A TechnoPhage pretende eliminar as três bactérias que estão na origem do “pé diabético” através de um cocktail de vírus. Neste momento estão já a ser efetuados testes clínicos em Israel e “é expectável que dentro das próximas quatro a oito semanas tenhamos os primeiros resultados relativamente à segurança e tolerabilidade do produto”, revelou Miguel Garcia, CEO da empresa biofarmacêutica, ao Link To Leaders.

A TechnoPhage começou em fevereiro os primeiros ensaios clínicos de um novo fármaco que promete tratar o “pé diabético” de forma inovadora. Os testes estão a decorrer em Israel, com 28 voluntários. O medicamento, criado entre Lisboa e Venda Nova, pode não tratar a diabetes, mas promete eliminar as bactérias que geram as infeções que muitas vezes terminam em amputações.

O estudo está a ser conduzido sob a aprovação do Ministério da Saúde local, assim como pela FDA – Food and Drug Administration – dos Estados Unidos da América. Este será o primeiro medicamento biológico, com patente portuguesa, a obter uma autorização para ensaio clínico concedida por esta entidade.

“Esta é realmente uma terapia nova, inovadora, não existindo nenhum produto de terapia fágica para uso terapêutico humano aprovado pela EMA [Agência Europeia de Medicamentos] ou FDA [agência norte-americana de medicamentos]. A TechnoPhage está em competição com um muito restrito grupo de empresas, americanas e europeias, para ser a primeira empresa a nível global a fazê-lo e estamos neste momento muito bem colocados para o poder fazer”, afirmou Miguel Garcia, CEO da empresa.

Como e quando surgiu a TechnoPhage?
A Technophage nasceu em 2005. A ideia surgiu bastante mais cedo, a partir da ambição de explorar o potencial dos bacteriófagos enquanto medicamentos. Esta foi a área na qual tinham incidido os estudos de doutoramento de alguns dos fundadores da empresa e, portanto, estávamos conscientes dos benefícios que os bacteriófagos poderiam trazer e das soluções terapêuticas que poderiam constituir. A partir desta ideia foi necessário identificar e envolver os parceiros industriais/organizacionais, de forma a constituir uma empresa sólida e coesa, para poder enfrentar os desafios com a dose certa de inovação e solidez.

No início a equipa era muito reduzida e a investigação incidia sobretudo na descoberta de novos bacteriófagos e na respetiva caracterização. Com o decorrer do tempo e com a inclusão de colaboradores provenientes de outras áreas de especialidade, expandimos a Technophage em termos de plataformas tecnológicas e começámos, também, a desenvolver soluções terapêuticas baseadas em anticorpos e pequenas moléculas. Em termos de indicações terapêuticas, estamos focados em desenvolver soluções terapêuticas para indicações clínicas que ainda carecem de alternativas terapêuticas nas áreas da infeção, neurociências, oftalmologia e, mais recentemente, oncologia.

Ao fim de 15 anos de investigação e desenvolvimento, conseguiram arrancar com o primeiro ensaio clínico em humanos. Falamos do cocktail de bacteriófagos para tratamento das feridas do pé-diabético. Quais têm sido os maiores desafios e qual a vossa expetativa?
A empresa esteve, até cerca de 2014, bastante focada na descoberta de novas entidades com potencial terapêutico, derivadas das plataformas terapêuticas e nas áreas terapêuticas referidas anteriormente e no seu desenvolvimento pré-clínico. A partir dessa data iniciámos a preparação da empresa para a entrada num “clube” bastante mais restrito, o das empresas em fases de desenvolvimento clínico (que envolve ensaios em humanos). De facto, as exigências em termos de competências, de recursos humanos, de recursos financeiros, de infraestruturas de investigação e de produção e, até, de estruturação da própria empresa, são totalmente diferentes quando se entra em fases clínicas e essa é a razão para que o número de empresas, a nível global, seja muito menor nessas fases.

