Entrevista/ “Este é o momento de a Europa mostrar aos seus cidadãos que o projeto europeu vale mesmo a pena”

Ricardo Mourinho Félix, vice-presidente do BEI

“As PME portuguesas são um dos principais motores do crescimento económico, do emprego e da inovação. Mas são também mais vulneráveis à atual conjuntura e o papel do BEI passa por apoiá-las no sentido de garantir acesso a liquidez e aos recursos necessários para que possam ultrapassar estes tempos difíceis”, afirmou Ricardo Mourinho Félix, vice-presidente do Banco Europeu de Investimento, em entrevista ao Link To Leaders.

Em 2020, Portugal foi o quarto país da União Europeia que mais beneficiou das operações do Banco Europeu de Investimento (BEI). No ano marcado pela pandemia, o financiamento e a concessão de garantias a projetos nacionais atingiu os 2.336 milhões de euros, mais 44% face aos 1.662 registados no ano anterior. O valor representa uma subida de 33% face à média dos últimos seis anos, e foi o mais elevado desde a última crise financeira.

Em entrevista ao Link To Leader, Ricardo Mourinho Félix, vice-presidente do BEI, responsável pela atividade do Banco no país, fala das medidas adotadas pelo banco para mitigar os efeitos da pandemia, da necessidade urgente de apoiar as PME, que constituem uma parte fundamental do tecido produtivo e do emprego em Portugal, e do plano de investimento para a Europa em Portugal. E ainda do apoio às start-ups para a dinamização da economia.

Quatro meses depois de ter assumido o cargo de vice-presidente do BEI, que balanço faz deste desafio profissional?
É um prazer, uma honra e ao mesmo tempo um desafio enorme servir como vice-presidente do BEI no período crítico que estamos a viver a nível global. E o balanço que faço deste período é extremamente positivo. O BEI é uma instituição europeia, com uma história de sucesso, com colaboradores de uma qualidade imensa e com uma missão crucial a cumprir.

Sou um profundo crente no projeto europeu e o BEI desempenha um papel fundamental no cumprimento cabal do objetivo desse projeto. Um papel que é ainda mais importante na atual conjuntura, em que a pandemia e o seu impacto económico põem mais uma vez à prova a solidariedade europeia. Este é o momento de a Europa mostrar aos seus cidadãos que o projeto europeu vale mesmo a pena. Cabe aos políticos responder aos anseios dos cidadãos neste momento crítico. Se falharmos agora é todo um projeto europeu que fica em causa. Temos uma grande responsabilidade e mais do que isso um enorme dever.

Por tudo isto, não há melhor altura para fazer parte de uma organização tão importante como o BEI. Para apoiar a economia europeia, para criar emprego, para promover o crescimento inclusivo e sustentável e a coesão e assim melhorar a vida de todos os nossos cidadãos.

A semana passada tive o privilégio de apresentar os resultados de 2020 da atividade do BEI em Portugal. Em 2020, o BEI assinou 27 operações em Portugal, com um volume de financiamento de mais de 2 300 milhões de euros,  cerca de 1,2% do PIB português. Foi um ano muito importante.

Sendo o BEI um instrumento financeiro da União Europeia, quais as prioridades, em termos de financiamento, definidas por esta para a atuação do BEI?
O BEI é o banco da União Europeia. As nossas prioridades são as prioridades da União. O BEI tem estatutariamente um mandato de promoção das políticas de coesão. Levamos muito a sério esse mandato e, nesse quadro, o desenvolvimento de instrumentos financeiros orientados para uma implementação eficiente das políticas de coesão, que potencie o Fundo de Coesão e mobilize financiamento privado. É um objetivo que prosseguimos em todos os projetos.

O BEI tem objetivos de política pública totalmente alinhados com a União. Damos, por isso, prioridade à ação climática, à transição digital e ao apoio à inovação e ao desenvolvimento de infraestruturas produtivas e sociais, assim como ao financiamento às PME. Estes são objetivos bem definidos e mediante os quais avaliamos os nossos projetos de financiamento.

