Ao emergir da dominação colonial que o arrasou material e moralmente, qualquer país quer reencontrar o seu caminho da liberdade, com desafogo económico.

Constato o que a Índia foi conseguindo nos últimos anos, apesar de ter desbaratado 43 anos (1947-1991) com ideologias coletivistas, que queriam fazer a “quadratura do círculo”’, sem quererem saber se o sofrimento dos pobres se aliviava. Além disso, a reconstrução foi lenta para o país, por não gerar riqueza. Países em situações parecidas, devem aprender uns dos outros; a não cometer os mesmos erros dos outros, para crescer depressa.

Muito enraizado na cultura Indiana está o valor do estudo, como meio de progresso pessoal e social. Com as múltiplas barreiras sociais, a opção ensino é a melhor para os saltar. As boas classificações escolares habilitam a continuar os estudos mais apetecidos, nas escolas públicas, onde se gasta menos, em medicina, engenharias, gestão, informática, etc. O querer aprender é importante para o progresso pessoal e para o do país.

A crescente afluência ao ensino superior, nos últimos anos, evidenciou a escassez de instituições e foi oportuno o reforço da participação de entidades privadas. Na Índia pós-independência parecia que só na incapacidade do Estado é que se ia convocar a iniciativa cidadã. Felizmente, esta é sempre muito inventiva, desde que tenha de atuar dentro de condições pré-definidas que garantam um bom nível de qualidade. Parece lógico que qualquer Estado não despreze o contributo dos privados no ensino. O Estado deve definir as regras do jogo e ser o árbitro da aplicação das mesmas, deixando a acção para quem sabe fazer bem, apoiando as iniciativas e só atuando na sua falta. O regulador deve velar para que não haja exploração dos candidatos, por escassez da oferta.

Há cursos muito solicitados e a apertada seleção faz com que a sua qualidade se eleve. Por exemplo, em 2016, havia cerca de 1,5 milhões de candidatos para as 10.575 vagas nos 23 IIT- Indian Institute of Technology, e uma proporção parecida para os IIM-Management e para os Medical Colleges. Com a intensidade de preparação prévia à admissão, dá-se uma elevação geral do nível de conhecimentos. Mesmo não entrando na faculdade da 1.ª opção, a melhor preparação é apreciada em qualquer faculdade.

Num país de bom crescimento económico, sente-se a falta de técnicos e especialistas em todas as atividades: nas sub-especialidades da construção civil, mecânicos de automóvel, de outras maquinarias, de eletrónica, computadores, etc. Há que contar também com a atração para emigrar, dada a disparidade de remunerações; impõe-se um esforço para formar mais técnicos que os necessários. E só com uma formação cuidada e exigente se pode esperar um trabalho de qualidade. O programa skill India,  tem a sua razão de ser: para se fabricar bem tem de se ter mão de obra preparada. Por isso, no último ano, 11,7 milhões de jovens tiveram treino profissional. Com a experiência, entretanto, adquirida pelas instituições de formação, elas estarão mais preparadas para dar um melhor serviço.

Não subvalorizar a agricultura
Cuidar da agricultura e inovar nela é a melhor forma de produzir alimentos, trabalho e matérias para transformar e exportar. Há um complexo de modernidade que parece entender que só o tecnológico é bom, abandonando o sector primário para se ir para as fábricas ou call-centers. Por isso, importa que empreendedores com visão tornem o sector agrícola apetecível e moderno.

A agricultura é básica para a população. E, ainda assim, cerca de 30% da produção, na Índia, estraga-se por inadequada rede de frio, deficiente transporte e armazenamento. Depois vem a transformação e mais além a distribuição pelas cadeias de retalho. Os alimentos processados duram mais, podendo chegar a todos os recantos do país. As políticas locais devem tender a dar estabilidade aos preços para garantir rentabilidade ao trabalho e investimento feito.

A investigação sobre cada produto e o modo de lhe acrescentar valor, bem como de toda a cadeia alimentar em que se insere, pode dar alta compensação, incluindo para quem trabalha a terra. Um estudo de solos ajuda a melhorar a rendibilidade, optando pelas culturas mais “ricas” compatíveis, distanciando-se do que “sempre se fez”.

O sector agrícola indiano é vasto e nele trabalha 48% da população ativa, produzindo 17% da riqueza do país. Todo o esforço para reduzir desperdícios e valorizar a produção melhora os rendimentos dos agricultores. A Índia tem boa percentagem de terra arável irrigada, próximo dos 40%, que pode dar duas a três colheitas por ano. É algo que se poderá ampliar e melhorar através do ensino, já desde os bancos da escola, das variedades vegetais locais ou que se podem adaptar à região, e do seu interesse económico, alimentar, ensinando as boas práticas para se conseguir alta produtividade da terra e boa absorção pelo mercado. Falar da Índia é  falar de qualquer outro país, pois os alimentos são indispensáveis em qualquer parte.

*Professor da AESE-Business School e Dirigente da AAPI-Assoc. de Amizade Portugal-Índia

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Eugénio Viassa Monteiro, cofundador e professor da AESE, é Visiting Professor da IESE-Universidad de Navarra, Espanha, do Instituto Internacional San Telmo, Seville, Espanha, e do Instituto Internacional Bravo Murillo, Ilhas Canárias, Espanha. É autor do livro “O Despertar da India”,... Ler Mais