Opinião

Diz-me o que vestes, dir-te-ei quem és

Diogo Alarcão, gestor

Há uns dias, fui convidado por um amigo para almoçar. Tive que pôr uma gravata, coisa que já raramente faço. Não tenho nada contra gravatas, mas fui deixando de as usar. Ultimamente, só as vou buscar ao armário quando vou a um casamento.

O facto de ter que escolher uma gravata para ir almoçar com um amigo fez-me pensar na importância do que vestimos e no que as nossas “opções de guarda-roupa” podem representar para os outros. Esta reflexão fez-me recordar uma outra conversa que tive, com um outro amigo, sobre se a forma como nos vestimos deve ser influenciada pela nossa idade ou não.

Vamos por partes…

Comecemos pelo chamado dress code. Temos assistido nos últimos anos a diversos debates sobre se as empresas devem ou não exigir aos seus colaboradores determinadas formas de vestir. Na realidade, embora seja aceite com naturalidade o uso de fardas em algumas profissões, como por exemplo nas forças de segurança ou nas companhias aéreas, temos assistido a uma progressiva liberalização das formas de vestir, nomeadamente no setor dos Serviços. Há uns anos, a grande maioria dos homens vestia fato e gravata para ir trabalhar independentemente do setor: seguros, banca, consultoria, telecomunicações, turismo, saúde, distribuição, energia, bens de consumo, entre tantos outros. Ainda neste século, era comum as empresas exigirem ou fazerem fortes recomendações para que os seus colaboradores usassem fato e gravata.

Na última década, porém, assistiu-se a um progressivo abandono, primeiro da gravata e depois do fato. A liberalização do dress code nas empresas tornou mais visível as diferentes origens e estratos económico-sociais, mas também os gostos pessoais e o bom senso… ou a falta dele! Vejo inúmeras vantagens em deixar os colaboradores decidir o seu próprio dress code, não só porque é uma forma de respeitar a sua individualidade, mas também porque torna as pessoas mais felizes e motivadas.

Mas, por favor, haja bom senso nas escolhas que fazemos quando nos vestimos para ir trabalhar!

Isto leva-me à outra conversa que tive com o outro amigo. Confessei-lhe na altura que, embora me considere um liberal na forma como me visto, tenho receio de um dia me tornar ridículo devido às opções de vestuário. Dei como exemplo aquelas pessoas que vestem roupas que já não são adequadas à sua idade. Fui energicamente criticado com duas questões que me deixaram a pensar:

  1. Mas, tu vestes-te a pensar nos outros?
  2. O que é isso de parecer ridículo?

Ao contrário desse meu amigo, e apesar de procurar ter um estilo próprio, cheguei à conclusão que em contexto profissional visto-me a pensar nos outros quando escolho uma indumentária que se adeque ao ambiente e às pessoas com quem vou estar. Claro que a situação se complica quando, no mesmo dia, vou estar em ambientes e com pessoas muito diferentes! Embora hoje em dia seja adepto da não existência de um dress code, considero que o mesmo pode ser importante. Não para impor padrões, mas para que nos possamos respeitar mutuamente e adaptar uns aos outros. Já no que se refere à questão do “ridículo”, cheguei à conclusão que é algo do foro muito mais pessoal e íntimo pelo que me absterei de aprofundar o tema aqui. Será excelente que ninguém se sinta ridículo e que não se coiba nas suas opções por se sentir ridículo, mas eu continuarei a ajuizar as minhas opções tendo também por base esse critério.

Pergunta-se o leitor o que é que tudo isto tem que ver com liderança e com as empresas. Pois bem, na minha opinião a forma como nos vestimos e como encaramos estas questões do dress code nas organizações são também reflexo da forma como nos comportamos como líderes. Opções mais conservadoras ou mais liberais poderão transmitir mensagens importantes para as equipas. Uns dirão que a sua empresa é conservadora nos seus Valores, Visão e Propósito e, por isso, faz sentido a existência de um dress code mais formal claramente definido e comunicado às pessoas.

Para outros, a sua empresa é liberal nos seus Valores, Visão e Propósito e, por isso, é importante dar total liberdade às pessoas para escolherem a forma como se vestem para virem trabalhar e estar com os clientes/fornecedores. Há, claro está, a terceira opção: o meio-termo em que, embora não se defina um dress code vinculatório, são feitas recomendações ou dadas diretrizes.

Tenho observado que a forma como muitos líderes se vestem, em ambiente profissional, serve para dar sinais sobre como entendem o exercício do poder e sobre a sua visão em relação à estrutura organizacional e aos processos de tomada de decisão na empresa que lideram. Quem exerce um estilo de liderança mais hierárquico, rígido e formal tende a optar por um dress code mais conservador. Quem, pelo contrário, pretende adotar modelos de gestão mais informais assentes na proximidade e na cocriação, tende a optar por dress code mais informais ou, pura e simplesmente, pela total ausência de dress code.

Neste sentido, pode ser útil observar a forma como é que o líder da minha equipa ou a da minha organização se veste. Isso, poderá ajudar-nos a perceber melhor a pessoa que nos lidera e a decidir como nos comportar:

  1. Replicar o dress code do líder porque me revejo no mesmo ou porque é uma forma de criar maior alinhamento, quer seja no sentido de maior ou menor formalidade face ao que é a minha própria realidade;
  2. Manter o meu próprio dress code, distinto do da pessoa que me lidera, porque pretendo fazer saber que para mim é muito importante respeitar a individualidade de cada um e porque quero preservar a minha autonomia e identidade mesmo que seja diferente da maioria.

Quem nunca observou a forma como um colega se veste? Quem nunca se sentiu desconfortável em relação a uma opção, própria ou alheia, de vestuário em contexto profissional? Quem nunca disse para si próprio: se soubesse, tinha vestido outra coisa? Há, claro está, muitas outras formas de demonstrar o nosso alinhamento ou não alinhamento face às nossas lideranças e, certamente, a forma como nos vestimos não é a mais importante e eficaz. No entanto, acredito que pode facilitar ou dificultar a construção de relações em contexto profissional.

A opção que tomei de usar uma gravata para ir almoçar com um amigo teve por base uma vontade consciente de estar alinhado com coisas que sei que ele valoriza: a História, as Tradições, as Raízes (familiares e culturais). Qualquer dia irei almoçar com o outro meu amigo e o meu dress code será totalmente diferente.

É assim que vou gerindo a forma como me visto, mas também como tenho gerido equipas e projetos: procuro adaptar-me ao que as pessoas mais valorizam, sem perder a minha própria identidade.

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Diogo Alarcão

Diogo Alarcão

Diogo Alarcão tem feito a sua carreira essencialmente na área da Gestão e Consultoria. Atualmente é Vogal do Conselho de Administração da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões. Foi Chairman da Marsh & McLennan Companies Portugal e CEO da Mercer Portugal. Foi Diretor da Direção de Investimento Internacional do ICEP, de 1996 a 2003. Foi assessor do Presidente da Agência Portuguesa para o Investimento de 2003 a 2006. Licenciado em Direito, pela Universidade de Lisboa, concluiu posteriormente... Ler Mais..

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