No combate às alterações climáticas, continuaremos a apoiar projetos de energia renovável e investimentos que promovam a eficiência energética, transportes limpos e as infraestruturas necessárias para acelerar a descarbonização da economia.

Obviamente, neste momento, é essencial dar continuidade às medidas de contenção dos impactos da pandemia, garantindo que as empresas viáveis têm financiamento para manterem a sua atividade e preservar o emprego, ao mesmo tempo que desenvolvem os seus projetos de investimento nas áreas da inovação e da transformação digital e climática.

Em Portugal, continuamos a colaborar com os nossos parceiros financeiros para chegar ao maior número possível de PME. As PME portuguesas são um dos principais motores do crescimento económico, do emprego e da inovação. Mas são também mais vulneráveis à atual conjuntura e o papel do BEI passa por apoiá-las no sentido de garantir acesso a liquidez e aos recursos necessários para que possam ultrapassar estes tempos difíceis.

O BEI assume como missão apoiar a economia europeia, criar empregos, promover o crescimento inclusivo e sustentável e fomentar a igualdade.  Como está a correr esta missão durante o seu mandato?
Desde que fui nomeado vice-presidente do BEI, em 16 outubro de 2020, a Europa viu-se atingida por uma nova vaga da pandemia. Uma vaga mais intensa e alargada que a anterior e que tornou ainda mais clara a importância do Banco na recuperação económica, na preservação do emprego e no financiamento da transição climática. Estas são questões vitais para assegurar um futuro melhor para todos e, ao mesmo tempo, fomentar coesão social e o crescimento inclusivo que tornam a nossa sociedade mais forte, mais resiliente e mais justa.

O Roteiro do Banco do Clima, que aprovámos em novembro de 2020, detalha os nossos objetivos para o financiamento do clima em linha com o Pacto Ecológico Europeu e contribui para que a Europa se torne o primeiro continente neutro em carbono em 2050. Este é apenas um exemplo do trabalho que desenvolvemos nestes últimos meses e que é imprescindível para dar corpo ao Pacto Ecológico Europeu.

O Roteiro estabelece como meta a mobilização de 1 000 000 milhões de euros de investimento em ação climática e sustentabilidade ambiental até 2030. Para tal, o Banco irá aumentar gradualmente o financiamento de projetos que contribuam para este objetivo até 50% da sua atividade total até 2025, mantendo este referencial doravante. Mais, a partir de 2021, todas as novas operações de financiamento do BEI estarão alinhadas o Acordo de Paris. Seremos o primeiro Banco de desenvolvimento multilateral alinhado com o Acordo de Paris.

“Do facto de assumir a função de vice-presidente do BEI nomeado pelos países ibéricos não decorre qualquer papel tratamento preferencial para Espanha ou Portugal, que fique bem claro”.

O facto de assumir o cargo de vice-presidente conjuntamente para Espanha e Portugal é uma mais-valia? Quais os desafios?
Do facto de assumir a função de vice-presidente do BEI nomeado pelos países ibéricos não decorre qualquer papel tratamento preferencial para Espanha ou Portugal, que fique bem claro. O meu papel no que respeita a Espanha e Portugal decorre da atribuição do pelouro geográfico sobre a Ibéria, ou seja, da confiança em mim depositada pelos meus colegas do Comité de Direção que sempre honrarei de forma muito séria. No que respeita a áreas geográficas sob minha responsabilidade, além das atividades na Península Ibérica, sou também responsável pela América Latina, Caraíbas, Argélia, Marrocos e Tunísia. Estamos a falar de uma área geográfica com um volume anual de atividade de cerca de 12 milhões de euros, que correspondeu a cerca de 16% do financiamento do BEI em 2020.