Nos últimos anos apostámos bastante na criação dessa estrutura, temos agora uma equipa de enorme qualidade, capaz de gerir o desenvolvimento dos projetos na sua globalidade o que nos deixa muito otimistas para enfrentar os desafios futuros. Em relação a infraestruturas investimos, também, na criação de uma unidade de produção de medicamentos biológicos para a produção dos lotes para os ensaios clínicos, em standard de boas práticas farmacêuticas (GMP). Desse trabalho começámos a ter os frutos em 2020, ano em que tivemos a inspeção por parte do Infarmed e estamos, desde 2020, a produzir os nossos próprios lotes de medicamentos biológicos nas nossas instalações e com a nossa própria equipa de produção, formulação e desenvolvimento de processo.

O principal desafio foi a criação, numa empresa portuguesa e com base em Portugal, das condições necessárias para desenvolver medicamentos inovadores e avançar na cadeia de desenvolvimento de novos medicamentos para fases de elevado valor acrescentado, mantendo, deste modo, o centro de decisão em Portugal. Como sabemos esta área não tem grande tradição em Portugal, constituindo assim um desafio bastante ambicioso. Associado a este grande desafio, posso também referir que o facto de as nossas tecnologias serem inovadoras e nem existirem, ainda, normas regulamentares bem estabelecidas pelas diferentes autoridades de saúde, EMA ou FDA, constitui um estímulo acrescido.

“Todas as tarefas desde o desenho do protocolo clínico, passando pela logística de levar os lotes de medicamento de Portugal até Israel e pela formação da equipa que conduzirá o ensaio no local foi coordenada pelo promotor do ensaio, a TechnoPhage”.

Como foi desenvolvido este ensaio clínico para o medicamento biológico TP-102?
O Ensaio Clínico do TP-102, um cocktail de bacteriófagos para a infeção no pé diabético, foi desenhado e planeado integralmente por um grupo de pessoas da equipa da TechnoPhage com o apoio da VectorB2B, uma Associação sem Fins Lucrativos da qual a TechnoPhage também faz parte, que tem uma equipa que se dedica a fornecer serviços na área regulamentar e no apoio à implementação de Ensaios Clínicos.

Recorremos, também, ao aconselhamento clínico junto de médicos de reconhecida experiência na área do pé diabético. Em relação à implementação do ensaio, foi necessário a subcontratação de diversas atividades, nomeadamente toda a componente logística, uma vez que o ensaio está a decorrer em Israel. No entanto, todas as tarefas desde o desenho do protocolo clínico, passando pela logística de levar os lotes de medicamento de Portugal até Israel e pela formação da equipa que conduzirá o ensaio no local foi coordenada pelo promotor do ensaio, a TechnoPhage.

É a primeira autorização da FDA para um ensaio em humanos de uma molécula biológica portuguesa?Sim, tanto quanto sabemos é a primeira.

Foi fácil conseguir a aprovação da autoridade americana do medicamento?
Esta é realmente uma terapia nova, inovadora, não existindo nenhum produto de terapia fágica aprovado para uso terapêutico humano aprovado pela EMA ou FDA. A TechnoPhage está em competição com um muito restrito grupo de empresas, americanas e europeias, para ser a primeira empresa a nível global a fazê-lo e estamos neste momento muito bem colocados para o poder fazer. Por esse motivo, não existe um caminho regulamentar totalmente estabelecido para este tipo de terapia e as autoridades regulamentares estão a definir, em tempo real, qual o caminho que cada produto deve percorrer até que seja aprovado para entrada em ensaios clínicos e, posteriormente, em mercado.

De facto, embora esta aprovação para entrada em ensaios clínicos, por parte da FDA, tenha demorado algum tempo e tenha sido um grande desafio foi também, provavelmente, um dos aspetos que mais nos fez crescer enquanto empresa, também pela disponibilidade e pela atitude, sempre pedagógica, da FDA que interage connosco de uma forma muito interessante e muito científica, tendo sempre em mente o equilíbrio entre os benefícios e riscos do produto em desenvolvimento.

