Antes de mais confesso que evidentemente os tempos mudaram e, pessoalmente, sinto que por vezes tenho alguma dificuldade em adaptar-me a novas tendências ou, quiçá melhor dizendo, em entender alguns conceitos que vão aparecendo no nosso mercado profissional atual.

Sei que o advento dos millennials, a famosa Geração Y, trouxe uma filosofia muito diferente ao mercado de trabalho, onde as novas tecnologias são, para eles, tudo menos um processo de aprendizagem, mas sim algo inato ao seu próprio crescimento. É fácil entender também que com esta nova vaga de profissionais no mercado algo mais teria tendência a mudar, nomeadamente a sua atitude perante a oferta profissional existente.

Talvez a nostalgia seja prejudicial nestas coisas, mas como diziam os nossos pais e avós – e agora dizemos nós… -, “ainda sou do tempo…”. Sim, ainda sou desse tempo. Do tempo em que no final do percurso académico era necessário, com mais ou menos esforço, procurar ativamente um primeiro emprego, mandar currículos por correio, responder a anúncios, alguns atenderem aos convites que recebiam, etc. Sou desse tempo em que os telemóveis não permitiam um contato ainda tão direto, em que não havia LinkedIn ou ferramentas semelhantes. Aqueles dias em que sentíamos o arrepio na espinha quando nos marcavam uma entrevista de emprego, as horas passadas a preparar a mesma, a rever o currículo e a pensar nas respostas que teríamos de dar para perguntas mais difíceis.

Em retrospetiva, entendo hoje de forma clara que sou do tempo do que poderíamos designar como “employee branding”, em que cada indivíduo era responsável pelo seu marketing pessoal perante as entidades empregadoras, procurando convencer os responsáveis pelo recrutamento a verem além da tinta constante do currículo e a decidirem-se, afinal, pela nossa contratação.

É por estas razões arcaicas, entendo, que hoje me faz alguma confusão assistir aos novos paradigmas e formas de atuação nos processos de seleção e recrutamento de colaboradores em várias empresas. Se porventura descobri o termo “employer branding” foi efetivamente porque fui confrontado com uma nova maneira de encarar o mercado de trabalho com a qual confessamente não me identifiquei, e que, acima de tudo, não consegui reconhecer.

Não entrando em muitos detalhes, e passando também por cima de atrasos na resposta a convites para entrevistas, atrasos para as próprias entrevistas, afirmações de pouco interesse nos cargos, exigências claras dos candidatos quanto ao que esperam que a entidade empregadora lhes dê e deixe fazer (o que não critico e até entendo ser benéfico para podermos rapidamente alinhar ideias ou não), o que mais me espantou foi ver a perversão das entrevistas a um tal ponto em que é a possível entidade empregadora que passa pelo processo de convencer o possível funcionário acerca dos méritos e filosofia de determinada instituição.

Sem dúvida que esta mudança é também decorrência da cada vez maior concorrência no mercado de trabalho a nível das entidades empregadoras. Admito isso e aceito. Aceito também que seja necessário sermos claros, coerentes e enfáticos na forma como apresentamos a “nossa casa”, sabendo que todos temos méritos e para reter os melhores, temos de ter uma excelente premissa quanto ao que oferecemos. Mas não admito, e não posso admitir, que esta política de marketing de entidades empregadoras leve ao ridículo de passarmos mais tempo a tentar convencer alguém a trabalhar connosco, do que propriamente um candidato a procurar convencer alguém que ele ou ela será a melhor alternativa disponível no mercado.

Quem vê isto acontecer claramente pensa que só podemos estar num cenário de pleno emprego, em que a alternativa da dependência dos subsídios estatais é sempre melhor do que a de encontrar uma colocação. Ou então já estou como diz a famosa expressão popular. O problema é que a maioria das pessoas busca emprego, não trabalho.

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Nuno Madeira Rodrigues é Country Manager PT Arnold Investments e Chairman da BDJ S.A. Anteriormente foi Chairman da Lusitano SAD, Administrador do Grupo HBD e Presidente do Conselho de Administração da Lusitano, SAD, e do Conselho Fiscal da Associação Lusófona... Ler Mais