O facto de conhecer as economias portuguesa e espanhola é uma mais-valia reconhecida pelos meus colegas do Comité de Direção, para a atividade do BEI, na medida em que me permite dar uma visão mais informada sobre os principais desafios que estas economias enfrentam. Permite-me também identificar setores e os instrumentos financeiros em que o financiamento do BEI faz a diferença. Projetos viáveis, mas que, por questões de tomada de risco e/ou maturidade, o setor financeiro privado não financia em condições competitivas. É nestes projetos que o nosso financiamento acrescenta valor, não apenas pelo financiamento que traz ou pelo risco que toma, mas também pelo selo de qualidade que permite mobilizar investidores privados.

O âmbito das minhas responsabilidades enquanto vice-presidente do BEI é bastante vasto. Inclui também responsabilidades transversais abrangentes. Desde logo, as atividades de financiamento e gestão de tesouraria, mas também de análise económica e o relacionamento com a Comissão Europeia e o Conselho da União Europeia, em particular, no que respeita aos mecanismos financeiros do Next Generation EU e do Quadro Financeiro Plurianual, como sejam o Fundo de Recuperação e Resiliência, o Invest EU e o Mecanismo para a Transição Justa. Ao nível setorial, sou responsável pelos projetos na área da Economia Azul e dos Oceanos e pelo Financiamento das Migrações. Como vê trabalho não me falta!

“(…) o Grupo BEI esteve com os cidadãos portugueses. Demos uma resposta notável à crise económica causada pela pandemia ao adotarmos um ambicioso pacote de medidas de apoio às empresas, principalmente às PME”.

O que tem sido determinante no desempenho da sua função?
Graças à experiência e ao perfil dos colaboradores do BEI, tenho a certeza de que juntos daremos uma excelente resposta ao desafio que temos pela frente: o desafio de promover uma transição verde, digital e justa. O BEI conta com uma equipa muito profissional, extraordinariamente motivada e focada neste projeto. Sinto que faço parte dessa equipa.

A experiência ensinou-me que em funções executivas sem uma equipa motivada por detrás de nada valemos. O papel de um executivo é motivar a sua equipa e dar-lhe um rumo. Em funções executivas não se está á frente de uma equipa, isso é passado, está-se ao lado da equipa, no centro da equipa.

O BEI tem uma equipa multidisciplinar de economistas, engenheiros, analistas financeiros e especialistas ambientais que asseguram o sucesso dos nossos projetos. Que asseguram que seguimos as melhoras práticas internacionais. Os projetos em que o BEI participa são reconhecidos pela sua elevada qualidade. Essa marca de qualidade permite trazer um conjunto de investidores privados, que conjuntamente com o BEI participam no financiamento e tomam risco.

No que respeita a Portugal, o Grupo BEI esteve com os cidadãos portugueses. Demos uma resposta notável à crise económica causada pela pandemia ao adotarmos um ambicioso pacote de medidas de apoio às empresas, principalmente às PME. No ano passado, o Grupo BEI concedeu o maior volume de financiamento à economia portuguesa desde a crise financeira e das dívidas soberanas.

Foi um ano de muito trabalho para todos, mas conseguimos apoiar muitas empresas. Por esse motivo, mais de metade do financiamento destinou-se a mitigar os efeitos económicos causados pela pandemia e quase três quartos foi direcionado para PME.

Tenho muito orgulho do trabalho que estamos a fazer por Portugal, pela Europa e mais além!

O BEI tem sido um dos braços do combate aos efeitos da pandemia com o fundo de garantia pan-europeu. Quais os valores atualmente envolvidos nesse fundo? Mantém-se os 25 mil milhões de euros divulgados ou haverá reforço da verba?
O Fundo Pan-Europeu de Garantia (EGF, na sigla inglesa) assenta em garantias de quase 25 mil milhões de euros prestadas pelos Estados-membro participantes e destina-se a mobilizar, em cooperação com bancos comerciais e instituições de fomento nacionais, até 200 mil milhões de euros para apoio às empresas no contexto da pandemia. O pipeline de Portugal ao nível do EGF para 2021 é já bastante robusto.

