Entrevista/ “É fundamental deixarem de existir “exceções” para as mulheres”

Ana Claudia Ruiz, diretora-geral da Coca-Cola Portugal

A diretora-geral da Coca-Cola Portugal defende que é preciso continuar a criar uma cultura organizacional que valorize não só a diversidade, mas também a inclusão, de forma a tirar o melhor partido de cada pessoa, independentemente do género. Ana Claudia Ruiz acredita que hoje “os desafios são para todos, e não apenas para as mulheres”.

No início de 2022, quando aceitou o cargo de diretora-geral da Coca-Cola Portugal, Ana Claudia Ruiz assumiu um novo desafio depois de uma vasta experiência internacional. Licenciada em Economia, pela Universidade Iberoamericana do México, e com um MBA pela London Business School, Ana Claudia é natural do México e foi no seu país de origem que iniciou a sua experiência profissional, na área da banca e finanças.

A partir daí deu o salto para outros países, como Espanha, Inglaterra e Portugal, e para outros setores de atividade ligados ao consumo, até chegar à Coca-Cola Portugal. Comprometida com as causas da igualdade de género e com o empoderamento feminino, reconhece, contudo, que atualmente “os desafios são para todos, e não apenas para as mulheres”.

Em entrevista ao Link to Leaders, a diretora-geral da Coca-Cola Portugal fala das experiências que teve em vários países, com diferentes culturas, e dos desafios de ser mulher no mundo dos negócios. Às jovens que ambicionam chegar a cargos de liderança deixa um conselho: “acreditem no seu potencial, não desistam, sejam curiosas, focadas e persistentes em concretizar os seus objetivos”.

Quem é a Ana Claudia Ruiz?
Sou curiosa, determinada, com vontade de aprender e fazer cada vez mais e melhor. Sou sobretudo uma pessoa de pessoas.

Quais os principais desafios que enfrenta diariamente para ajudar a fazer crescer uma marca com mais de 130 anos?
O grande desafio passa por continuar a surpreender o consumidor com uma marca de sempre, adaptando-nos às constantes mudanças do mercado e antecipando as necessidades dos nossos consumidores.

“É importante, por exemplo, a promoção de uma cultura de trabalho flexível que permita conjugar a vida profissional e familiar (…)”.

No atual mundo empresarial, a presença das mulheres em cargos de liderança tem crescido consideravelmente. Mas o que ainda falta fazer? Qual deve ser o caminho?
Em geral, continuar a criar uma cultura organizacional que valorize não só a diversidade, mas também a inclusão, de forma a tirar o melhor partido de cada pessoa, independentemente do género, porque nem todos temos a mesma forma de liderar e essa apreciação é fundamental.
Há uma grande evolução nesse aspeto, mas ainda existe um caminho a percorrer. É importante, por exemplo, a promoção de uma cultura de trabalho flexível que permita conjugar a vida profissional e familiar, tanto para as mulheres como para os homens. É fundamental deixarem de existir “exceções” para as mulheres, e fomentar o princípio de que as responsabilidades familiares (e o luxo de poder acompanhar a família) é de e para todos.

Como é ser mulher em 2024?
Os desafios são para todos, e não apenas para as mulheres. No mundo em que vivemos atualmente, onde temos constantemente a oportunidade de aprender, e também muitas distrações, é muito importante saber onde queremos chegar e a forma como lá queremos chegar. Esta introspeção é fundamental para saber como queremos investir o nosso tempo e esforço no dia a dia e assim alcançar o equilíbrio que nos deixa felizes.

De que forma a Professional Women’s Network tem contribuído para o desenvolvimento profissional das mulheres?
A Professional Women’s Network é uma organização com um propósito muito nobre e que desempenha um papel muito importante no desenvolvimento profissional das mulheres, oferecendo netwoking e partilha de conhecimentos e experiências. Há cinco anos que sou mentora e tem sido muito enriquecedor poder dar o meu contributo, apoiando outras mulheres a alcançar os seus objetivos no mundo do trabalho.

“(…) Acredito que os portugueses são profissionais muito competentes e completos em termos de experiência, esforço e criatividade (…)”.

Depois da sua experiência profissional noutros mercados, como analisa a realidade portuguesa comparativamente a esses?
O mercado português tem uma dimensão menor em comparação com outros mercados onde já trabalhei, o que permite ter uma função mais rica, trazendo agilidade no dia a dia, mas em contrapartida temos uma menor escala. Para além disso, acredito que os portugueses são profissionais muito competentes e completos em termos de experiência, esforço e criatividade, e isso sempre nos permitiu abraçar projetos super ambiciosos com muito sucesso. Sem dúvida que gosto muito de trabalhar em Portugal e com portugueses.

Há algum projeto que gostasse de implementar na Coca-Cola que tivesse o seu cunho?
A Coca-Cola é uma marca muito inovadora e dinâmica, onde diariamente tenho a sorte de poder abraçar projetos que me desafiam. Estes projetos resultam de um trabalho de equipa, em que procuramos encontrar a relevância local de uma direção estabelecida globalmente, pelo que há muitos projetos em “pipeline”.

Que conselho deixaria a uma jovem com ambição de alcançar um cargo de liderança?
Que acreditem no seu potencial, não desistam, sejam curiosas, focadas e persistentes em concretizar os seus objetivos. É importante aproveitar o momento, cada experiência, cada aprendizagem e tirar o melhor partido de cada etapa.

“(…) a vida tem-me ensinado que, às vezes, o que mais feliz nos faz, são as coisas mais simples (…)”.

O que falta fazer à Ana Claudia Ruiz executiva/líder? E à Ana Claudia Ruiz mulher?
Existem sempre coisas que nos faltam fazer quer a nível profissional quer pessoal. Eu quase que gostaria de ter duas vidas paralelas para explorar e experienciar mais coisas… viagens, percursos profissionais, temas para estudar, mais tempo com amigos e família… enfim…, mas a vida é feita de escolhas e confesso que acho que tenho feitos algumas muito boas e estou contente com o meu percurso até agora.

Já tive a oportunidade de viver e ter experiências profissionais em vários países, com diferentes culturas, o que é muito enriquecedor e contribuiu para a mulher que sou hoje. O que posso partilhar é que a vida tem-me ensinado que, às vezes, o que mais feliz nos faz, são as coisas mais simples e que de tudo podemos sempre tirar uma boa aprendizagem, se estivermos dispostos a recebê-la!

Respostas rápidas:
Maior risco: Aproveitar que o meu chefe estava no avião, e não podia ser contatado, para fazer um ultimato a uma negociação (numa transação que não poderia perder). No final, conseguimos chegar a um bom acordo felizmente!
Maior erro: Aceitar uma função que não gostava só por ser o passo seguinte mais óbvio na minha carreira.
Maior lição: Perceber a relevância das diferenças culturais quando abraçamos um desafio profissional num novo país
Maior conquista: Conseguir equilibrar uma carreira profissional com a vida familiar

Comentários

Artigos Relacionados