Desde as minhas aulas de Filosofia no 10º ano que a figura do filósofo Grego Diógenes faz parte da minha admiração, imaginário e referência.

O desprendimento com que enfrentava a vida e a indiferença com que olhava para os poderosos, são para mim fatores marcantes da sua vida e do seu legado.

Quem foi então Diógenes?

Foi um filósofo grego, 412 a 323 a.C., que vivia num barril com apenas um alforje, um bastão e uma tigela. Diógenes passava os dias andando por Atenas com uma lamparina acesa, à procura de homens verdadeiros, autossuficientes, virtuosos e honestos.

Provavelmente, uma das melhores histórias de Diógenes é a do seu encontro com Alexandre Magno. Diógenes estava deitado a apanhar sol e Alexandre Magno, sabendo já da sua existência, foi ter com ele e perguntou o que poderia fazer por este. Diógenes respondeu:

“Não me tires aquilo que não me podes dar!”, ou seja, não me tires o sol. (Diógenes estava deitado a apanhar sol e Alexandre Magno ao aproximar-se fez-lhe sombra e tirou-lhe o sol).

Essa resposta impressionou tanto Alexandre que, na volta, ouvindo os seus oficiais zombarem de Diógenes, disse:

Se eu não fosse Alexandre, queria ser Diógenes.”

Diógenes, “por acreditar que a virtude era melhor revelada na ação e não na teoria, a sua vida consistiu numa campanha incansável para desbancar as instituições e valores sociais do que ele via como uma sociedade corrupta.

Já na universidade, aprendi um conceito económico que também nunca mais me saiu da cabeça, a “Externalidade de Rede”.

Muito resumidamente, este conceito não é mais do que a utilidade de um bem depender do número dos seus utilizadores. O melhor exemplo é o telefone. Se só houvesse um telefone no mundo, ele de nada serviria e, quanto mais telefones houver, maior será a utilidade dos mesmos.

Mas então onde é que casa o Diógenes com as Externalidades de Redes?

Casa na corrupção.

Se só houvesse um corrupto, ele de nada serviria e não provocaria danos. A eficiência de um corrupto depende do número total de corruptos.

Atualmente, em Portugal, a corrupção é um dos assuntos na ordem do dia. Todos condenamos, nenhum de nós é, e ela só começa na mesa do lado.

Não podemos esquecer que a corrupção não é só a que aparece nos jornais e nas televisões. Não são só os grandes casos. Não podemos defender uma cultura do mérito, quando não assumirmos que a corrupção é o maior entrave ao desenvolvimento económico, social e humano. Não é por acaso que os países mais desenvolvidos são os de menor taxa de corrupção e vice-versa.

Por isso e por incrível e triste que pareça, o legado de Diógenes, apesar de já ter mais de dois mil anos, é mais atual do que nunca. Não só pela sua luta contra uma sociedade corrupta, mas também pela sua procura por um “Homem”. Dizia ele que já não havia Homens em Atenas…

Espantoso como tudo é atual. Diógenes abdicou da sua zona de conforto, lutou contra a corrupção e apontava a falta de Homens, ou seja, a falta de liderança forte, honesta e virtuosa. Ainda assim, foi considerado um louco e de si contavam-se várias anedotas… O costume, sempre mais fácil do que mudar e assumir maus exemplos.

Diógenes foi ele próprio uma Externalidade de Rede. Foi e continua a ser uma exceção. Foi só um, por isso pouco útil para muitos e um exemplo para poucos.

De lá até cá, e pelo seu exemplo, talvez muito pouco tenha mudado nas sociedades que conhecemos. O pior é que, nos tempos que correm, já ninguém tem coragem de pegar numa lamparina e sair durante o dia para procurar Homens. Esses serão sempre os loucos e também eles uma externalidade.

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Luís Ahrens Teixeira é Sócio-Gerente Herdade da Cortesia Hotel e Presidente da Federação Portuguesa de Remo. Licenciado em economia pela UNL, foi atleta de Alta Competição de Remo entre 1993 e 2004, onde venceu a medalha de bronze nos Mundiais de... Ler Mais