Além do EGF, o BEI aprovou um primeiro pacote de apoio logo em março de 2020. O financiamento começou a chegar às empresas em toda a Europa pouco depois. O BEI já disponibilizou aproximadamente 20 mil milhões de euros para apoiar medidas na área saúde, bem como combater as consequências económicas da pandemia.

Temos imenso orgulho em ter apoiado o desenvolvimento e produção da primeira vacina, com um empréstimo de 100 milhões de euros à BioNTech. Mas este não é caso único, temos um pipeline de investimentos no setor da saúde que vai muito além. São cerca de 6 mil milhões de euros para financiamento de infraestruturas, investigação médica e financiamento da produção de vacinas e tratamentos para cura da doença. Globalmente, a resposta da UE foi forte e crescente à medida que os efeitos da pandemia se intensificaram. O BEI fez parte desta resposta.

O valor do investimento mobilizado pelo EGF ficará perto dos 200 mil milhões de euros. Não está previsto o reforço específico deste instrumento, na medida em que os instrumentos do Next Generation EU e do Quadro Financeiro Plurianual, como o Fundo de Recuperação e Resiliência e o Invest EU, consideram já financiamento para apoiar a recuperação da economia no contexto pós-pandemia.

“Portugal foi o 6.º país que recebeu mais financiamento do FEI ao longo do último ano”.

Quais os Estados-membros que receberam mais financiamento do Fundo Europeu de Investimento?
Os 10 Estados-membros da UE que receberam mais financiamento do FEI foram Itália, Holanda, França, Alemanha, Espanha, Portugal, Polónia, Irlanda e Estónia.

Em Portugal, o FEI (subsidiária do BEI para financiamento às PME através de intermediários financeiros) assinou 16 operações em 2020 num montante total de 951 milhões de euros, sob a forma de securitizações, garantias de carteira, financiamento inclusivo (desde microfinanciamento a empreendedorismo social) e operações de capital de risco com intermediários financeiros e fundos de capitalização de empresas. Este valor representa 7,4% do financiamento total do FEI. Portugal foi o 6.º país que recebeu mais financiamento do FEI ao longo do último ano.

O BEI responde à procura de financiamento por parte dos promotores para apoiar investimentos em diversos setores da economia. O papel dos promotores e a qualidade dos projetos são os fatores essenciais para as decisões de financiamento. O nosso financiamento não é limitado por quotas de financiamento por país. Financiamos todos os bons projetos de forma a trazer o máximo de valor para as economias.

Como está o BEI a intervir para ajudar as empresas europeias a lidarem com o impacto económico do Covid-19?
A rápida mobilização de apoio financeiro para PME e empresas de média capitalização (mid-caps) tem sido crucial para apoiar as empresas viáveis e a capacidade de produção de bens e serviços. As PME são a base da economia portuguesa, mas também da economia europeia. Geram uma grande parte do valor acrescentado e empregam a maior parte dos trabalhadores, como é bem visível em Portugal.

O EGF é um exemplo claro deste apoio. Cerca de 65% dos fundos do EGF destinam-se a PME e midcaps. São cerca de 130 mil milhões de euros. Não é coisa pouca. Sabemos bem que as PME, pela sua natureza, tendem a ser mais vulneráveis ​​a quedas súbitas da procura. Têm um portefólio de produtos menos diversificado que as empresas de maior dimensão e não têm acesso direto aos mercados financeiros internacionais ou à emissão de títulos de dívida. É, por isso, precisamente aqui que o BEI acrescenta valor, proporcionando financiamento em condições que estas empresas não teriam de outra forma.

É impressionante a criatividade e a capacidade empreendedora que muitas empresas têm revelado durante os períodos de confinamento, encontrando formas de fazer negócio, gerar receita, criar valor e preservar emprego, apesar de todas as dificuldades. Mas há, sem dúvida, uma necessidade real de apoiar as empresas em toda a UE com linhas de crédito que permitam prosseguir o negócio e estimular o investimento no período pós-pandemia.