Quando chegarão os primeiros resultados deste ensaio clínico?
É expectável que dentro das próximas quatro a oito semanas tenhamos os primeiros resultados relativamente à segurança e tolerabilidade do produto.

Numa altura em que o grande foco tem estado nas vacinas, qual tem sido o contributo da empresa para a Covid-19?
Desde o início da pandemia que procurámos utilizar os nossos recursos e o nosso conhecimento para encontrar uma opção terapêutica também para a Covid-19. Assim, decidimos incidir a nossa investigação no desenvolvimento de um novo anticorpo terapêutico, utilizando a tecnologia de que dispúnhamos e que já estava ao nosso alcance. O projeto, que está a ser desenvolvido em parceria com a empresa farmacêutica portuguesa Medinfar, tem como objetivo encontrar um fragmento de anticorpo sintético e neutralizante, que reconheça as proteínas de superfície dos vírus e impeça a sua ligação aos recetores das células alvo. Este projeto encontra-se a decorrer há já alguns meses e é expectável que tenhamos resultados pre-clínicos até ao verão.

Podemos dizer que temos uma TechnoPhage antes e pós-Covid?
Podemos dividir a resposta a esta questão em duas partes. Em relação aos objetivos estratégicos pouco mudou, já que os problemas terapêuticos para os quais pretendemos contribuir estão bem delineados e manter-se-ão após esta fase. Em relação ao projeto de fragmento de anticorpo terapêutico anti-SarsCov2, trata-se de um projeto onde procuramos colocar as nossas capacidades e recursos ao serviço da procura de um instrumento terapêutico tão urgente e necessário à sociedade global, não se tratando de qualquer alteração estratégica da empresa.

Em relação à forma de interação na empresa e entre a empresa e todas as restantes entidades, podemos dizer que muitas coisas se alteraram. Implementámos, desde logo, um plano de contingência cuidadoso que nos permitiu proteger os nossos trabalhadores do vírus e, consequentemente, todo o nosso trabalho. Reorganizámos a nossa equipa para que todos os que tivessem essa possibilidade trabalhassem em teletrabalho, reorganizámos os escritórios para garantir, aos restantes, distância de segurança, mantivemos todas as nossas reuniões semanais e adaptámo-nos muito bem à videoconferência e ainda reorganizamos o trabalho de laboratório para fazer face às ruturas de stock que têm vindo a surgir. Como em muitas outras empresas algumas destas mudanças vieram para ficar, como, por exemplo, a maior facilidade de interação entre as equipas da TechnoPhage que estão localizadas em diferentes locais.

“Em 2020 a TechnoPhage foi aceite como empresa residente em Beerse, na Bélgica, no centro de inovação JLABS da Johnson & Johnson, para estabelecer a sua plataforma para o desenvolvimento de projetos na área da oncologia”.

Que outros projetos têm em mãos?
Trabalhamos predominantemente em quatro áreas terapêuticas distintas (Infeção, Neurociências, Oftalmologia e, mais recentemente, Oncologia) e respondemos a estes desafios utilizando três tecnologias diferentes: bacteriófagos, fragmentos de anticorpos e as pequenas moléculas. Na área da Infeção desenvolvemos, sobretudo, produtos baseados em bacteriófagos, mas também fragmentos de anticorpos para o tratamento de infeções de pé-diabético, infeções respiratórias, urinárias e, mais recentemente, Covid-19.

Na área das Neurociências e da Oftalmologia desenvolvemos pequenos domínios de anticorpos e pequenas moléculas que pretendem oferecer soluções terapêuticas e de diagnóstico em diferentes áreas, tais como Alzheimer, Parkinson, Degenerescência Macular da Idade entre outros. Todos estes projetos estão atualmente a decorrer e em desenvolvimento simultâneo. Em 2020 a TechnoPhage foi aceite como empresa residente em Beerse, na Bélgica, no centro de inovação JLABS da Johnson & Johnson, para estabelecer a sua plataforma para o desenvolvimento de projetos na área da oncologia.

