas em Portugal, o que é uma coisa chocante para mim. Temos muitos parceiros no Ativar Portugal, entre empresas, investidores, incubadoras e aceleradoras, e uma coisa que sinto com alguma tristeza é que a área financeira está aqui pouco representada, fruto também um pouco de falta de oferta. Sinto que, se tivéssemos mais oferta, eles teriam mais interesse em vir, porque se acaba por ir aos eventos mais relacionados com a área de cada um. Esta é uma área em que temos de evoluir e, se compararmos com os mercados mais desenvolvidos, como Berlim, Londres, normalmente o fintech é o mais desenvolvido nesses mercados. Temos essa ambição, por isso vamos lutar. Mas acho que, para o ano, vamos ter melhores notícias em relação a este tema.

Dentro das start-ups apoiadas pelo programa Ativar Portugal, qual é aquela que dentro de um ano vai estar mais desenvolvida?
Há claramente uma que talvez tenha mais maturidade do que as outras e chegou até nós já com alguns anos de vida, que é a empresa de serviços de tradução Unbabel. Está numa área bastante interessante e também têm muita sustentação tecnológica no produto, ou seja, é um produto que a Microsoft usa e que a Google e outras grandes empresas também usam. Eles estão neste momento a crescer imenso. Ainda há pouco tempo soube que estão em fase de recrutamento e estão a querer quase “duplicar” a equipa.

Das outras start-ups mais jovens, vou dar três exemplos. A Infraspeak, a start-up do Porto que tem estado a trabalhar mais recentemente connosco na área da manutenção. Acho que esta área, como o Felipe Ávila da Costa disse nesta terceira edição do Ativar Portugal, é uma área em que há muito dinheiro para investir, ou seja, há muitas empresas à procura de soluções e a solução deles está muito bem construída. A prova disso é que, quando a levamos aos clientes, eles gostam da proposta da Infraspeak – é fácil de usar e é apetecível. Esta é garantidamente uma boa aposta.

Outra que também queria dar algum reconhecimento e que ganhou o prémio da Start-up do Ano é a CoolFarm, que está a desenvolver um sistema integrado que permite cultivar alimentos frescos e nutritivos, em interior, durante todo o ano, sem desperdícios e com a máxima segurança. Não é um investimento a curto prazo, mas sim um investimento a médio-longo prazo. Há tanta ciência, engenharia, tanto trabalho à volta de software e de robótica, que é impressionante o trabalho que eles estão a fazer e o interesse que estão a receber lá fora. O robot da CoolFarm impressiona, é tudo controlado por plataformas móveis. Também acho que é uma aposta muito boa. Não é fácil construir o que eles têm e isso é algo desafiante. O facto da Microsoft ter focado este evento em deep tech tem tudo a ver com esta temática. Queremos que eles se diferenciem e apresentem soluções difíceis de replicar.

A terceira start-up é a Probe.ly que é uma start-up lançada por Nuno Loureiro para ajudar as empresas a construir aplicações mais seguras. A ideia de criar a Probe.ly nasceu dentro do Sapo há seis anos, mas só em abril do ano passado saiu do papel para pôr no mercado um software que permite a qualquer empresa testar a segurança das suas aplicações. Com as notícias das últimas semanas, todos temos noção de que a segurança é um tema da atualidade. Eles têm uma solução interessante que está a ter um reconhecimento internacional fantástico e que tem uma componente tecnológica muito forte, difícil de reproduzir.

O que é que podemos esperar do Ativar Portugal para os próximos anos?
Estamos a tentar tornar o evento mais programático, isto é, não ser um evento que acontece só uma vez por ano. No dia 24 de maio, tentámos dar uma imagem do trabalho que vamos fazendo ao longo do ano, mas isto é apenas uma amostra. Para tal, queremos também fazer o “on- boarding” dos parceiros que estejam definitivamente interessados em trazer inovação para dentro das suas empresas. O nosso objetivo é tentar fazer com que a parceria que estamos a fazer com a Farfetch, a Impresa, a Compal, o Grupo Pestana, o José de Mello Saúde… cresça e consigamos criar um grupo de empresas mais forte para haver um maior alinhamento daquilo que as start-ups estão a fazer com o mercado.  A Microsoft é apenas o braço tecnológico, já que o know-how da área de negócio é deles. Estas empresas, por estarem a contribuir para trazer inovação, acabarão por se renovar e rejuvenescer, e adquirir um ritmo de inovação maior. Quando começámos, tínhamos uma ambição: lutar para que o próximo Bill Gates ou Mark Zuckerberg seja uma pessoa portuguesa, uma start-up portuguesa. Podem já ter passado três anos, mas isto ainda me move. Vamos lutar por isto!

Comentários