Em relação a Portugal, destacaria o empréstimo de 340 milhões de euros que o BEI fez à Instituição Financeira de Desenvolvimento (IFD, o atual Banco Português de Fomento), o financiamento ao Grupo Santander no montante de 489 milhões de euros, bem como a operação com o Banco Montepio no montante de 229 milhões de euros. Estas operações com estas instituições financeiras permitem disponibilizar, através delas, recursos para financiar tantas empresas portuguesas, promovendo simultaneamente o crescimento económico inclusivo e a preservação de postos de trabalho.

Que avaliação faz o BEI da situação atual? Que previsões tem e qual será o impacto da pandemia na economia europeia a médio e longo prazo?
A pandemia e as inevitáveis medidas de confinamento estão a ter um impacto gigantesco sobre as economias. Diria que o impacto é mesmo maior do que aquele que é percebido pela generalidade dos cidadãos. As medidas de apoio implementadas pelas instituições europeias e pelos Governos nacionais estão a mitigar o impacto na economia como é revelado pelos números do PIB e do emprego. Todos aprendemos com os erros de política cometidos na crise financeira e na crise das dividas soberanas, que puseram em causa a integridade da área do Euro.

Mas se as políticas adotadas evitaram um colapso económico, temos também que ter a noção que geram custos que terão que ser pagos ao longo de anos. No entanto, é para isso mesmo que serve a política económica e financeira. Para mitigar os colapsos nas crises e assegurar a manutenção do nível de bem-estar na medida do possível. Não podemos é ter a ilusão que não haverá um custo futuro e que esse custo será suportado e terá impacto no médio prazo.

A pandemia atingiu a economia europeia num momento em que é crucial investir. É este o momento de investir na transição para uma economia neutra em carbono e na transformação digital e isso deve nortear a recuperação no período pós-pandemia. Esse investimento é indispensável para que a economia europeia atinja o objetivo de emissões liquidas de gases com efeito de estufa de zero em 2050, assim como de ser líder numa corrida tecnológica mundial cada vez mais competitiva.

Ora, de acordo com o nosso Relatório Anual de Investimento de 2020, 45% das empresas da UE afirmam que vão investir menos devido à pandemia. Por isso, para a Europa acompanhar a inovação tecnológica e permanecer competitiva é essencial assegurar o financiamento para que se possam atingir os níveis de investimento necessários para uma recuperação inteligente e sustentável.

O financiamento que o BEI disponibiliza vai precisamente neste sentido. Enquanto Banco da ação climática da UE e maior financiador e investidor em inovação e desenvolvimento tecnológico, estamos prontos para trabalhar com todas as empresas e proporcionar o financiamento necessário para que possam continuar a investir.

Se, e só se, fizermos um esforço enorme de investimento no curto e no médio prazo podemos assegurar que, apesar da pandemia, atingiremos o nível de vida que os cidadãos europeus ambicionam no longo prazo. Só assim cumpriremos plenamente a cidadania europeia!

E como vê a situação em Portugal?
Portugal enfrentou os desafios criados pela primeira vaga da pandemia de uma forma eficaz e aclamada internacionalmente como uma das respostas mais bem-sucedidas. Estamos agora no meio de uma nova vaga a nível europeu. E se esta vaga foi particularmente severa para com Portugal, mostrou também a resiliência dos serviços de saúde e a sua capacidade de responder numa situação dramática.

As medidas de confinamento à escala global são indispensáveis. No entanto, paralisam a atividade económica em setores muito importantes para a economia portuguesa como o turismo e as atividade associadas, o que se traduz numa forte contração da economia com reflexo sobre o emprego. As PME portuguesas estão a enfrentar estes impactos de uma forma muito intensa.

A urgência que se punha em 2020 era iminentemente a manutenção das condições de liquidez. Ou seja, assegurar que as empresas tinham dinheiro para pagar aos seus fornecedores, aos trabalhadores, mantendo os postos de trabalho, e assegurar o funcionamento possível. As moratórias bancárias e as garantias públicas foram os instrumentos adequados para tal.