A TechnoPhage teve na infeção o seu primeiro campo de atuação.  Hoje em dia, qual a área de maior aposta da TechnoPhage?
Neste momento a empresa tem em desenvolvimento dez produtos em diferentes fases e todos eles são grandes apostas da empresa. O projeto mais avançado é o TP-102.

O que têm feito para aumentar o vosso pipeline de tecnologias proprietárias e produtos derivados?
A TechnoPhage baseia toda a sua atividade em tecnologias e produtos proprietários. Com efeito a empresa está desde há longos anos sempre bem colocada nos diversos rankings das empresas portuguesas com base na sua produção de propriedade intelectual, ou seja, patentes. É uma grande aposta da empresa, desde o seu início.

Qual tem sido o contributo da TechnoPhape para a inovação?
Penso que o facto de estar sistematicamente bem colocada nos rankings de produção de propriedade intelectual reflete a aposta da empresa na propriedade intelectual e o seu contributo para a inovação. A empresa está também presente na lista das 100 empresas portuguesas que mais investem em investigação e desenvolvimento.

Além disso a empresa atua com competidores globais e com terapias inovadoras o que obriga a permanente inovação, não só a nível científico, mas também a nível regulamentar de forma a dar resposta às exigências que se vão colocando à medida que se avança, uma vez que o caminho regulamentar não está definido à partida.

“Penso que é necessário aumentar o número de start-ups nesta área para que seja mais fácil fazer-se a ponte entre a investigação fundamental e a sua transformação em medicamentos uteis e que acrescentem valor à sociedade”.

E qual acha que tem sido o contributo das start-ups na área da investigação na saúde?
Portugal tem um excelente nível de investigação fundamental, com investigadores de enorme qualidade. No entanto, à medida que se avança na cadeia de desenvolvimento de medicamentos, nomeadamente de medicamentos biológicos, não há em Portugal muita experiência, o que dificulta a constituição de uma massa critica nacional, essencial para o sucesso dos projetos. Sendo assim, penso que é necessário aumentar o número de start-ups nesta área para que seja mais fácil fazer-se a ponte entre a investigação fundamental e a sua transformação em medicamentos uteis e que acrescentem valor à sociedade.

Como podem ou estão a contribuir para a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde?
Focando, por simplificação, nos projetos mais avançados na TechnoPhage, na área da infeção. Uma das áreas que mais sobrecarrega os sistemas de saúde, com maiores gastos e maior impacto a nível global é a área da resistência aos antibióticos. De facto, se nada mudar, estima-se que de 2050 em diante possam ocorrer cerca de 10 milhões de mortes anuais, a nível global, como resultado de infeções causadas por bactérias resistentes aos antibióticos. Estes números são absolutamente avassaladores e é difícil imaginar como será, uma vez que esta problemática hoje em dia já põe em causa a sustentabilidade do Sistema Nacional de Saúde.

Com o desenvolvimento de produtos terapêuticos baseados em bacteriófagos esperamos contribuir para o combate às infeções resistentes aos antimicrobianos, diminuindo o número de dias de terapia e de internamentos, mas também os custos globais associados a este problema.

Quais os planos para o futuro da TechnoPhage?
Num setor tão competitivo como o desenvolvimento de novos medicamentos inovadores, os planos futuros nem sempre podem ser anunciados prematuramente. Mas de uma maneira genérica posso dizer que temos como planos o avanço gradual dos projetos em desenvolvimento, a consolidação como empresa em fase clínica com o aumento de projetos nestas fases, tendo sempre como objetivo ambicioso o desenvolvimento das fases tardias de desenvolvimento de medicamentos biológicos inovadores portugueses com base em Portugal.

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