A duração da crise está a ser muito maior do que todos anteciparam. Ninguém antecipou uma nova vaga com esta dimensão, nem um regresso a um confinamento total, que se revelou inevitável. A impossibilidade de realizar negócio a um nível minimamente rentável e a acumulação de prejuízos ao longo de mais de um ano começa a pôr em causa a continuidade e a solvabilidade de empresas que antes da crise tinham uma situação económica e financeira perfeitamente saudável. Este é agora o problema a que todos somos chamados a dar resposta. Manter solvabilidade das empresas economicamente viáveis, para que elas possam ser o motor da recuperação.

É fundamental criar um mecanismo de apoio à solvência e capitalização das empresas que envolva todos os atores: financiadores, credores, o Estado e também os próprios empresários. Para assegurar a solvência das empresas todos estes atores têm que estar envolvidos na solução, de forma muito paciente, dando tempo à recuperação financeira para que todos possam beneficiar dessa recuperação.

É necessário encontrar financiadores pacientes dispostos a partilhar risco com os empresários, como o Estado e o BEI, mas também atrair novo capital. É necessário que também os credores partilhem risco e estejam dispostos a aguardar pela recuperação. Mas é absolutamente fundamental que os empresários participem desse esforço de capitalização. Espero que os empresários gostem das suas empresas o suficiente e acreditem na sua própria capacidade para tomarem eles próprios mais risco no negócio que gerem. Isso é fundamental!

Quantas empresas já financiaram desde que a pandemia começou?
Em 2020, o Grupo BEI financiou diretamente as PME portuguesas em cerca de 1 700 milhões de euros, 72% da atividade total em Portugal. Trabalhamos com bancos comerciais e promocionais para alcançarmos o maior número de empresas. De acordo com as estimativas disponíveis, foi concedido financiamento direto a 4 mil empresas portuguesas, que empregam 90 mil trabalhadores. Mas esse é só primeiro elo da cadeia imensa e incontável de que falei. Sobretudo financiámos as empresas portuguesas e os portugueses. Financiamos Portugal!

“Acredito verdadeiramente no poder transformacional das start-ups e no seu contributo para o futuro da UE”.

Como vê a resposta das start-ups à crise pandémica?
As start-ups, enquanto empresas de base tecnológica, que se encontram numa fase inicial e de crescimento do seu negócio, terão sido particularmente afetadas no seu processo de desenvolvimento por esta crise. No entanto, são também empresas muito flexíveis, tendo em conta a sua pequena dimensão e os níveis de endividamento tipicamente reduzidos.

O processo de transformação digital é inadiável e é um dos pilares centrais do projeto europeu. A Europa está a trabalhar arduamente na transformação digitalização para aumentar a competitividade das suas empresas e a empregabilidade dos seus recursos humanos através de tecnologias digitais inovadoras. Neste contexto as start-ups desempenharão um papel muito importante na recuperação da nossa economia.

Como Banco da UE atribuímos ao processo de transformação digital e inovação um papel primordial e dispomos de instrumentos financeiros adequados a esses setores e um forte compromisso com a inovação e a criação de emprego qualificado. Estes são elementos-chave para uma recuperação económica sólida e inclusiva. Acredito verdadeiramente no poder transformacional das start-ups e no seu contributo para o futuro da UE.

Há espaço no BEI para este perfil empresas, as start-ups?
O Grupo BEI é o maior financiador de inovação na Europa, assim como um dos maiores fornecedores mundiais de capital de risco, através de investimentos em fundos de capital de risco. O Banco da UE oferece capital de risco a empresas em desenvolvimento que procuram um parceiro para expandir as suas atividades. Financia programas de pesquisa e desenvolvimento para que as empresas europeias possam ser cada vez mais competitivas nos mercados globais.

Gostava de referir que pelo terceiro ano consecutivo, o Grupo BEI participou no Web Summit, a principal conferência de tecnologia da Europa, que conta com 70 mil participantes de 170 países. Esse é o fórum ideal para interagirmos com empreendedores e start-ups, encontrar novos projetos e apoiar empresas inovadoras.

Durante a edição de 2020, anunciámos um empréstimo de 20 milhões de euros à empresa de software portuguesa Bizay, para financiamento da implementação do seu programa de pesquisa e desenvolvimento novos produtos. Este apoio permitirá à Bizay desenvolver ainda mais o seu marketplace tecnológico B2B para produtos personalizados direcionados a lojas, restaurantes, hotéis e pequenas empresas.

Considerando que a crise provocada pela pandemia parece não ter um fim anunciado, que medidas o BEI planeia implementar ao longo do ano para apoiar as empresas em dificuldades?
Tal como em 2020, o BEI continuará a contribuir para atenuar os efeitos económicos da pandemia com o foco em duas áreas principais: o apoio ao setor da saúde e a facilitação do acesso das PME a financiamento para o combate às alterações climáticas e para a inovação.

A crise mundial desencadeada pela pandemia evidenciou também a necessidade de reforçar as infraestruturas sociais por toda a Europa. Em 2020, o BEI uniu novamente esforços com a IFD, atual Banco Português de Fomento, para financiar cerca de 150 projetos através de um programa de investimento de 400 milhões de euros, destinado a modernizar as infraestruturas e melhorar os serviços de cuidados continuados em Portugal. Os fundos são canalizados para entidades do terceiro setor que prestam serviços a grupos de idosos, nomeadamente nas áreas da saúde, alojamento e apoio social.

Continuaremos a apoiar projetos que contribuam para conter a disseminação do vírus, através da investigação ao nível dos tratamentos e do desenvolvimento e produção de vacinas. Continuaremos a apoiar medidas de emergência para financiar as infraestruturas médicas e sociais e as necessidades dos especialistas da saúde.

“Tenho bem a noção que liderar não é estar à frente, é estar no centro, ao lado de aqueles que por nós dão tudo e que sem a nossa equipa não somos nada”.

De que forma a sua experiência com secretário de Estado Adjunto e das Finanças o tem ajudado no desempenho do cargo que ocupa agora?
O que somos em cada momento é um acumulado de todas as experiências da nossa vida. Tenho como motivação continuar a aprender sempre e até ao último dia. E sinto como missão pôr o meu conhecimento e experiência ao serviço da sociedade. É assim que entendo a vida. Aprender o máximo e dar sempre o melhor que tenho.

Por isso, toda a experiência que acumulei ao longo da vida e, em particular, nas diversas funções que desempenhei no Banco de Portugal e enquanto Secretário de Estado me ajudam no desempenho das funções de vice-presidente do BEI. Mas também o que aprendi no ISEG e na Nova enquanto aluno, o que aprendi com os meus alunos enquanto professor, o que aprendi no movimento associativo e na minha participação política são experiências que me ajudam muito. São tudo ativos que utilizo todos os dias e que trazem valor acrescentado ao BEI.

O conhecimento técnico que acumulei, o gosto e a vontade de gerir equipas altamente motivadas e coesas são fundamentais. Tenho bem a noção que liderar não é estar à frente, é estar no centro, ao lado de aqueles que por nós dão tudo e que sem a nossa equipa não somos nada. Mas também as capacidades comunicacionais que penso ter desenvolvido, a capacidade de transmitir ideias e anseios, seja junto da equipa, seja com a comunicação social. Aprendi nas funções governativas a ter um relacionamento franco e aberto com a comunicação social. A comunicação social é fundamental para passar a mensagem e desempenha um papel essencial nas sociedades democráticas, em que o escrutínio público mais do que uma obrigação é um dever.

Tenho muito a agradecer a tantos que me ensinaram tanto e também àqueles que em mim confiaram o desempenho destas funções. Farei o meu melhor! Creio que será suficiente!

Comentários

Artigos Relacionados

Pedro Machado, presidente da Turismo Centro Portugal
Vítor Sevilhano, sócio-gerente da Escola Europeia de Coaching